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Poesia feminina em imagens

Panorama celebra uma década de trajetória da artista Clarice Gonçalves: questões de gênero, da infância e da própria pintura são temas constantes na produção da brasiliense, que expõe no Elefante Centro Cultural

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postado em 06/05/2014 13:30

Nahima Maciel

A vertente erótica é explorada por Clarice, sempre de uma maneira muito delicada e lírica: fonte de constituição da condição feminina 
A vertente erótica é explorada por Clarice, sempre de uma maneira muito delicada e lírica: fonte de constituição da condição feminina



Há sempre algo de subentendido, tenso e não dito nas pinturas de Clarice Gonçalves. Mas é preciso investigar as composições com o olhar e esquadrinhar a tela, porque a sutileza e a delicadeza da mão da artista podem mascarar as intenções. O figurativo e a pintura em tinta acrílica são as ferramentas de Clarice e estão na maior parte das 50 obras que integram Clarice Gonçalves: sutilezas e ilusões, em cartaz no Elefante Centro Cultural. Um panorama que comemora 10 anos de pintura, a mostra vem acompanhada do livro Clarice Gonçalves — O som do silêncio , com textos de Graça Ramos, Juliana Monachesi e Mario Gioia, e um catálogo da mostra.

Reunir obras produzidas ao longo do tempo ajuda a compreender os caminhos percorridos pela artista e sua dinâmica criativa. “A compreensão do que busco fica mais perceptível quando se vê o conjunto”, avisa. “Não trabalho em série e sempre fico rodeando os temas. Na exposição panorâmica, dá para perceber bem isso”. Quatro divisões temáticas orientam a mostra e a artista aponta o segmento dos autorretratos como o início de tudo. Foi com as reproduções do próprio rosto refletido em um espelho que ela começou a pintar, quando começou o curso de artes plásticas na Universidade de Brasília (UnB). Um ponto de partida e, ao mesmo tempo, uma forma de autoconhecimento, as pinturas evoluíram para o rosto de outras pessoas e o trabalho começou a ganhar um sentido mais universal e um desejo de falar de questões de gênero e feminilidade.

Inquietação
O feminino e a condição da mulher na sociedade formam outro núcleo de preocupação constante na produção da pintora. Mulheres cujos rostos mal se vê revelam uma inquietação definida com maior clareza no segmento infância. Clarice pinta muitas crianças e, com elas, se coloca na posição de questionar o lugar dos homens e das mulheres na sociedade. “A infância é a socialização, é aí que começa a divisão de papéis. A diferença de gêneros é posta desde a infância”, explica. O tema ganhou uma sala inteira na exposição.

Um quarto segmento apareceu como uma novidade até mesmo para a artista. Ao pesquisar a produção de Clarice para escrever o texto do livro e fazer a curadoria da mostra, a crítica e historiadora Graça Ramos descobriu uma série de pinturas e desenhos eróticos. “São trabalhos que eu não cogitava mostrar tão cedo”, pondera a autora. “O erótico sempre é um tema difícil porque é a consubstanciação da condição feminina, da questão de gênero, da infância. A libido é a geradora de tudo isso.” A incorporação dos trabalhos eróticos fez a classificação indicativa de Sutilezas e ilusões subir para 18 anos.

A curadora também notou a presença da cor rosa em boa parte dos quadros da artista e encontrou aí um diálogo com praticamente todas as temáticas exploradas por Clarice. “O uso do rosa é uma forma de afirmar o feminino, mas questionando. Ela faz uso desse clichê para fazer perguntas sobre o papel feminino. Ela entra muito na questão de gênero, mas com muita delicadeza. Na obra, as mulheres, mesmo quando em grupo, têm sempre uma tendência à introspecção”, diz Graça, que também selecionou para a mostra o quadro Pijama, censurado em uma exposição realizada há alguns anos. Na tela, uma pessoa nua deixa a cama na qual repousa um bebê. A tensão é a mesma gerada por outro quadro, no qual uma menina brinca de estrelinhas enquanto a sombra de um adulto se aproxima. “Ela tem preocupações com questões sociais, como a pedofilia, que eu não conhecia”, revela Graça.

Outra particularidade é o diálogo das pinturas com as frases escolhidas para o título das obras. Clarice é uma coletora. Ela coleciona imagens retiradas de revistas, livros, filmes, internet, enfim, o que chamar a atenção. Também anota frases e palavras de fragmentos de conversas, livros, músicas, o que estiver ao alcance do ouvido. Das imagens, Clarice faz as telas. É uma tendência da pintura contemporânea a coleta de imagens que servem de base para a produção, mas a artista brasiliense não costuma reproduzi-las, como a maioria de seus colegas. Clarice só fisga a composição, um olhar, uma cor. Quando pinta, deixa a imagem de lado. E é com as frases e palavras colhidas aqui e ali que titula as obras e estabelece uma narrativa poética.


 

“A infância é a socialização, é aí que começa a divisão de papéis. A diferença de gêneros é posta desde a infância”
Clarice Gonçalves, artista plástica


Clarice Gonçalves: sutilezas e ilusões
Visitação até 6 de junho, de terça a sábado, das 14h às 18h30, no Elefante Centro Cultural (W3 Norte, Qd 706, entre os blocos B/C, Loja 45)

 

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