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Correio Braziliense

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Inspiração para os artistas

Cantores e compositores falam sobre a importância do céu de Brasília nas obras deles. Filha do ex-presidente JK apoia a ideia de tornar o firmamento Paisagem Cultural Brasileira e diz que o pai era fascinado pelo espaço aéreo da capital

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postado em 25/04/2014 18:19

Ailim Cabral

alexandre Fortes/Divulgação-8/8/12
A primeira herdeira de Brasília, Maria Estela Kubitschek, 71 anos, se emociona ao falar sobre o céu da cidade. A primeira filha de Juscelino — que, com carinho, se autodenomina “irmã mais velha da capital” — conta sobre a alegria que sentiu ao saber do projeto do arquiteto Carlos Fernando de Moura Delphim sobre o tombamento do espaço aéreo brasiliense. “São ideias muito bonitas, agradeço não só em meu nome e de minha ‘irmã’ caçula, mas também no do meu pai e no da minha mãe, que eram fascinados por esse céu”, diz.

Totalmente a favor do movimento, Maria Estela explica que os tombamentos têm por finalidade proteger bens com significados importantes. Para ela, o céu não é importante somente para a cidade, mas para o país e o mundo. “Se nós somos uma das poucas cidades modernas tombadas como Patrimônio Cultural, por que não fazer o mesmo com o nosso céu?”, questiona (leia Três perguntas para). A arquiteta acredita que o céu de Brasília é parte inerente do título dedicado à capital, de forma que também deveria ser contemplado, se não oficialmente, ao menos no coração dos brasilienses. “Se não for possível legalmente, que ao menos as pessoas se sintam responsáveis por um tombamento simbólico e se dediquem a proteger o nosso céu”, afirma. “É a inspiração para todos nós”, termina. É uma afirmação da qual os artistas nascidos na capital não discordam.

O compositor e vocalista da banda brasiliense Natiruts, Alexandre Carlo, 40, nasceu em Brasília e compôs uma das músicas que se tornou icônica na cidade: Presente de um beija-flor. É raro um brasiliense, principalmente os mais novos, que não cante o trecho “Pra surfar no céu azul de nuvens doidas da capital do meu país”. Alexandre conta que, para escrever a letra, se inspirou nos elementos que constituem Brasília, como o cerrado, o povo com anseios e decepções, e, claro, o famoso céu. Para o músico, o firmamento assume um aspecto especial no período da seca, quando ganha mais tonalidades. Segundo ele, o horizonte não o influencia apenas como artista, mas também como pessoa. “O céu me remete a uma atmosfera de reflexão, calma, amplidão. É um antidepressivo natural”, completa.

Ao lado de Alexandre, outro músico dedica os talentos ao famoso cenário. Toninho Horta, 65, esteve pela primeira vez em Brasília em 1973, quando veio tocar com Gal Costa. A sensação ao conhecer o horizonte foi de um prazer difícil de descrever, afirma. “Eu fiquei impressionado, parecia que era baixo, enorme, o maior que já vi. Dava vontade de pegar, tocar”, conta. Toninho compôs a melodia da canção intitulada Céu de Brasília.

Depois, pediu que o amigo e parceiro Fernando Brant escrevesse uma letra que se encaixasse na obra (Beleza bonita de ver/Nada existe como o azul/Sem manchas do céu do Planalto Central/E o horizonte imenso aberto sugerindo mil direções, diz um trecho). Toninho acrescenta ainda que fica lisonjeado com a aceitação que a cidade teve de sua música. “Eu tenho uma admiração muito grande por Brasília e pelo céu que me inspirou”, discursa. O artista acha que proteger esse patrimônio é mais do que uma obrigação.

Outro entusiasta do horizonte da capital e do tombamento é o poeta e escritor Luís Turiba, 64 anos. Autor de três poemas dedicados especialmente ao céu da capital, ele acredita que o cenário é um patrimônio universal e deve ser protegido, pois é único. Para Turiba, o firmamento brasiliense traz um sentimento de infinitude e profundidade, o que permitiu que o artista não se sentisse órfão do mar do Rio de Janeiro, onde nasceu: “É um mar no céu, ou um céu de mar”. O artista, que voltou para a terra natal, afirma ser grato por tudo que recebeu da cidade, como os filhos e amigos, e que sente saudades de assistir ao pôr do sol por trás da Torre de TV. Para os brasilienses, Turiba deixa um recado: “Resistam, cuidem bem dessa cidade linda”.

Homenagem

TRECHO DA MÚSICA

PRESENTE DE UM BEIJA-FLOR

 
Fim de ano vou embora de Brasília que é pra eu ver o mar
Mas diz pra mãe lá pro final de fevereiro é que eu vou voltar
Que é pra surfar no céu azul de nuvens doidas
Da capital do meu país
Pra ver se esqueço da pobreza e violência
Que deixa o meu povo infeliz
 
Beija-flor que trouxe meu amor
Voou e foi embora
Olha só como é lindo meu amor
Estou feliz agora

Autor
Alexandre Carlo

Banda
Natiruts

Três perguntas para

Maria Estela Kubitschek,
arquiteta e filha do ex-presidente jk

Bruno peres/CB/D.A Press

O que você acha mais fascinante sobre o céu de Brasília?
O céu faz parte da beleza da cidade. Quando Brasília foi projetada, além do Lago Paranoá, foram criados os espelhos d’água que são uma moldura de quase todos os monumentos. O especial é que eles não refletem apenas os prédios, mas o céu também. Você pode ver que, em qualquer fotografia, ele aparece refletido. Esse é o único lugar do mundo que eu conheço onde podemos ver o céu duas vezes: olhando para cima e para baixo. Isso é algo abençoado.

Como seu pai via o céu de Brasília?
Papai era fascinado. Quando vinhamos para cá, comíamos poeira. Mas, quando reclamávamos, ele pedia que não nos concentrássemos na terra e sim no céu. Papai pedia que, quando morresse, fosse enterrado no Campo da Esperança, onde todos os pioneiros e candangos estavam, mas escolheu um lugar específico, onde ele ia durante a época da construção para ver o pôr do sol e namorar o céu de Brasília. Quando o transferimos para o Memorial JK, eu pensei que ele não ia me perdoar por tirar o entardecer dele. Mas, depois que vi pela primeira o sol se pondo no Memorial, eu tive certeza de que ele estaria feliz.

Como era a relação da família com o céu?
Nós todos amamos muito esse horizonte. Quando íamos para o Catetinho, não tinha nada para fazer e, então, mamãe nos levava para fora, e nós contávamos as estrelas. De manhã, corríamos para ver se o céu estava azul. Ele ilumina todo o nosso país, a nossa capital é muito abençoada por ter esse céu que nos protege.
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