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Céu de Brasília, traço do arquiteto

Especialistas defendem que o azul, o nascer e o pôr do sol na capital federal devem fazer parte da Paisagem Cultural Brasileira. Presidente do Ibram e ex-chefe do Iphan, Ângelo Oswaldo é um dos entusiastas da proposta

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postado em 23/04/2014 18:00

Thaís Paranhos , Roberta Pinheiro

Sol a pino em um dos cartões-postais da cidade: proteção urbana (Gustavo Moreno/CB/D.A Press) 
Sol a pino em um dos cartões-postais da cidade: proteção urbana

No início, a ideia não foi levada a sério. Parecia não passar de uma brincadeira e se tornou motivo de risadas. Mas, com o passar dos anos — dos elogios e da citação em letras de músicas —, a proposta de tombar o céu de Brasília como Paisagem Cultural Brasileira ganhou força e adeptos na cidade. Nada mais justo do que proteger a imensidão azul, continuidade do traçado de Oscar Niemeyer e parte importante do cenário. A proposta é  do arquiteto Carlos Fernando de Moura Delphim. A campanha ganhou novo fôlego após a publicação de um suplemento especial do Correio, na última segunda-feira, sobre o céu da capital na última segunda-feira.

Além do caderno especial em comemoração ao aniversário de 54 anos da capital, a campanha Pega bem clicar o céu de Brasília despertou entre os admiradores um olhar ainda mais apaixonado. As fotografias enviadas foram colocadas à disposição no hotsite www.correiobraziliense.com.br/ceudebrasilia. Agora, servem como combustível para retomar a antiga ideia de tornar o céu Paisagem Cultural Brasileira.

O céu tornou-se tema de caderno especial do Correio na última segunda-feira (Janine Moraes/CB/D.A Press) 
O céu tornou-se tema de caderno especial do Correio na última segunda-feira

A ideia é levada a sério pelos defensores mais entusiastas de Brasília. “Se as curvas em concreto podem ficar protegidas, por que não a paisagem azul? A proposta do projeto é definir regras de cores, gabaritos, alturas e volumes de construções para não impedirem a vista do céu. Cada lugar tem uma identidade, uma marca. E a de Brasília é o céu”, completou Fernando. O ex-secretário de Cultura Silvestre Gorgulho se recorda que, quando a tevê digital começou a operar no Brasil, ele brigou com as emissoras para que apenas uma torre fosse instalada no DF. “Imagina ter um paliteiro de antenas encobrindo o céu? Se houvesse proteção, isso não seria necessário”, acredita.

Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e ex-presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), se empolga com o projeto. “O chão da cidade já é patrimônio histórico da humanidade. O céu pode ser também. É uma ideia muito bonita”, elogia, lembrando que o momento é favorável para o Iphan se posicionar: o instituto recebe, esta semana, os responsáveis pela manutenção das cidades latino-americanas que são patrimônios históricos. “Há um processo para que o céu da capital seja considerado Paisagem Cultural pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura). E ele começa com o Iphan”, ressalta Ângelo Oswaldo, ex-prefeito de Ouro Preto (MG).

O pôr do Sol em Brasília: explosão de tonalidades sobre a capital (Daniel Ferreira/CB/D.A Press) 
O pôr do Sol em Brasília: explosão de tonalidades sobre a capital

Segundo a Portaria nº 127/2009 do Iphan, a Paisagem Cultural Brasileira é “uma porção peculiar do território nacional, representativa do processo de interação do homem com o meio natural, à qual a vida e a ciência humana imprimiram marcas ou atribuíram valores”. Para que o céu de Brasília receba o título, o governo e a sociedade devem oferecer vantagens sociais e econômicas e divulgá-lo. É preciso, por exemplo, produzir e vender artesanato que tenha como tema o céu da cidade, assim como criar um site para divulgar a ideia. Além da obediência às escalas de construção, o projeto obrigaria a instalação de mirantes e belvederes, com lunetas e telescópios, e o ensino do assunto nas escolas do DF.

De acordo com a presidente do Iphan,  Jurema Machado, não existe projeto para isso no órgão. “O tombamento que a cidade tem é amplo o suficiente para garantir a proteção do céu”, afirmou ela.  “A forma como a capital é tombada, com as escalas de altura de prédios e as limitações das construções, principalmente no Plano Piloto, dá um certo grau de proteção ao céu. Além disso, garante perspectiva e visibilidade em longas distâncias.”

Artigo

Teto abençoado

Não basta cuidar das paisagens, dos cenários e dos monumentos terrenos. Não basta cuidar do corpo, há que se cuidar do espírito. Para cuidar do viver, há que se preocupar com a terra e o céu. A terra está no atingível, e a alma humana gosta de sonhar, garimpando o inatingível. Para conseguir o intangível, nada como olhar para o céu, voar em direção à Lua e às estrelas.

Por isso, o Correio Braziliense, em sua majestosa edição dos 54 anos de Brasília, prova e comprova: é hora de preservar o céu da Pátria, o espaço mais democrático, mais livre, mais abrangente, mais deslumbrante que permite a admiração coletiva e individual de ricos e pobres, dos com muita terra e dos sem terra nenhuma. O céu de Brasília, aberto em 360 graus, onde o olhar dá força à imaginação e provoca arrepios.

Em Brasília, a Lua pode nascer sangrenta, o pôr do sol colore a paisagem e o nascer do Sol é um privilégio para os que acordam cedo buscam o despreguiçar amarelo da cidade. O céu de Brasília mexe com as entranhas de cada brasiliense, que pode, ao longo da maioria dos dias do ano, ler nas nuvens e contar as estrelas. Os índios fizeram do trovão um deus. Fizeram das luas marcas culturais e espirituais. Thor, na mitologia, se empunha como o deus dos relâmpagos, das tempestades e do trovão, como também Zeus, o senhor do Olimpo.

Em 1987, quando o então governador José Aparecido de Oliveira trabalhou para tombar Brasília como Patrimônio Cultural da Humanidade, também riram dele. Ao grande público, a ideia era oportunista, louca e parecia inconsistente. Eu trabalhava com o Aparecido e o que se ouvia era: “Esse governador é louco. Como uma cidade de duas décadas e meia, apenas 27 anos, quer ser patrimônio da humanidade e se aparelhar aos sítios históricos e cidades com mais de 2 mil anos?”.

Assim também é o caso do tombamento do céu de Brasília. Como diz o paisagista e arquiteto Carlos Fernando de Moura Delphim, a proposta não é vaga: “Muitos cidadãos, sobretudo intelectuais pretensiosos, poderão rir. Ninguém deve guiar seus atos por visões irônicas e sim pelos grandes sonhos humanos. O que é sublime para as grandes almas pode ser ridículo para criaturas destituídas de grandeza de espírito. Os puros, os sinceros saberão compreender o significado deste ato”.

O céu de Brasília é tão amplo, mágico e sacrossanto como é o céu do Vale do Amanhecer, de Alto Paraíso e da Chapada dos Veadeiros. Eleva o olhar e a alma de qualquer habitante e dá ao ser humano a verdadeira dimensão sob a grandiosidade do firmamento. Faz do cosmo uma imensidão e de cada um, pequenino grão de areia. Essa constatação espiritualiza o comportamento e purifica as intenções, proporcionando um desprendimento que provoca uma áurea de misticismo e de magia.

O resultado está aí para ser contabilizado e pesquisado: a quantidade de seitas, crenças, bruxos, deuses, movimentos religiosos que se prosperam e são abençoados pelo divino céu do Distrito Federal.

Silvestre Gorgulho, jornalista e ex-secretário de Cultura
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