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LITERATURA »

Escrita que nasce do caos

Autores de países africanos com históricos de conflitos, guerras civis e lutas pela independência apresentam ao mundo a nova face de seus países

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postado em 28/04/2014 18:30

Vanessa Aquino

Movimento pela libertação de Angola: a revolução teve impacto nas novas gerações de escritores  (Stephane de Sakutin/AFP - 31/8/12 ) 
Movimento pela libertação de Angola: a revolução teve impacto nas novas gerações de escritores


Vanessa Aquino
Se os resultados de uma guerra são nefastos, se a violência causa medo, dor e revolta, como a população entende que a arte pode nascer do caos? A literatura tem se mostrado arma de reconstrução de perfis e identidades de várias nações africanas imersas na desordem de conflitos, nas guerras civis e na busca pela consciência política, cultural e social. Antigas colônias revelaram grandes autores e obras marcadas pela história recente dessas nações. A realidade, em alguns casos, é tão misteriosa e surreal que os fatos se confundem com o produto da mente fértil do artista. Tudo, no fim, parece ficção.

» Duas perguntas para Conceição Lima

 

 (Lula Lopes/Esp. CB/D.A Press ) 

SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE
São Tomé e Príncipe conquistou a independência em 1975 e tem uma representante forte no universo literário. Conceição Lima é considerada um dos nomes mais importantes da poesia africana contemporânea e uma das vozes mais contundentes da história recente do país. Marcados por fluxos da história, na qual o eu-lírico, não raras vezes, confunde-se com a voz coletiva.

Em Os heróis você apresenta a força política da sua poesia.
Há uma motivação maior em tratar de memórias conflituosas em versos?
A minha poesia inscreve um certo olhar para a nação e também para a África, que passa pelo resgate e mineração de fatos e memórias traumáticas num processo que transcende os limites ideológicos. Esse processo íntimo, pessoal, é tecido ou destecido pela lírica e a linguagem é o seu cerne. Muitos dos poemas representam um confronto com memórias dolorosas, traumáticas, conflituosas. Porém, a motivação não é meramente fixá-las, mas sim expô-las reflexivamente e iluminar, por via da linguagem poética, trechos e momentos soterrados, os sujeitos marginalizados, os assassinados pela vida e pela história. Acredito que do fluxo dessas memórias conflituosas possa emanar e emergir uma certa esperança, tornando o poema habitante da nudez do sonho primordial, da inteireza da luz, do útero da casa.

O que significou a luta pela democracia e  independência de São Tomé, sobretudo no que diz respeito à liberdade de expressão?
O golpe militar e a revolução do 25 de Abril em Portugal abriram caminho a uma explosão de vozes irmanadas no desejo de  “independência total e imediata”. Hoje, sabemos que a euforia da entoação do hino e do hastear da bandeira a 12 de julho de 1975 marcavam o início de uma nova e  difícil caminhada. Desde que foi introduzido o multipartidarismo, em 1991, ninguém foi preso ou detido por delito de opinião e isso é muito importante. Já no que toca à manifestação do direito de imprensa, existem tentações. Uns governos inclinam-se a um maior fechamento dos órgãos estatais, outros são mais respeitadores do pluralismo. Eu própria fui vítima, em 2010, de um ato de censura, quando o meu programa de entrevista Em directo foi extinto por ordem do governo. Contudo, no cômputo geral,  São Tomé e Príncipe é um caso raro de liberdade de expressão no continente africano. Hoje, a debilidade econômica do país dependente fundamentalmente de ajudas externas.

» Duas perguntas para Mia Couto
 (Lula Lopes/Esp. CB/D.A Press ) 

MOÇAMBIQUE
O moçambicano Mia Couto é o escritor africano mais traduzido atualmente e tem a história da própria vida marcada pela realidade dura da guerra civil. Os frisos causados pelos conflitos estão todos bem traçados em contos e romances. A situação atual de Moçambique ainda não é clara, mesmo após a guerra. Novas batalhas civis ameaçam estourar o tempo todo, e a população vive o modo de nova guerra iminente.

Como o conflito entre Frelimo e Renamo afetou sua literatura?
A guerra é um fenômeno estranho. Entranha-se na nossa alma e, mesmo de pois da paz, há uma cicatriz que nunca mais fica sarada. A guerra é uma cobra que, para morder, usa os nossos próprios dentes. Mas devo confessar que, para além dos horrores, a guerra revela situações de resposta, suscita fenômenos de oposição à tentativa de desumanização. Vi casos de pessoas que se pensavam frágeis e medrosas se revelarem como exemplos de coragem e solidariedade.

Recentemente, houve uma onda de sequestros em Maputo. Você foi, de alguma maneira, afetado
por isso? Isso interferiu em algum projeto literário?

