Guerreiros

No limite da exclusão social, artistas da periferia do Distrito Federal recorrem ao hip-hop como elemento de sobrevivência e expressão. Em meio à violência cotidiana, preferem produzir e consumir arte

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postado em 12/05/2014 11:46 / atualizado em 12/05/2014 11:53

Diego Ponce de Leon

Samuel teve a perna amputada. Layla perdeu o barraco e convive com o irmão, baleado quatro vezes. Paulinho foi preso. Diogo também. Alemão morou nas ruas. Markão foi alcoólatra. Todos fazem poesia. No rap, encontram a voz para descrever, contestar e propagar a realidade que os cercam. Em constante situação de risco e desprezados pelo poder público, esses artistas insistem na arte e se esquivam dos convites ao crime e às drogas. Alguns sucumbiram (e são muitos). Os que sobreviveram pagaram pelos erros e tentam conscientizar parceiros, colegas e seguidores com versos ritmados. Hoje, são referência onde moram: Samambaia, Ceilândia, Sobradinho, Varjão, Gama…

O Correio visitou guetos, centros, casas e  ruelas onde a cultura periférica reverbera com mais intensidade no DF. Locais nos quais a marginalidade, sempre à espreita, perde a batalha. Entre armas, drogas e mazelas irrefutáveis, esbarramos com poetas, anjos da rima. São estas as suas histórias.

 

 (Oswaldo Reis/Esp. CB/D.A Press) 

“Na prisão, escrevi 11 músicas”
Na mesma semana, Diogo Loko encarou duas porradas. A primeira foi perceber que não tinha grana para ir a Belo Horizonte participar de uma batalha nacional de MCs (a competição envolve disputas de dois rappers fazendo rima na hora e avançando conforme a reação do público). A segunda, mais trágica, foi enterrar o pai.

No velório, os amigos se reuniram e levantaram o dinheiro para que ele fosse competir em BH. Ele não só foi, como venceu. Um panorama recente. Até certo tempo atrás, o rapper era temido e poucos o cumprimentavam.

“Passei quatro anos e oito meses preso. Tráfico de drogas”. Na prisão, ele foi melhor apresentado ao rap e encontrou uma vocação artística. Assim que saiu, Diogo Silva Nogueira ajudou a fundar a batalha de MCs que acontece, há anos, nas proximidades do Museu da República, e passou a integrar uma série de projetos: “Já cantei no mesmo pátio que fiquei preso, como parte de um programa que leva o rap para hospitais e prisões. Sem um centavo. Por amor”, comenta.

A batalha do museu, no entanto, é prioridade. “O rap me resgatou e faz o mesmo pela vida de muitos ali”, diz. A tarefa é árdua. “Como convencer um moleque a não ganhar R$ 300 vendendo drogas e pedir para que ele venha à batalha? Ainda assim, consigo trazer vários”. Os exemplos se repetem: “Ontem mesmo, fui à casa de um deles. A mãe me agradeceu. Disse que o filho passou a respeitá-la. Esse é o meu pagamento”, conta Diogo.

Atualmente, ele trabalha como ajudante de obra. Nas horas vagas, integra os grupos Viela 17 e Etnia. Este último era, originalmente, um trio. “Um morreu e o outro estava acorrentado à cama, usuário de drogas, até ser internado”. Diogo segue adiante.

“Nesse universo moderno, na vida sou réu confesso,
cantar por fama e cifrão é o caminho do retrocesso”
Diogo Loko, rapper


 (Diego Ponce de Leon/CB/D.A Press) 


“Foi o hip-hop que me ergueu”
Quando aparece no Hospital da Criança, alguns pacientes apontam para o adolescente Samuel Henrique, de 16 anos, e exclamam: “Olha o menino da dança”. Foi lá que Samuel teve uma das pernas amputadas, aos 13 anos. “Tive câncer no fêmur”, ele conta, ao lado da mãe, que recebeu a reportagem em casa, em Ceilândia.

O diagnóstico foi precoce. O menino tinha apenas 8 anos. “Ele fez sessões de químio e radioterapia. Mas a doença acabou voltando. Nunca vou esquecer o momento em que o médico disse que a cirurgia seria necessária”, relata a mãe, Edilene.

Surpreendendo as expectativas, Samuel passou a se dedicar intensamente ao break e ao movimento hip-hop, que ele já conhecia e frequentava. Como nunca antes, ele passou a dançar. “Foi onde encontrei forças para me sentir bem”. Logo, chamou a atenção de alguns nomes conhecidos da cena do rap, como Satão (líder do grupo DF Zulu) e DJ Jamaika, e passou a se apresentar em escolas e eventos sociais.

“A única vez que sentei em uma cadeira de rodas foi por brincadeira. O médico levou um susto quando viu um vídeo em que apareço dançando. Acabei famoso no hospital”, conta o garoto, rindo ao lado dos dois irmãos, que apareceram durante a conversa.

Entre as memórias, a mãe se emociona ao recordar de um dia, em particular: “Quando ele pisou em casa, pela primeira vez depois da cirurgia, ele virou para mim e disse: será que ainda consigo fazer algum passo de break?” Ele conseguiu.

“A noite é fria, seu doutor, você não vem
Na perna uma ferida de carne crua
Você não liga porque a vida não é a sua
Sonhe bem, pense bem, ajude alguém”
Dj Jamaika, o rapper do DF favorito de Samuel

Triste fim


Eles colaboraram com a cena
de rap do DF, mas não resistiram…

» Mc Mikiba, rapper e morador de rua, assassinado em 2008
» Ronaldão, rapper e usuário de crack, desaparecido em Ceilândia
» Hudson, integrante do Queima de Arquivo, assassinado em 2014
» Tyson, integrante do Código Penal, morreu na cadeia, no final dos anos 1990
» Nego Boy, integrante do Guind’art 121, assassinado em 1998
» MC Planaltina (Rítalo), integrante do Etnia das Ruas, assassinado em 2008
» Jack City, rapper, assassinado, em 2013
» Neném, integrante do Subconsciente, morto em 2010 (motivo desconhecido) 
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