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Além do documentário

Festival É Tudo Verdade destaca a diversidade da produção contemporânea e a tendência de uma mistura de estilos

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postado em 30/04/2014 17:06

Ricardo Daehn

Festival É Tudo Verdade 2014/Divulgação
“Uma das marcas do documentário contemporâneo é exatamente o da afirmação da subjetividade do discurso, na contracorrente do que se estabeleceu como imagem pública do documentário — ou seja, perde terreno a narrativa neutra, didática e impessoal a respeito de algum tema. A seleção do festival É Tudo Verdade, deste ano, naturalmente espelha esta tendência”, demarca Amir Labaki, o diretor do evento, que tem programação com entrada franca, a partir de hoje, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

Reforçando a observação de Labaki, os dois filmes premiados, Homem comum (vitorioso entre fitas nacionais, com exibição às 20h) e Jasmine (no âmbito internacional) se apegam à essencial “transparência da subjetividade dos enfoques, ainda que em estilos de cinema bem distintos”, nas palavras do fundador da mostra, que chega à 19ª edição. Enquanto Homem comum, de Carlos Nader, traz até paralelo com clássico dinamarquês de Carl Dreyer, ao contar enorme parte da vida do caminhoneiro Nilson de Paula, Jasmine (de Alain Ughetto) centra fogo na análise do amor quase impossível entre um cineasta francês e uma cidadã iraniana.

A largada nas sessões do festival, hoje, às 14h, cabe a Nelson Mandela: O mito e eu, feito pelo diretor Khalo Matabane, que reconstruiu a imagem do líder da África do Sul sem renegar defeitos do aniquilador do apartheid. Em seguida, às 16h, a sensação de legado é retomada, mas em minúscula escala, com Aldeia de Alao do chinês Li Youjie.

Uma sociedade diversificada puxa o interesse dos espectadores de Eixo óptico (às 18h), no qual imagens de cidadãos comuns de uma Rússia czarista (eternizada por um fotógrafo do século 20) são analisadas por tipos igualmente anônimos, contemporâneos e em busca de pertencimento, e que se deixam fotografar, ao interpretarem situações dos antepassados.

Urgência
A engrenagem e o trânsito das mercadorias artísticas — até com alto teor de especulação financeira — são o tema, amanhã, às 18h, de A corrida da arte, assinado pela francesa Marianne Lamour. É Tudo Verdade, na versão resumida para a capital, ganha vigor, pelo caráter de urgência do registro e pela “estrutura em discurso não ficcional”, nas palavras de Labaki, com 20 centavos (sábado, às 16h) e Retorno a Homs (domingo, às 16h). “No primeiro, há a inaugural tentativa de organizar os registros múltiplos e fragmentários das jornadas de protesto de junho passado em São Paulo. Já no outro, apresenta-se, com uma crueza muito distante do registro jornalístico rotineiro, o impacto trágico da ainda corrente guerra civil na Síria. São documentários de crise, tornados mais ‘quentes’ pelas novas possibilidades de registro, edição e distribuição advindas da revolução tecnológica do digital”, explica o diretor do evento, autor de, entre outros, Introdução ao documentário brasileiro (2006).

Com direito a um filme chileno (pertencente ao segmento Foco Latino, amanhã, às 16h) feito pelo escritor Alberto Fuguet e batizado de Lugares: À procura de Rusty James, o festival se afirma na diversidade. Tanto que Miriam Chnaiderman comanda De gravata e unha vermelha (sábado, às 14h), com narrativa avessa a limitações e rótulos (no tocante à sexualidade).

Alternativas
Outro exemplo da amplitude dos assuntos está no longa Um sonho intenso, de José Mariani, que versa sobre implantação (e ausência) de infraestrutura e de modelos nas mais diferentes conjunturas de desenvolvimento do país. “Ele é muito bem estruturado e homogêneo. A diversidade é própria dos temas que chegam, como nesse filme, ao exame de alternativas de políticas econômicas, sobretudo nos últimos 60 anos no Brasil”, adianta Amir Labaki.

Consagradas na recorrência da ficção, uma dobradinha de cineastas promete gerar muito interesse no público, mesmo que com caráter retrospectivo, na sexta-feira. “São dois títulos selecionados pelo tom vigoroso de Helena Solberg (à frente de Camen Miranda: Banana is my buisness) e Shohei Imamura (do clássico A balada de Narayama). “Karayuki-san: A fabricação de uma prostituta (1975), do Imamura, é exemplar do mergulho dele, em sua pouco conhecida fase documental, nas margens da sociedade japonesa e de outros países asiáticos”, conclui o estudioso.

É Tudo Verdade 2014
Centro Cultural Banco do Brasil (SCES, Tr. 02, Lt. 22, 3108-7600). Hoje, às 14h, Nelson Mandela: o mito e eu; às 16h, Aldeia de Alao e às 20h, Homem comum. Entrada franca. Não recomendado para menores de 14 anos.

“No festival, há documentários de crise, tornados mais ‘quentes’ pelas novas possibilidades de registro, edição e distribuição advindas da revolução tecnológica o digital”
Amir Labaki, fundador do festival É Tudo Verdade

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