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Correio Braziliense

Na terra das cavalhadas

Flipiri começa amanhã com 60 autores convidados, ênfase na formação de leitores e encontro entre escritores e alunos das escolas de Pirenópolis

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postado em 29/04/2014 16:40 / atualizado em 29/04/2014 17:15

Nahima Maciel

Jair Bertolucci/TV Cultura-17/08/10
O diálogo entre as letras e a arte vai tomar conta de Pirenópolis a partir de amanhã, quando um total de 60 escritores e ilustradores desembarcam na terra das Cavalhadas para um evento que tem fincado raízes cada vez mais profundas na cidade histórica. Com a cara do interior de Goiás e ancorada no tema Literatura e viagem, a 6ª Festa Literária de Pirenópolis (Flipiri) traz para a cidade vizinha quatro dias de vivências em torno da leitura, como a possibilidade de visitar outros mundos sem sair do lugar.

Este ano, a festa homenageia o arquiteto Elder Rocha Lima e os escritores Marcelo Carneiro da Cunha e Ignácio de Loyola Brandão, além de receber o primeiro convidado estrangeiro, o ilustrador norte-americano Todd Parr. A ilustração, aliás, tem adquirido cada vez mais importância na festa. No ano passado, a Flipiri recebeu o primeiro encontro de ilustradores. A idealizadora do evento, Íris Borges, achou apropriado, já que o tema era a imagem. “A gente pensava que era um encontro pontual, por causa do tema, mas as pessoas começaram a falar naturalmente que no próximo ano haveria outro, então acho que agora vai ter mesmo”, avisa Íris.

Organizada pelo Instituto Cultural Casa de Autores, a sexta edição da Flipiri está dividida em blocos, que ajudam a traçar um perfil da festa. O primeiro deles, o itinerância, é também o mais acalentado por Íris, já que promove o encontro entre alunos de escolas da região e os escritores convidados.

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No total, mais de 5 mil alunos participam do projeto. Um mês antes da festa, as escolas recebem uma seleção de livros dos autores convidados, e os professores preparam as leituras com os estudantes. Dois dias antes do início da Flipiri, acontece o encontro. “A gente percebe o crescimento na formação das crianças ao longo desses anos de trabalho. É um crescimento do processo, e a comunidade está se apropriando”, comemora Íris.

Nesta edição, dos 60 convidados, 22 visitarão as escolas, entre eles os homenageados Ingácio de Loyola Brandão e Marcelo Carneiro da Cunha, além do poeta Nicolas Behr. “Este ano a gente também vai levar os ilustradores às escolas. Essa coisa da confecção do livro enquanto objeto de arte está crescendo muito na Flipiri”, avisa a idealizadora, que este ano também resolveu trazer para a festa os trabalhos das crianças com a Flipiri Mirim.

O encontro de escritores forma o segundo bloco, com mesas de autores independentes, sessões de autógrafos, palestras e oficinas de textos. Entre os convidados, estão Dad Squarisi, colunista do Correio Braziliense, Vera Lúcia Dias, Lucília Garcez, Nicolas Behr, Giovani Iemini Alessandra Roscoe, Tânia Loureiro e Maria do Sol Vasconcelos.

O encontro de ilustradores, do qual participam nomes como Jô Oliveira, Gougon e Jorge Braga, é o terceiro bloco do evento, que terá ainda uma parte dedicada à arte, com apresentações de música, como a do grupo Patubaté, que também realizará uma oficina.

 Depois de seis edições, Íris Borges acredita que a Flipiri já faz parte do calendário da cidade e tem estrutura sólida com o objetivo de formar leitores e público na comunidade local. “É uma festa que tem o objetivo de fazer com que a comunidade de Pirenópolis se envolva com a leitura e o livro”, explica a idealizadora, que teve a ideia enquanto visitava a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no Rio de Janeiro.

TRÊS PERGUNTA PARA/ Ignácio de Loyola Brandão

O que te traz à Flipiri pela quarta vez?
Pirenópolis já está entrando no mapa cultural. Todo mundo tem um carinho pela cidade e toda vez que falo que vou, me dizem, “ah, não me convidam!”. Aí eu esnobo e digo: “Não te convidam, mas me homenageiam”. É uma festa muito preocupada com a formação de leitor. Você tem essas grandes festas literárias, inclusive a Flip, que é para uma elite, fechada para um grupo de pessoas que podem pagar muito bem e que nem perguntam. Já fui em várias Flips, (e, depois das mesas, as pessoas) saem correndo para os restaurantes. A Flipiri vai às escolas e leva os escritores para falarem com as crianças. Isso é fundamental, porque é nesse momento que você começa a capturar essas pessoas.

Seu novo livro é sobre viagens literárias. Por quê?

Porque no ano passado fiz quase 50 cidades de norte a sul, quase uma por semana, e aí fui descobrindo um Brasil oculto, onde tem pessoas fazendo coisas. Em cada pontinho tem gente dedicada que não está defendendo um governo, um patrocínio, gente que se entrega. Seja no Acre, seja em Pirenópolis, em Concórdia (SC) ou Macapá. Fui anotando as comidas, as maneiras de falar, o trabalho que vem sendo feito. Fui falar no Amapá em escolas ribeirinhas, a coisa mais bonita era a meninada de olho perguntando. Essas histórias todas foram virando um Brasil que atua e que não consta nas pesquisas. Encontrei muita gente das classes C, D e E lendo. Só que as pesquisas ficam ali na classe média, do “ah, é que não pode comprar livro”. Não é só poder comprar livro, essa gente está lendo livro em biblioteca, está tendo livro disponibilizado. No Ceará, você tem os agentes da leitura, que são jovens universitários que saem de bicicleta com a mochila de livros nas costas e vão para os bairros, pelas estradas, entram nos sítios, favelas e chácaras e levam o livro para as populações. Tem coisa bonita por aí. E esse livro é o registro disso tudo.

Você será um dos autores que vão visitar as escolas. Surpreende-se  muito com as crianças?
Surpreendo-me, porque às vezes elas notam um detalhe no livro que não era o mais importante para mim, que eu achava que era outra coisa ou outra frase. Aí ela vem e aponta. Isso mostra que a gente escreve o livro, e o leitor é variado. O leitor é que descobre o livro. E o professor tem que deixar o livro em aberto para que o aluno tire suas conclusões. Fico muito preocupado quando vem livro com esses manuais do professor. Porque tem muito professor preguiçoso que lê o manual e pergunta qual a resposta. Aí o menino não deu a resposta que está no manual e leva nota baixa. Isso me deixa muito triste porque cada um pensa uma coisa, cada um vê de um jeito, cada um tem uma cabeça.
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