Sim, a minha família foi ameaçada. E sofremos muito com a hipótese de os nossos filhos e netos poderem ser vítimas dessa violência. Recordo-me de, no mesmo dia em que recebemos ameaças de sequestro, eu ir a uma cerimônia pública para receber um prêmio literário. A cerimônia era transmitida ao vivo pela televisão. Aproveitei o momento para denunciar essa onda de temor que atravessava a sociedade urbana. Creio que ajudei a iniciar um movimento de pressão para que as autoridades policiais tomassem uma posição mais clara na defesa da tranqüilidade pública.

» Duas perguntas para Nnedi Okorafor
 (Anya Okorafor/Divulgação ) 

Nigéria
A jovem escritora nigeriana Nnedi Okorafor constrói narrativas em cenários de ficção científica e traça uma linha crítica a respeito da realidade obscura em que a nação está mergulhada. Em Lagoon, lançado no início deste ano, aliens invadem a Nigéria e interagem com a população. A leitura leva a reflexão sobre reações humanas e não humanas.

"Minha perspectiva sobre a diversidade étnica é única"
Nnedi Okorafor, escritora


É difícil para os escritores nigerianos publicar em seu próprio país? Existe algum programa de incentivo
governamental aos autores nacionais?

Publicar, na Nigéria, não se restringe à venda do seu trabalho a um editor. É preciso encontrar um editor. Publicar na Nigéria é difícil por muitas razões, inclusive encontrar boas impressoras no país. Quando não se consegue imprimir aqui, a lei dificulta realizar o trabalho no exterior. O ministro das Finanças, Ngozi Okonjo­Iweala, recentemente impôs uma tarifa de 62,5% para a importação de livros. Antes, eles eram isentos.

A diversidade étnica é uma marca do país. Ela está presente na literatura? Como você trata isso nos seus livros?

Minha perspectiva sobre a diversidade étnica é única. Meus pais são imigrantes e fui criada nos Estados Unidos. Enquanto crescia, visitei meu país com frequência e tenho, por parte de mãe e pai, sangue igbo. Culturalmente, percebo minha terra com a visão de alguém que vive, ao mesmo tempo, no exterior e dentro do país — e alguma coisa, além disso, que não sei classificar. Isso se manifesta em meu trabalho de inúmeras maneiras. Em meu romance de estreia, Zahrah the windseeker, misturei aspectos étnicos e culturais nigerianas ao criar o mundo de Zahrah. Ao lê­lo, você percebe nomes, tradições e comidas ioruba, igbo, hausa e efik. Em Who fears death, escrevi sobre um Sudão do futuro onde o povo incorporou a cosmologia e a cultura igbo. Estou sempre atenta à diversidade e seus aspectos de fluidez e jovialidade, que emprego em histórias de ficção especulativa.

» Duas perguntas para Pepetela
 (Gustavo Scatena/Imagem Paulista/Divulgação) 

ANGOLA
O escritor Pepetela nasceu em Benguela e foi político, governante e guerrilheiro do Movimento Pela Libertação de Angola (MPLA), além de ter títulos importantes — como o Prêmio Camões de 1997—por narrativas que retratam a sociedade angolana. A preocupação de Pepetela em mostrar os traços que passaram a desenhar o país o transformou em referência  e levou Angola a ser lida pelo mundo, especialmente no Brasil.

 

É difícil para os escritores nigerianos publicar em seu próprio país? Existe algum programa de incentivo
governamental aos autores nacionais?

Publicar, na Nigéria, não se restringe à venda do seu trabalho a um editor. É preciso encontrar um editor. Publicar na Nigéria é difícil por muitas razões, inclusive encontrar boas impressoras no país. Quando não se consegue imprimir aqui, a lei dificulta realizar o trabalho no exterior. O ministro das Finanças, Ngozi Okonjo­Iweala, recentemente impôs uma tarifa de 62,5% para a importação de livros. Antes, eles eram isentos.

A diversidade étnica é uma marca do país. Ela está presente na literatura? Como você trata isso nos seus livros?
Minha perspectiva sobre a diversidade étnica é única. Meus pais são imigrantes e fui criada nos Estados Unidos. Enquanto crescia, visitei meu país com frequência e tenho, por parte de mãe e pai, sangue igbo. Culturalmente, percebo minha terra com a visão de alguém que vive, ao mesmo tempo, no exterior e dentro do país — e alguma coisa, além disso, que não sei classificar. Isso se manifesta em meu trabalho de inúmeras maneiras. Em meu romance de estreia, Zahrah the windseeker, misturei aspectos étnicos e culturais nigerianas ao criar o mundo de Zahrah. Ao lê­lo, você percebe nomes, tradições e comidas ioruba, igbo, hausa e efik. Em Who fears death, escrevi sobre um Sudão do futuro onde o povo incorporou a cosmologia e a cultura igbo. Estou sempre atenta à diversidade e seus aspectos de fluidez e jovialidade, que emprego em histórias de ficção especulativa.

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