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"Parem o mundo, que eu quero descer!"

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postado em 22/05/2014 14:00 / atualizado em 22/05/2014 10:43

 (Eduardo Dasmasceno/Divulgação) 


Temerária, irônica, pensativa, inconformada, inocente, preocupada e rebelde são apenas alguns dos adjetivos que costumam descrever Mafalda, personagem lançada por Quino há 50 anos. A primeira aparição daquela que seria uma referência para cartunistas e quadrinistas do mundo inteiro, ocorreu em 29 de setembro de 1964, quando a criança de 6 anos estampou um espaço dedicado à cultura no jornal semanal Primera Plana.

Apesar de Quino ter iniciado a carreira no desenho em 1950 e ter criado outros vários personagens, nada vindo de sua obra alcançou os pés da Mafalda. Mesmo com tempo curto de produção — as tiras da menina que questiona a forma como o mundo funciona foram publicadas apenas de 1964 a 1973 —, a criança fez sucesso inestimável na América Latina e na Europa.

 (Reprodução/Internet/D.A Press) 


Inicialmente, Quino criou Mafalda para que a menina estampasse uma propaganda que seria veiculada no jornal argentino Clarín, em 1962. No entanto, o periódico rompeu o contrato e a personagem precisou esperar dois anos para ser lançada. As primeiras tiras traziam apenas a garota acompanhada dos pais, sem os amigos que compõem as principais produções.

 (Reprodução/Internet/D.A Press) 


O autor decidiu interromper as histórias críticas filosóficas de Mafalda por acreditar que a série já não atingia necessidade de ser usada como estrutura expressiva e, também, pelo momento violento vivido na América Latina. Em entrevista recente ao jornal mexicano 20 Minutos, Quino comentou a decisão de forma forte. “O golpe no Chile tornou a situação da América Latina muito sangrenta, e Mafalda não podia falar o que estava pensando, porque se a fizesse eu teria que sair da Argentina, coisa que me ocorreu dois meses depois. Se seguisse desenhando, me dariam um ou quatro tiros”, revelou.

 (Reprodução/Internet/D.A Press) 


Influências no Brasil

Em solo nacional, o sucesso de Mafalda não seria diferente. As tiras satíricas da garotinha reflexiva e questionadora ainda mexem com crianças, jovens e adultos, além de influenciar ilustradores diversos. De Belo Horizonte, o quadrinista Eduardo Damasceno esboçou a paixão pelo personagem de Quino na coletânea Ícones dos Quadrinhos, de Ivan Costa, publicada no início do ano. “Mafalda é um personagem importante para a história da comunicação, não só para o mundo dos quadrinhos. Tem uma vitalidade e coerência que a faz perdurar. Ela não envelhece porque o mundo que critica não muda”, comentou.

 (Reprodução/Internet/D.A Press) 



O quadrinista também aproveitou para destacar a importância do conjunto da obra de Quino, não só de um personagem criado por ele. “Quino sempre foi muito hábil e crítico. Os desenhos dele são extremamente rebuscados, sem se prender a um estilo definido pelo padrão de beleza tradicional. Ele mantém a esperança nas pessoas”, reverenciou.

As tiradas de Mafalda


“Parem o mundo, que eu quero descer!”

“Bom dia! As injustiças terrestres
foram abolidas? Ah, não?
Então me acordem para o almoço”

“O negócio é encarar a
artificialidade com naturalidade”

“O pior é que a piora começa a piorar”

“Todos acreditamos no país! O que já
não sei a esta altura é se o país
acredita na gente…”

“E Deus terá patenteado a ideia
deste manicômio redondo?”

“Não é que não haja bondade, o que acontece é que ela está incógnita”


Você sabia?

» O nome de Mafalda foi inspirado em uma novela do escritor argentino David Viñas, Dar la cara.

» Em 1981, um desenho animado
da Mafalda foi lançado, mas o programa nunca chegou perto do sucesso das tiras.

» Em 2005, Quino e Mafalda foram homenageados com a Praça Mafalda, em Buenos Aires, no bairro
portenho de Colegiales.

» Em 2009, o bairro San Telmo, também em Buenos Aires, prestou outra homenagem.
O artista plástico Pablo Irrgang produziu uma escultura da personagem e a colocou sobre um banquinho de madeira, muito visitado por turistas.

Depoimento


Um traço icônico

Quino é um destes caras privilegiados pela fluidez de pensamento. Se tivesse nascido na Antiguidade Clássica, seria um Sócrates ou um Platão ou ainda um Francis Bacon, caso fosse no Renascimento. Quino nasceu na Argentina, em 17 de julho de 1932. A sagacidade e o inconformismo, peculiares a grandes filósofos, acompanharam o lápis irônico e inteligente de Quino.

Hoje, o mestre praticamente não desenha mais, por problemas com a visão. No entanto, teve como arauto de suas ideias e questionamentos a imortal Mafalda com seus balãozinhos recheados de palavras que arregalavam olhos e mentes mundo a fora.

Não há uma explicação lógica, mas o surpreendente sucesso de Mafalda talvez esteja no genial antagonismo entre a primeira infância de uma personagem e a maturidade de pensamentos existenciais. Tudo isso inserido em um corpo feminino, infantil, de lacinho na cabeça... Mafalda enfrentou ditaduras, questionou a condição humana, visitou a esquina de sua rua e a dimensão de um planeta. Parabéns, Quino! Obrigado, Mafalda!

Amaro Júnior, editor de Arte do Correio  

 

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