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Renovação do recanto nordestino

Depois de seis meses fechada para reforma, a Casa do Cantador reabriu as portas para receber o 3º Encontro dos Campeões do Repente

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postado em 28/04/2014 18:00

Matheus Teixeira

 (Janine Moraes/CB/D.A Press) 


Até quem não é nordestino se empolga com a cantoria e arrisca uma rima. Neste fim de semana, o animado 3º Encontro dos Campeões do Repente recebeu mais de 2 mil pessoas e marcou a reabertura da Casa do Cantador. Fechada há seis meses, o espaço localizado na mais nordestina das cidades do DF abriu novamente as portas, agora, com rampas de acessibilidade, estrutura física reparada e com a promessa de, até agosto, ganhar uma biblioteca. Mesmo após um semestre sem funcionar, a única obra de Oscar Niemeyer fora do Plano Piloto não perdeu a fama de ser a sede das manifestações da cultura popular brasileira.

Mais de 15 duplas de repente disputaram o campeonato que acabou ontem. Apesar de brigar pelo título, todas já estavam satisfeitas só de participar e queriam mesmo comemorar a reabertura do espaço. “É onde os artistas se reúnem, foi construído especificamente para a gente. Sem ele, não sei onde nossa arte seria celebrada”, diz o repentista profissional Valdenor de Almeida, 49 anos. Ele e João Santana, 35, são os atuais tricampeões do Festival Regional de Repentistas.

Santana é o único brasiliense que vive exclusivamente do repente. Filho de piauiense, ele encantou-se com a música do sertão ainda novo, escutando os discos da mãe. Costumava rimar com os amigos e encarava tudo como uma brincadeira. Quando foi apresentado à Casa do Cantador, no entanto, viu que queria aquilo para a vida. “Gostaram da minha primeira apresentação, mas passaram várias dicas para eu aprimorar a minha cantoria. Fui me especializando, até que decidi me profissionalizar”, conta.

Valdenor, por outro lado, começou a cantar em seu estado natal. Veio para Brasília em 1990 e, da Paraíba, trouxe somente a vontade de construir uma vida melhor e sua viola. “Vivi um ano só disso, cantando de bar em bar. Depois, virei servidor público, mas sem nunca deixar o repente de lado”, lembra. Ele fala que a adaptação na capital foi mais fácil do que imaginava. “A minha região é muito presente aqui. Se a pessoa não é nordestina, é filha de um ou conhece alguém de lá. Estamos nos quatro cantos do DF. Me senti em casa desde o primeiro minuto”, afirma.

Dedicação

Para que a cultura não se perca, são necessárias pessoas como Chico de Assis, 51. Ex-diretor da Casa do Cantador, ele dedicou a vida ao repente e hoje organiza eventos, como o Encontro dos Campeões. “Agora, estou mais nos bastidores. Também fazemos outras apresentações, para divulgar o nosso ritmo”, diz. Nascido no Rio Grande do Norte, ele começou a cantar aos 17 anos. Anos depois, em 1994, decidiu morar na capital. “Já tinha vindo para cá outras vezes. Eu era militante político e a Central Única dos Trabalhadores (CUT) pagava para eu rimar nas passeatas que tinham na Esplanada e no ABC paulista”, recorda.

Ele, lembra dos repentes que fazia para milhares de pessoas com o Congresso Nacional de fundo. “Era fácil agradar à militância. Eu sabia tudo e falava sobre o assunto de uma forma muito mais legal que aqueles discursos chatos e intermináveis”, diz. De tanto vir para Brasília, acabou apaixonado pela cidade e, em uma das vindas, resolveu ficar. “Vi que era um lugar cheio de oportunidades e com espaço para o repente”.

O diretor Francisco Chagas conta que poucas das reformas feitas podem ser vistas a olho nu, mas que elas são decisivas para que a casa viva por outros 27 anos. “Trocamos o piso e toda a parte elétrica e hidráulica. Reformamos completamente a parte estrutural”, assegura. A estátua do repentista anônimo, que fica em frente ao espaço, também foi reparada. “Estava muito malcuidada. Os dedos estavam quebrados, estava descaracterizada”, critica.

A principal novidade da Casa do Cantador deve chegar em agosto, garante Chagas. “Iremos construir uma biblioteca voltada exclusivamente para o cordel e para os escritores nordestinos”, afirma. Dos R$ 250 mil que teve este ano para investir na casa, ele destinou R$ 60 mil para a compra de livros. “Também vamos começar a gravar todas as apresentações que têm aqui para guardar no nosso acervo. Quando virei diretor, me surpreendi, porque nem fotos antigas do local eu achei. Queremos preservar a nossa memória.”

» Céu de Brasília

Repente da dupla de repentistas
João Santana e Valdenor de Almeida

Cantar o céu de Brasília é descrever a pureza
As estrelas mais brilhantes, o azul com mais clareza
O retrato mais perfeito das obras da natureza

Seu espaço tem beleza e é de Deus uma faceta
Não tem nada de fumaça para deixar a nuvem preta
E é esse o céu mais bonito de todo nosso planeta

Mais brilhante que um cometa no espaço sideral
Mais bonito que um reflexo da aurora boreal
O céu se põe ponto a gente em um êxtase sem igual

O Distrito Federal é o estado que permeia
Fica muito mais bonito quando tem a lua cheia
Deixando o céu mais romântico para quem pelo chão passeia

Nesse céu a lua cheia brilha bem mais prateada
É bela ao amanhecer; bonita na madrugada
Não há céu igual a esse nem na Bíblia Sagrada

Na alvorada ou no final dos madrigais
A sua coloração bastante nos satisfaz
Olhando o céu de Brasília eu me inspiro muito mais

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