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Há 40 anos, berço de sonhos

Fundada em março da 1974, a Escola de Música de Brasília foi concebida pelo maestro Levino de Alcântara para ser celeiro do clássico. O samba e o rock, no entanto, encontraram espaço na instituição, que está prestes a ser ampliada, com filial em Ceilândia

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postado em 28/04/2014 16:00 / atualizado em 28/04/2014 13:04

Ariadne Sakkis

Diretor da escola, o maestro Ayrton Pisco acredita na necessidade de expandir o alcance da instituição: projeto de nova filial sai do papel ainda este ano (Janine Moraes/CB/D.A Press) 
Diretor da escola, o maestro Ayrton Pisco acredita na necessidade de expandir o alcance da instituição: projeto de nova filial sai do papel ainda este ano

Sob a porta principal do auditório, uma placa escrita em inglês pode ser traduzida como a alma da Escola de Música Levino de Alcântara, mais conhecida como Escola de Música de Brasília. “Nós somos os fabricantes de música e nós somos os sonhadores dos sonhos.” A frase de Willy Wonka, protagonista de A Fantástica Fábrica de Chocolate, é um resumo poético dos 40 anos de existência da instituição responsável pela formação musical de Brasília.

Os corredores quase não mudaram desde a fundação, em 11 de março de 1974. O som, no entanto, foi bastante modificado. A escola foi concebida pelo maestro Levino de Alcântara (leia Para saber mais), também criador do Madrigal de Brasília, para ser um celeiro de música clássica na cidade. No início, os alunos aprendiam instrumentos típicos de orquestra, como violino, clarinete, trombone e contrabaixo, e o objetivo era formar músicos capazes de integrar sinfonias. Entretanto, em pouco tempo, a música popular encontrou seu caminho rumo à escola. Em 1978, a Sala de Concertos abrigou um show de Cartola, que ali mostrou composições que à época já eram obras-primas, como Acontece e O mundo é um moinho, e As rosas não falam. Da pluralidade de sons, floresceram orquestras sinfônicas, como a do Teatro Nacional, e cantoras de rock, como Cássia Eller. “Aqui é onde a guitarra encontra a viola de gamba”, resume o diretor da escola, maestro Ayrton Pisco.

Mesmo com portas abertas à música popular, toda e qualquer formação na escola começa com o ensino do clássico. “São cinco séculos de história. A música clássica é a base, tudo converge para ela, que não se restringe a momento e a lugar”, acredita Pisco. Essa veia ganhou fôlego extra com a criação da Orquestra Sinfônica da Escola de Música neste ano. Na última quarta-feira, o conjunto fez o terceiro concerto, em homenagem ao aniversário de 54 anos de Brasília.

Há um ano e meio, o analista de sistemas aposentado Frederico Otávio tem aulas de contrabaixo:  
Há um ano e meio, o analista de sistemas aposentado Frederico Otávio tem aulas de contrabaixo: "Acho que o governo cuida mal da escola"

Crescimento
O tempo agigantou a Escola de Música. Em quatro décadas, o número de alunos aumentou mais de cinco vezes. Hoje são 2,7 mil estudantes aprendendo e aperfeiçoando a prática de 100 instrumentos diferentes. Isso sem contar o Curso de Verão, de renome nacional e internacional, que há 36 anos atrai mil alunos e a elite da música brasileira e estrangeira em todo mês de janeiro. Em algum momento, o talento de Ney Matogrosso, Hamilton de Holanda, Jorge Helder, Pedro Oséias, Luciana Tavares e Sandro Araújo foi lapidado ali.

Ainda assim, Pisco acredita que é preciso expandir o alcance da instituição. “Criou-se um estigma de que música clássica é coisa de elite. Isso é uma injustiça. A exclusão está no comportamento. A música clássica é um aspecto construtivo da sociedade, da cidadania. Temos potencial e precisamos fazer isso”, aposta o diretor. Parte desse projeto pode estar em vias de se tornar realidade.

De acordo com a Secretaria de Educação, até o segundo semestre, a Escola de Música Levino de Alcântara deve ganhar a primeira filial. Uma unidade de ensino musical ocupará o prédio do Sesi em Ceilândia. A ideia é, nos primeiros meses, oferecer aulas que não exijam tanta estrutura, como violão e instrumentos de sopro. “Nosso plano é expandir a Escola de Música. Essa é uma demanda de várias cidades”, explicou o secretário de Educação, Marcelo Aguiar.
Encontro de gerações


A paraense Raquel Lopes tem apenas 17 anos, e o violino faz parte da vida dela há 10. Os primeiros acordes saíram na igreja. O encontro com Bach, no entanto, deu-se na sala de tijolinhos da Escola de Música de Brasília, a qual frequenta desde os 11 anos. “Tudo que sei de técnica, de teoria, aprendi aqui. Foi aqui que conheci música”, diz a adolescente, que participou da formação de uma orquestra. A professora, Karla Oliveto, formou-se na escola onde hoje leciona. “Fui aluna desde o Crescendo com Música. Fiz música na Universidade de Brasília e voltei para dar aula. A escola é o berço dos músicos da cidade”, acredita.

Todos os dias, o analista de sistemas aposentado Frederico Otávio, 54 anos, vai à Escola de Música, duas vezes na semana, para ter aulas. Nas demais vezes, vai para praticar o suficiente para conseguir “tirar um som” do contrabaixo, instrumento que aprende há 1 ano e meio. “Uma hora, sai”, brinca. Os três filhos dele tiveram aulas de piano e guitarra  lá. “Só acho que o governo cuida mal da escola. Isso aqui deveria ser prioridade.”

Na sala de percussão, a turma do professor Wellington Vidal está ensaiando uma rumba. O xilofone, o vibrafone e a marimba estão na instituição há mais tempo do que o educador, e olha que lá se vão 28 anos de escola. “Nesses anos todos, por mais que a gente peça, faça lista de substituição, não acontece nada. São instrumentos muito utilizados que precisam ser repostos”, esclarece o docente. Como a escola não tem orçamento próprio e depende de repasses incertos, não há recursos garantidos para reformas estruturais — não vistas ali há muitos anos —, segurança e compra de equipamentos.
 
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