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Feminismo para lá de Teerã

Ativista lança nas redes sociais campanha fotográfica para contestar o hijab, o código obrigatório de vestimenta para mulheres muçulmanas

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postado em 15/05/2014 17:00

Masih Alinejad, criadora da página %u201CLiberdades ocultas das mulheres iranianas%u201D: 188 mil curtidas em 12 dias (Facebook/Reprodução ) 
Masih Alinejad, criadora da página %u201CLiberdades ocultas das mulheres iranianas%u201D: 188 mil curtidas em 12 dias


Desde a Revolução Islâmica de 1979, as iranianas são obrigadas a cobrir os cabelos com um lenço (ao menos) quando estão em público. A tradição, resumida na palavra hijab (“discrição” ou “recato”, em árabe, nome dado ao código muçulmano para a vestimenta das mulheres), é seguida voluntariamente pelas mais conservadoras. Para as demais, é forçada por policiais — com ameaças, multas e até prisão. Nos últimos dias, o descontentamento latente encontrou nas redes sociais um espaço de protesto. Lançada por uma jornalista radicada no Reino Unido, uma página no Facebook que mostra iranianas sem o véu conquistou mais de 188 mil curtidas em apenas 12 dias. A iniciativa — que, segundo a organizadora, Masih Alinejad, não tem motivações políticas — reclama um direito tão banal no Ocidente que pode causar estranhamento em culturas mais liberais. O que essas iranianas que desafiam a lei e postam imagens na internet querem é simples: o direito a decidir se vão usar o véu ou não.

Até a noite de ontem, mais de 200 fotos haviam sido publicadas na página “Liberdades ocultas das mulheres iranianas” (título em tradução livre). Elas mostram mulheres de diversas idades na praia, na montanha, no campo, sozinhas ou em grupo, com namorados e familiares. Em um retrato, é possível ver uma viatura de polícia, ao fundo — “estamos a apenas dois passos da liberdade”, diz a legenda. “Talvez eu tivesse escolhido usar o lenço, se tivesse a opção de decidir. Mas me machuca quando outros tomam decisões por mim”, reclama outra.

Sentada de costas para a câmara, uma senhora conta que foi abordada por um policial quando ela e a filha se preparavam para tirar fotos em frente ao túmulo de Ciro, o Grande, imperador persa da antiguidade pré-islâmica. “Vão em frente. Tirem as fotos como quiserem. A pessoa que está dormindo aqui há muitos anos é a fonte da liberdade de todo o mundo, e este lugar pertence a todos”, disse o oficial às duas, segundo o relato. Nos milhares de comentários, pessoas de todo o mundo demonstram apoio à iniciativa. Muitos contam as próprias lembranças sobre a imposição do hijab. “Minha mãe não usava véu até o início dos anos 1980, quando foi ameaçada por um membro do Basij (milícia ligada à facção mais conservadora do regime). Ele apontou um rifle contra ela”, escreveu outra.

Alinejad teve a ideia de montar a página depois de postar fotos dela mesma com os cabelos descobertos, em seu perfil pessoal. A coragem resultou em milhares de curtidas e contagiou dezenas de mulheres, que enviaram a ela fotos nas quais também aparecem ignorando o hijab. “Essas mulheres não são ativistas: são mulheres comuns falando com o coração”, defende.

A responsável pela campanha conta que sua mãe usa o hijab e explica que o movimento não tem por objetivo proibir o véu, mas tornar o uso uma escolha. “Eu não tenho intenção nenhuma de encorajar as pessoas a desafiarem o uso compulsório do hijab ou a se posicionarem contra ele”, disse Alinejad ao jornal britânico The Guardian. “Quero apenas dar voz a milhares e milhares de iranianas que acreditam não ter espaço para expor seus pensamentos.”

O uso das redes sociais para questionar a obrigatoriedade do véu não é novidade, embora nenhuma outra iniciativa tenha alcançado tamanha repercussão. Desde 2012, a página “Não ao hijab compulsório” reuniu dezenas de intelectuais, artistas e ativistas em uma campanha. Nas ruas, especialmente em Teerã, muitas mulheres desafiam a lei, deixando o lenço levemente caído para mostrar parte da franja e mechas de cabelo.

Na última semana, um grupo de conservadores fez na capital uma manifestação contra a ideia de flexibilizar o código de vestimenta e pedindo punição mais dura às “transgressoras”. Os manifestantes também expressaram desconfianças em relação ao presidente Hassan Rohani, que promete mais liberdades individuais. O próprio Rouhani, eleito no ano passado, mantém contas em redes sociais. Apesar do grande número de usuários iranianos, o uso das redes é oficialmente proibido no país.

“Eu não tenho intenção nenhuma de encorajar as pessoas a desafiarem o uso compulsório do hijab ou a se posicionarem contra ele. Quero apenas dar voz a milhares e milhares de mulheres iranianas que acreditam não ter espaço para expor seus pensamentos”
Masih Alinejad, criadora da página

“Talvez eu tivesse escolhido usar o lenço, se tivesse a opção de decidir. Mas me machuca quando outros tomam decisões por mim”
Relatos postados por duas das iranianas que aderiram à campanha


Sem lenço, sem documento

 (Facebook/Reprodução) 
 (Facebook/Reprodução) 
 (Facebook/Reprodução) 
 (Facebook/Reprodução) 
 (Facebook/Reprodução) 

» Criadas em uma sociedade que esconde sutilezas e semitons entre as dobras do hijab, as iranianas são conhecidas pela astúcia com a qual driblam, por vezes, os ditames morais da ala mais conservadora do regime islâmico. Dentro de casa ou em salões de beleza, nas elegantes estações de esqui e nos parques de Teerã, elas exploram cada fresta de intimidade para afrouxar o lenço e libertar os cabelos — um discurso solitário e silencioso que, nos caminhos abertos da rede, se fez solidário e eloquente.

 

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