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Aprender com palavras

O escritor conversa com o Correio sobre as influências poéticas, de Drummond a Pessoa, e o peso de Moçambique em sua obra

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postado em 16/04/2014 14:00 / atualizado em 16/04/2014 10:36

Vanessa Aquino

 (Arquivo Pessoal) 

As palavras estão ali, cobertas de poeiras, esquecidas, marginalizadas. É preciso limpar o pó, estar aberto à sua beleza e à força da sua sugestão”

A guerra é um fenômeno estranho. Entranha-se na nossa alma e, mesmo depois da paz, há uma cicatriz que nunca mais fica sarada. A guerra é uma cobra que, para morder, usa os nossos próprios dentes”

De Maputo ao norte de Moçambique, Mia Couto se divide entre as atividades de escritor e o trabalho como biólogo e gestor de empresa que estuda impactos ecológicos. Filho de poeta, Mia aprendeu a se apaixonar pelas coisas que não são visíveis e a encontrar harmonia em pequenos detalhes do mundo. O autor conseguiu, então, transferir para sua escrita as impressões sensíveis de um personagem e testemunha de uma guerra civil que nunca teve fim, de fato. Mia Couto aprendeu a se calar para ouvir as palavras, descobri-las e salvá-las do esquecimento.

Em entrevista ao Correio, o festejado escritor moçambicano — vencedor, entre outros prêmios,  do Camões, em 2013 — falou sobre a realidade em que o país está imerso após a guerra civil, com episódios que ainda podem ocasionar conflitos. Os contextos político e social do país estão, portanto, presentes na literatura de Mia Couto, que teve a família ameaçada de sequestro em um dos auges da violência em Maputo.

Você é filho de poeta. Seu pai o incentivou a escrever?
De um modo muito sutil, sem que déssemos conta de que acontecia ali alguma mensagem. A paixão que ele tinha pela vida, pelas coisas que não eram visíveis, a busca pela beleza, um modo de estar sem estar completamente; tudo isso era já um incentivo. Ele foi um homem muito feliz, capaz de construir felicidade a partir de pequenos detalhes. Esse olhar ensina-se, sim. Ele nos ensinou a todos nós, seus filhos, esse modo de olhar o mundo. Depois, quando já eu me encontrei no prazer da escrita, ele, então, se apresentou como um companheiro, sem nunca se impor com argumentos de autoridade.

Que autores mais o influenciaram você e o que tem lido atualmente?

Foram os poetas que me marcaram mais. Eu venho da poesia, entendendo que a poesia não é apenas um gênero literário, mas uma filosofia, um modo de saber de mim, dos outros e do mundo. Os poetas moçambicanos, brasileiros e portugueses foram os que mais me influenciaram. Alguns franceses e espanhóis que moravam na estante de nossa casa, esses também me marcaram. Devo mencionar, do Brasil, Manuel Bandeira, Drummond de Andrade, João Cabral Melo e Neto e Hilda Hilst. E um outro que, não se assumindo poeta, levou mais longe o labor poético e que foi João Guimarães Rosa. Dos moçambicanos devo referir José Craveirinha e Rui Knopfli. Dos portugueses, não é possível contornar Fernando Pessoa. Mas Sophia de Mello Breyner foi com quem mais aprendi.

Uma de suas características é a “invenção”, ou descoberta, de palavras. Como foi que elas começaram a surgir?

Surgem quando nos calamos, quando estamos disponíveis a escutar. As palavras estão ali, cobertas de poeiras, esquecidas, marginalizadas. É preciso limpar o pó, estar aberto à sua beleza e à força da sua sugestão. Estamos muito amarrados à obediência da norma gramatical, estamos presos ao medo de errar. E aqui regresso às lições da infância: o que o meu pai sugeria era que, perante a beleza, não bastava olhar. Era preciso ser possuído. Para esta transição de identidades, é preciso resgatar do idioma aquilo que não perdeu o sentido do sagrado: a palavra iniciando o mundo.

O conto é seu gênero preferido? Por quê?
Depois do poema, o conto é aquilo que resulta de uma entrega de paixão, somos atravessados por um relampejo, e a história surge como uma revelação inteira, isenta de esforço e de disciplina. O romance é algo diferente, há ali um ir e vir de marés. O conto é outra coisa, é uma inundação. O conto é o namoro, a paixão. O romance é o casamento.

Você é escritor moçambicano mais traduzido atualmente. Além de prêmios e entrevistas, o que esse
reconhecimento lhe permitiu de fato?

Alguma confiança em mim mesmo, talvez. O resto não fez mudar nada. Eu estou perante o texto sempre pela primeira vez. Não existe experiência que me sirva de grande coisa. Não existe escritor que a própria escrita tenha dado esse sentido de conforto por via da consagração. O escritor é sempre posto à prova perante si mesmo, por mais que sejam os prêmios que tenha alcançado.

Como avalia o panorama atual da literatura moçambicana?
Houve uma fase quase estagnada, resultante de duas décadas de guerra civil que matou a escola e o convívio com o livro, a leitura e a escrita em muitas regiões do país. Agora, há novas vozes, gente nova que está surgindo. Também se regista uma rotação clara da poesia para a prosa. Até bem pouco tempo, a poesia era o gênero absolutamente dominante. Isso correspondia a um tempo de utopia, em que se acreditava estar a edificar um novo mundo que tivesse tudo de novo e nada de mundo.

Seus textos são repletos de elementos mágicos. São fantasias captadas da cultura popular moçambicana ou são procedentes de alguma outra inspiração sua?

São as duas coisas. A certa altura, nós somos a terra em que vivemos. Essa fronteira entre o lugar e a gente vai-se esbatendo. Mas eu preciso de estar convicto de que aquilo que está no meu texto é meu, é produto de uma invenção de autor. Inspirado na vida, sim. Mas nunca transcrita, sem a interposição da fantasia.

Ainda há guerra em Moçambique?
Há episódios dispersos que podem degenerar em guerra. E isso é muito preocupante, para quem viveu 16 anos de uma guerra civil cruel.

O governo tenta esconder uma crise?
Acho que não existe ainda uma crise da dimensão da anterior situação político-militar. E entendo que haja cuidado em não empolar o alcance destes episódios militares. Porque isso pode ter graves repercussões num país que continua a ser um foco de atração para o investimento estrangeiro, incluindo o brasileiro.

É difícil dissociar a realidade política  e social do país da sua literatura?
Os meus livros constituem, no fundo, um diálogo entre a história e as histórias (Rosa diria “estórias”) que arriscam a ficar à margem da grande narrativa oficial do tempo. Sem mesmo querer ou apostar nisso como uma missão eu sou, como os meus colegas escritores de Moçambique, um cronista do meu país.

Recentemente, houve uma onda de sequestros em Maputo. Você foi de alguma maneira afetado
com isso? Isso interferiu em algum projeto literário?

Sim, a minha família foi ameaçada. E sofremos muito com a hipótese de nossos filhos e netos poderem ser vítimas dessa violência. Recordo-me de que, no mesmo dia em que recebemos ameaças de sequestro, eu ia a uma cerimônia pública para receber um prêmio literário. A cerimônia era transmitida ao vivo pela televisão. Aproveitei o momento para denunciar essa onda de temor que atravessava a sociedade urbana. Creio que ajudei a iniciar um movimento de pressão para que as autoridades policiais tomassem uma posição mais clara na defesa da tranquilidade pública.
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