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Biografias, guerras e literatura em discussão

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postado em 16/04/2014 14:00

Ruy Castro, Toninho Vaz e José Paulo Cavalcanti Filho: polêmica com famílias de biografados  
Ruy Castro, Toninho Vaz e José Paulo Cavalcanti Filho: polêmica com famílias de biografados


A noite de terça foi de polêmicas em torno de temas como sexo, religião, guerras e a própria literatura na II Bienal Brasil do Livro e da Leitura. As discussões sobre o futuro das biografias no país voltou à mesa com Ruy Castro, Toninho Vaz e José Paulo Cavalcanti Filho no debate Biografias: literatura, história e identidade cultural. Castro narrou como, durante três anos, manteve contato intenso com a família de Garrincha para escrever Estrela solitária e acabou censurado pelas filhas do jogador.

Segundo o escritor, elas sempre estiveram cientes da biografia, mas acabaram por ameaçar a editora e propor um acordo deR$ 1 milhão para autorizar a publicação do livro.

“Elas ligaram para a editora para dizer que o livro caluniava o Garrincha, explorava a história dele, e que eu não tinha permissão para fazer esse livro. Disseram que iam meter um processo. Diante do silêncio do outro lado da linha, elas disseram que tinha acordo, e que o acordo era R$ 1 milhão. A editora disse que não tinha acordo, e o processo se arrastou por 11 anos, até que elas pediram um acordo e disseram que se pagassem R$ 30 mil, tudo bem. Se você pagar pode caluniar, mentir”, contou Castro, que também provocou a empresária Paula Lavigne, defensora de que a família do biografado precisa autorizar as publicações. “Perguntei a ela se, pagando o dízimo, eu podia mentir”, contou Castro.

Toninho Vaz também lembrou que Paulo Leminski — O bandido que sabia latim, já estava na terceira edição quando teve a venda suspensa pela família do poeta. “Elas (família) querem dinheiro, o que é uma traição à memória do Leminski, que foi um cara que nunca buscou esse valor pecuniário”, disse Vaz. No auditório ao lado, a discussão estava voltada para o fazer literário. A mexicana Valéria Luiselli, o brasileiro Antônio Prata e a poeta são-tomense Conceição Lima conversaram sobre o trânsito pela poesia, o romance e o conto.

Intercâmbio
Elogiada por Gabriel García Marquez, Valéria falou sobre a tradução em revistas literárias especializadas como o caminho mais efetivo para o intercâmbio entre as literaturas da América Latina. “No México, houve uma boa tradição de revistas literárias que se dedicaram à tradução, eram espaços onde se incorporava a literatura estrangeira”, contou a escritora, na mesa do seminário Brasil, América Latina e África: novas realidades, novos escritores. Já Prata falou sobre o gênero crônica, sua especialidade, e sobre um romance que tenta escrever há alguns anos.

“Essa pergunta, ‘Você acha que a crônica é considerada um gênero menor ?’, sempre vem, mas nunca vi um acadêmico falar que é um gênero menor. Escrevo roteiros, contos e estou escrevendo, há muitos anos, um romance da viagem que fiz para China. A forma do romance é algo que vem com a história. Gosto de outros gêneros e não acho que fazer um romance seria dar um passo literário”, disse.

Intolerância
No seminário Krisis, a temática foi centrada nas guerras, religiões e tolerância ao redor do mundo. O holandês Peter Demant, professor da Universidade de São Paulo (USP), lembrou que há menos guerras no mundo em relação à primeira metade do século 20, mas que o número de conflitos dentro dos estados é muito maior. Demant também falou sobre as consequências da Primavera Árabe. “Se olharmos a Primavera Árabe, essa tentativa espontânea que explodiu no norte da África, essas populações se levantaram contra seus ditadores e esses foram claramente conflitos internos. E até agora isso não conduziu nenhum país árabe à democratização”, disse.

Demant dividiu a mesa com o norueguês Dag Oyesten Endsjo, autor de Sexo & religião, e o jornalista Klester Cavalcanti, autor de Dias de inferno na Síria, no qual fala sobre o seis dias em que ficou preso enquanto cobria a guerra no país de Bashar Al-Assad. Endsjo defendeu que o sexo é uma das maiores fontes de conflito envolvendo religiões. “Sexo é o centro da intolerância religiosa. Quase tudo diz respeito a sexo e, por isso, a intolerância é gerada. Quando se pensa em sexo não é só homossexualidade, mas temas como diferenças de gênero, diferenças básicas em relação ao que é permitido fazer ou não em termos de religião”, disse o norueguês. (MN)

 

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