SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

O homem por trás dos versos

Biógrafo de Fernando Pessoa, José Paulo Cavalcanti conta detalhes da pesquisa sobre a vida do poeta

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 15/04/2014 12:12

Vanessa Aquino

José Paulo Cavalcanti: tudo que o poeta português escrevia estava à sua volta 
José Paulo Cavalcanti: tudo que o poeta português escrevia estava à sua volta


Fernando Pessoa: um poeta completo que conversa com 127 heterônimos 
Fernando Pessoa: um poeta completo que conversa com 127 heterônimos



Advogado e consultor da Unesco e do Banco Mundial, José Paulo Cavalcanti também pensou em ser maestro, mas se encantou mais pela sonoridade dos versos do poeta português Fernando Pessoa. Aos 16 anos, leu pela primeira vez o poema Tabacaria. E a reação de espanto o mobilizou a mergulhar na obra de Pessoa e escrever a biografia.

Ontem, em debate na II Bienal Brasil do Livro e da Leitura, no Café Literário Jorge Ferreira, José Paulo Cavalcanti falou da personalidade controversa e marcante do poeta, que colecionava curiosidades, como algumas invenções que nunca patenteou: desenhou uma esfera para máquina de escrever, igual à da IBM; criou um jogo com bonecos em uma mesa, que hoje conhecemos como “totó”.

 Além disso, Pessoa, segundo Cavalcanti, era um homem pobre, mas muito vaidoso. “Por trás do autor, tem o homem que come, veste, dorme. Um homem muito pobre. Descobri, porém, que ele comprava sapatos na sapataria Contente, a mais cara de Portugal. Era a figura de um homem extremamente vaidoso, que usava lenços que combinavam com o chapéu coco.”]


Entrevista/ José Paulo Cavalcanti

Como começou a se interessar por Fernando Pessoa?
Foi como um susto. Ou um espanto. Quando, com 16 anos, li a Tabacaria. Já havia sentido algo parecido ao ler Cem anos de solidão (Gabriel García Marquez). Porque, nos versos, o poeta quase toca o divino. Depois vi que, na Inglaterra, foi escolhido como “O mais belo poema do Século 20”. Em português. Deus tem seus escolhidos. E alguns, ainda mais que os outros. É como se o Homem tocasse no ombro de Pessoa e dissesse que seu destino era o de escrever maravilhas.

Como se desenvolveu sua pesquisa para fazer a biografia do Fernando Pessoa? Foi um processo investigativo intenso?
Ninguém vai acreditar nisso mas é verdade. Foram quase 10 anos de pesquisa. Li tudo. Fui 30 vezes a Lisboa. Contratei lá um jornalista e um historiador, em busca da precisão humanamente possível. Mas tudo começou, mesmo, em um momento mágico. Quando percebi que tudo que Pessoa escrevia estava à sua volta. É comum, em escritores, escrever sobre pedaços de sua vida. Só que, em Pessoa, foi bem mais que isso. Tudo era ele mesmo e sua circunstância. Nesse sentido, sua obra era como um testamento a ser descoberto. Isso percebi, claramente. Depois, reli suas quase 30 mil páginas e constatei que tudo se encaixava. Ganhava sentido. Quando ele diz “Se casasse com a filha de minha lavadeira talvez fosse feliz”, um leitor desatento poderia pensar que seria apenas o desejo de uma vida simples. Com Pessoa, não. Sabia que havia mesmo uma lavadeira, Irene. E sua filha, Guiomar. Daí, para chegar a esse romance suburbano, foi um pulo. Faltando só dizer que passei quase um ano lendo cada frase, em voz alta, ouvindo o som das palavras.

Pessoa carregava algo da própria personalidade nos heterônimos?
Ele era cada um dos heterônimos. Mesmo quando pensava em que fossem diferentes. Álvaro de Campos, por exemplo, começou a escrever como um homossexual; algo que, no fundo, correspondia à sua própria natureza íntima. Só que, em 1920, entra em sua vida um implausível amor, Ophélia Queiroz. E aquele que sonhava com brutos marinheiros para  ser outro. Tanto que, nos últimos poemas, o vemos casado, num ambiente doméstico, conversando com sua mulher. Campos, no fundo, era mesmo Pessoa.

Qual deles mais se aproxima do poeta?
No livro, cheguei a 127 heterônimos. Mas, em verdade, terão sido apenas quatro — Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Alvaro de Campos e Bernardo Soares. Além desses, destaque para Alexander Search, António Mora, Barão de Teive. Mas todos eram Pessoa e o que estava à sua volta. Álvaro de Campos, por exemplo, era de “Campos” por conta de um sósia de Pessoa, Ernesto Campos. Nasceu em Tavira, terra do avô paterno de Pessoa. No dia de nascimento de Virgilio e Kant, duas de suas admirações literárias. Vivia na casa de duas tias velhas, com quem Pessoa vivia. Era engenheiro naval, como o marido da filha de sua tia Anica, que morava num quarto pegado ao dele. Visitou Stratford on Avon, onde era cônsul Eça de Queiroz. Viajou pelo Mediterrâneo (em Opiário), como Pessoa havia viajado. Mas, diferentemente dele, que vai até Lisboa, desembarca em Marselha. Como Rimbaud. Nada nele era por acaso.

Como foi seu contato com os familiares?
Muito bom. Cordialíssimo. Com certas concessões, claro. Por exemplo, disse que o avô dos sobrinhos de Pessoa era sapateiro. Era mesmo, apesar de ter irmão rico. Por conta da Lei do Morgadio, que garante a totalidade da herança apenas ao filho mais velho. A família disse que ficou incomodada. Falei sobre as diferenças com o Brasil. Aqui seria honra, um pai sapateiro ter filhos formados em universidades. Lá, não. Perguntei se poderia trocar sapateiro por “profissão modesta”. Eles aceitaram, com enorme satisfação. E colaboraram muito, depois disso.
Tags:

publicidade