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Craques da vida

Operários do Estádio Mané Garrincha estrelam documentário sobre campeonato realizado por eles em pleno canteiro de obras

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postado em 06/05/2014 10:30

Lucas Lavoyer - Especial para o Correio

Operários bons de bola: um dos 64 times que disputaram a  
Operários bons de bola: um dos 64 times que disputaram a "Copa antes da Copa", filmados pela diretora brasiliense Virna Smith


Em vez de capacetes, ferramentas e aparatos de segurança, chuteiras, meiões e números estampados nas camisetas. Ao menos por algumas tardes, os operários responsáveis pela reforma do Estádio Nacional Mané Garrincha substituíram estrelas do futebol e protagonizaram o que chamaram de “a Copa antes da Copa”. Em meio às arquibancadas vazias e um verdadeiro canteiro de obras, os funcionários da construção organizaram um campeonato, gravado em forma de documentário pela diretora carioca, radicada em Brasília, Virna Smith. O longa Operários da bola estreia nacional dia 16 (hoje tem pré-estreia no Espaço Itaú de Cinema só para convidados).

A película de Virna é alicerçada sobre o envolvimento de alguns dos terceirizados que reconstruíram o Estádio Mané Garrincha com o futebol e com a Copa do Mundo de 2014 — a bola começa a rolar no próximo 12 de junho. Enquanto o local ainda nem estava na metade da reforma, centenas de funcionários, marcados pelo sonho de ser jogador de futebol profissional (ou até mesmo de pelada), protagonizaram a Copa Solidária dos Operários da Bola, durante o mês de abril de 2012. “Não há classe social, chefe nem patrão. Existe apenas uma única corrente: a paixão pelo futebol”, destaca a sinopse do filme.

Na “Copa antes da Copa”, os operários conseguiram organizar 60 times masculinos e quatro femininos, que disputaram partidas todas as semanas. “Eles fizeram o campeonato para poder suprir a vontade de um dia jogar como um craque, em um grande palco como o Mané Garrincha. Aproveitaram que estavam construindo um estádio para ter essa chance”, garantiu a diretora do longa. As partidas ocorriam sempre às sextas, aos  sábados e domingos.

O longa Operários da bola foi gravado durante o torneio interno e concentra a trama sobre a vida de quatro funcionários, principalmente. Virna descobriu algumas histórias e acompanhou o cotidiano de Bala, ex-jogador profissional que só passou a trabalhar nas obras depois de descobrir que os operários estavam organizando o campeonato, Philipe, “Brother” e Vavá. Dessa forma, as gravações duraram até outubro de 2013.

“Experiência fantástica”
Natural de Colinas (MA), Manoel Oliveira Lima, conhecido como Bala, 46 anos, nunca pensou na ideia de que disputaria uma pelada num campo de Copa do Mundo, tampouco a de que participaria de um verdadeiro campeonato, organizado com dezenas de times. “Uma experiência fantástica. Fui para ajudar na construção, mas o campeonato me incentivou também. Vim com outros seis amigos de Colinas para Brasília, viver esse sonho”, comentou.

Além de jogar por um dos times finalistas — perdeu a última partida nos pênaltis —, Bala virou uma das estrelas do filme, o que também o surpreendeu. “Pensávamos que era uma brincadeira, mas se tornou realidade. Não esperava isso, ficava um pouco nervoso, mas foi legal. Em Colinas só falam disso agora”, comemorou.


Com o Fenômeno
Além de levar o troféu, o time vencedor da Copa Solidária dos Operários da Bola teve a oportunidade de disputar uma partida contra um time organizado pelo ex-jogador Ronaldo Fenômeno.


Operários da bola
Documentário, 2014, 74 minutos. Estreia nacional em 15 de maio, no Espaço Itaú de Cinema, Casa Park. Indicação: Livre Direção e Roteiro: Virna Smith. Direção de Fotografia: Rafael Morbeck. Edição e montagem: Marcelo Faria. Produção: Virna Smith.


Três perguntas / Virna Smith

 

Que mensagem o documentário passa a poucos dias de abertura da Copa do Mundo?
Queremos mostrar que ‘o impossível é uma questão de opinião’. O projeto não está apenas voltado para o estádio, ou para construção. Está voltado para o coração de pessoas que sonham. A história delas  é linda, a intenção é mostrar o brasileiro e de onde ele tira tanta felicidade. Nunca havia conhecido pessoas tão bem resolvidas e tão felizes, tão completas e inteiras. Sinto que sou uma pedra bruta, que estou sendo lapidada com o que aprendo com essas pessoas.

Qual é o seu envolvimento com futebol e com a Copa do Mundo? O que mudou com a produção do longa?
Gosto de futebol, mas não morro por ele. Minha família é carioca, uma parte Fluminense, outra Botafogo e outra ainda Flamengo. Agora, quando me perguntam qual é o meu time, respondo Operários da bola. O documentário me exigiu envolvimento, para saber as coisas e contar histórias e sonhos. Fiz parte daquele mundo.

Como você avalia o resultado do seu primeiro longa, já que sempre trabalhou com curtas?
É um filme feito a partir da doação e do coração. Tentamos deixar da forma mais natural possível, para que essas pessoas (os operários) pudessem dar contribuição como ser humano. O filme é meu pontapé inicial. Digo que não entrei em campo, mas comecei a treinar e que estamos começando a jogar nosso primeiro campeonato de bairro.
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