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Correio Braziliense

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Boneca feita de nó

Sem cola, costura ou qualquer tipo de suporte, a abayomi ajuda a contar parte da história dos negros trazidos de navio da África e que se tornaram escravos no Brasil. Alguns acreditam que o brinquedo traz alegria e prosperidade

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postado em 24/04/2014 18:00

Camila Costa

Maria Sineide ensina a técnica em eventos. Ela conta que, mais que uma fonte de renda, confeccionar as bonecas é uma terapia (Iano Andrade/CB/D.A Press) 
Maria Sineide ensina a técnica em eventos. Ela conta que, mais que uma fonte de renda, confeccionar as bonecas é uma terapia

Os primeiros capítulos dessa história começam antes do século XIX e se passam dentro dos navios negreiros ou tumbeiros, como também eram chamadas as embarcações que traziam para o Brasil escravos negros vindos da África. O episódio narrado a seguir se repete ao longo dos séculos: Sebastiana estava amontoada, junto dos filhos, em um compartimento pequeno e sem luz, como eram os “cômodos” oferecidos para os escravos dentro dos navios. Já incomodada com a fome, a sede e a sujeira, ela quis entreter as crianças. Pegou a barra da saia, puxou com força e arrancou uma tira de pano. Deu um, dois, três, quatro, cinco nós. Estava pronta a Abayomi — a boneca de nó. Nascia ali o artesanato que atravessa gerações e conta um pouco da cultura africana.

Abayomi vem da língua Yorubá (falada no continente africano) e significa “meu presente”. Na prática, são as bonecas de estética magra, originalmente negras. Normalmente, variam de 2cm a 1,20m. São confeccionadas sem cola ou costura, somente com a força dos dedos, para garantir um nó firme. Quem domina a técnica costuma usar restos de tecidos e malhas. O acabamento pode ser feito com miçangas, fitas coloridas e bordados.

Restos de tecidos dão forma a peças divertidas: basta ter paciência (Iano Andrade/CB/D.A Press) 
Restos de tecidos dão forma a peças divertidas: basta ter paciência

Na essência, as bonecas de nós representam a cultura negra, a mitologia, a crença nos orixás. Depois de produzidas nos navios, eram levadas para as senzalas, onde os negros, já como escravos, usavam como amuleto em troca de proteção, sorte, saúde e prosperidade. Como na época os recursos eram poucos, a boneca saía sempre da mesma cor, sem muitos enfeites. Hoje, pode-se encontrar Abayomi até com saia de estampa de onça.

Solte a imaginação
A imaginação é que manda na hora de montar a boneca. O importante e ter calma e zelo na confecção. No Distrito Federal, a técnica é desenvolvida na Oficina Fuá, que fica no Jardim Botânico, na casa da técnica em eventos Maria Sineide Silva de Lima, 53 anos.

O último evento que Maria Sineide participou com as bonecas de nó foi a 2ª Bienal Brasil do Livro e da Literatura, que aconteceu na Esplanada dos Ministérios. Mas elas já apareceram em diversos encontros, como o Fórum Mundial de Direitos Humanos e Intergovernamental de Promoção da Igualdade Racial. “A boneca já rodou por aí, mas quero que rode mais. Quanto mais pessoas verem, aprenderem a fazer, melhor’, afirma.

As bonecas abayomis podem virar chaveiros e amuletos da sorte (Iano Andrade/CB/D.A Press) 
As bonecas abayomis podem virar chaveiros e amuletos da sorte

A missão da boneca, segundo defende Maria Sineide, é correr o mundo com sua história e com a carga de cultura africana impregnada nos tecidos. “A missão é de mim para você, para os outros”, explica. A Oficina de Fuá já foi vista por adultos e crianças e o que é aprendido pode ser usado para fazer uma renda extra ou somente como terapia. “Esse é o meu caso. Quando comecei, me ensinaram para ganhar dinheiro, mas eu queria o lado social e terapêutico. Ajudar, ensinar a pessoas que precisam de uma renda ou distrair a cabeça”, diz.

As Abayomis, ou bonecas de pano, já estão com a cara da Copa do Mundo: confeccionadas em verde e amarelo. A encomenda é grande para o período. Maria Sineide terceirizou os serviços para a época do torneio, mas afirma que, normalmente, prefere presentear do que vender as bonecas. Quando vende, não saem por mais de R$ 4, as de tamanho médio. No entanto, segundo a artesã, a maior satisfação é ensinar. “Não podem ser de tecidos comprados. Tem que ser doados ou achados”, afirma ela. “Minha filha deixou uma blusa aqui e eu precisava de um verde igual ao tom da peça. Arranquei um pedaço e fiz uma boneca. Ela quase me matou quando descobriu”, revela Sineide.

Dependendo do tamanho, elas podem se transformar em colares (Iano Andrade/CB/D.A Press) 
Dependendo do tamanho, elas podem se transformar em colares


Para saber mais

Arte propagada

No Brasil, as bonecas Abayomis apareceram pelas mãos da artesã Lena Martins, educadora popular e militante do Movimento de Mulheres Negras, que procurava na arte popular um instrumento de conscientização e sociabilização. O gosto pelos tecidos e a criatividade foram herdados da mãe, Maria Madalena. Do pai, Waldimir, veio a paciência para confeccionar artigos diferenciados. Foi no Rio de Janeiro, em 1958, que começou a desenvolver o ofício de artesã, utilizando roupas, bonecas de palha de milho e confeccionando bruxinhas de pano. Em 1987, surgiu a Abayomi, feita sem cola ou costura, apenas com nós. Lena mora em Santa Teresa, no centro do Rio, e trabalha exclusivamente com as Abayomis. Faz oficinas e exposições do produto.

Fuá Produções
Maria Sineide: 3427-0066 ou 9977-4199
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