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Poucas opções para leitura

Com a interdição da Biblioteca Demonstrativa da Asa Sul, por problemas estruturais, os brasilienses buscam locais alternativos para estudar, mas esbarram no abandono de outras unidades públicas da cidade

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postado em 19/05/2014 12:09

Renata Nunes se prepara para o vestibular na biblioteca da 312/313 Sul, mas reclama da estrutura (Fotos: Ed Alves/CB/D.A Press) 
Renata Nunes se prepara para o vestibular na biblioteca da 312/313 Sul, mas reclama da estrutura

Desde o fechamento da Biblioteca Demonstrativa de Brasília, as 700 pessoas que utilizavam o espaço diariamente estão sem opção de local para os estudos. Localizada na Entrequadra 506/507 Sul, a edificação construída em 1960 apresenta problemas estruturais, que a levaram à interdição pela Defesa Civil. A situação representa um risco iminente para os frequentadores e funcionários, que já haviam notificado as deficiências para a Fundação Biblioteca Nacional. No Plano Piloto, ainda restaram cinco bibliotecas, que também sofrem com a falta de investimentos, problemas estruturais ou até mesmo com a ausência de segurança para os usuários.

Na 312/313 Sul, estudantes como Douglas Ricardo Martins, 25 anos, encontraram um refúgio para a ausência da Demonstrativa. Ele passou a frequentar a Biblioteca Pública de Brasília. O espaço pequeno possui uma área aconchegante com varanda. Mas ainda sofre com alguns problemas. “Eu, como usuário, já havia notado a deficiência da Biblioteca Demonstrativa, mas é lamentável terem esperado a situação se agravar a esse ponto”, comentou Martins.

A estudante Renata Nunes, 17 anos, é usuária frequente da biblioteca da 312/313 Sul e apontou algumas soluções para o espaço. “As melhorias devem ser na estrutura, e também deve haver investimentos no mobiliário”, comenta. Lá, as cadeiras e mesas antigas são bambas e incomodam os usuários. Renata, que está se preparando para o vestibular de Políticas Públicas da Universidade de Brasília, estuda ali até as 13h, e depois segue para o cursinho. “Gosto muito do acervo”, explicou.

Na Biblioteca Demonstrativa, a cena entristece os antigos frequentadores. Ao ver as portas lacradas e o termo de interdição, a administradora Patrícia de Paula Batista, 40 anos, não escondeu a tristeza. Ela chegava ao local para doar uma caixa lotada de livros, que não pôde ser entregue aos bibliotecários. “Eu venho aqui desde que estava na antiga quinta série. Com certeza, essa ação está prejudicando o estudo de muita gente”, disse Patrícia.

Rafaela Maia e Marco Aurélio Alves elogiam a área da LBV, uma das mais procuradas por estudantes 
Rafaela Maia e Marco Aurélio Alves elogiam a área da LBV, uma das mais procuradas por estudantes

Na outra biblioteca que poderia ser opção para os órfãos da Demonstrativa, a Ethel de Oliveira Dornas, as portas também estão fechadas. O local de estudos que fica dentro do espaço Renato Russo está inacessível, assim como todo o centro cultural. O espaço foi fechado há três meses para obras de melhorias, que ainda não saíram do papel.

No Cruzeiro, a biblioteca pública do Centro Cultural Rubem Valentim foi reformada. O local que abriga o acervo foi reduzido para que o espaço de estudos crescesse. O estudante André do Vale, 23 anos, estuda lá. “Aqui é um bom espaço para ler com tranquilidade, apesar de os livros estarem um pouco desatualizados”, comentou. Em média, 100 pessoas passam pelo local diariamente.

A Biblioteca Nacional de Brasília e a da Universidade de Brasília são exemplos de grandes acervos na capital federal. Entretanto, há reclamações quanto à falta de segurança. Na UnB, funcionários e alunos relatam que a situação até melhorou recentemente, mas agora eles sofrem há 11 dias com a greve dos servidores. Na Biblioteca Nacional, o estudante Matheus Folgireni, 19 anos, já enfrentou momentos de medo, mas conta que a situação está mais tranquila. Ele se prepara no espaço de estudos para o próximo vestibular da UnB “Algumas tomadas não estão funcionando e tem um elevador que está parado há tempos”, apontou.

Por meio da assessoria de imprensa, a Secretaria de Planejamento e Orçamento, responsável pelo contrato corporativo de vigilância patrimonial da Biblioteca Nacional, explicou que oito vigilantes cuidam da segurança interna e do patrimônio. “Não consta, nos registros da Seplan, solicitação oficial de plano de segurança para aumentar o efetivo de segurança da Biblioteca. Se solicitado, a pasta vai reavaliar a demanda”, diz trecho da nota. Sobre as demais bibliotecas públicas do Plano Piloto, a Secretaria de Cultura informou que o GDF fechou compromisso para transformar Brasília na capital do livro e da leitura e que está investindo nas bibliotecas de todo o DF. Sobre os espaços administrados pela secretaria e que se encontram fechados, a pasta não respondeu até o fechamento desta reportagem.

Fechada pela Defesa Civil, a Demonstrativa não tem previsão de reabertura 
Fechada pela Defesa Civil, a Demonstrativa não tem previsão de reabertura

Exemplo

Localizada no templo da Legião da Boa Vontade (LBV), a ala dos estudantes é uma das bibliotecas mais procuradas do Plano Piloto. Nos fins de semanas, uma fila imensa pode ser vista na porta. O local recebe anualmente mais de 100 mil estudantes, com uma média diária de 300 frequentadores.

A advogada Rafaela Maia Valença, 27 anos, é um dos casos de sucesso da biblioteca. Ela estudou no local e conseguiu ingressar na carreira pública. Em agosto, ela passou no certame para analista do Ministério da Justiça. Para evitar perder o lugar, a advogada chegava uma hora antes de o espaço ser aberto. “Sempre era a primeira ou a segunda da fila”, lembra. A fonte e o jardim tranquilizavam Rafaela. “Eu gosto da cachoeira, que ajuda na concentração e abafa os ruídos externos.”

O professor Marcos Aurélio Alves, 32 anos, se prepara para um concurso público. “Comparando com outras bibliotecas, as pessoas têm mais foco aqui e a estrutura também é ótima.” Ele passou a frequentar o local depois que teve um notebook furtado na Biblioteca Nacional. “Percebi que existiam pessoas que não estavam ali para estudar, somente para aproveitar a oportunidade e cometer um furto.”
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