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Homenagens ao gênio modesto

Durante o velório de um dos construtores de Brasília, parlamentares ofereceram batedores até o cemitério Campo da Esperança, onde hoje Lelé será enterrado. Mas a família fez questão de manter a discrição e a humildade, características marcantes do carioca

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postado em 23/05/2014 11:06 / atualizado em 23/05/2014 11:20

Maryna Lacerda , Saulo Araújo

Mais do que tristeza, o velório do arquiteto foi marcado por admiração e emoção: legado material e, principalmente, de virtudes (Carlos Vieira/CB/D.A Press) 
Mais do que tristeza, o velório do arquiteto foi marcado por admiração e emoção: legado material e, principalmente, de virtudes


Pontualmente às 20h, um silêncio respeitoso tomou conta do Salão Nobre do Congresso Nacional. Carregado por seis amigos, o caixão com o corpo do “maior arquiteto do Brasil”, como definiu ninguém menos do que Oscar Niemeyer, chegava à sede do Poder Legislativo para ser velado. João da Gama Filgueiras Lima, ou simplesmente Lelé, recebia as últimas e merecidas homenagens. Morto aos 82 anos, vítima de um câncer de próstata, deixou colegas e familiares de luto, mas o traço modesto e elegante de sua arquitetura e, sobretudo, as virtudes como pessoa, permanecerão como legados para muitas gerações.

Hoje, às 11h, Lelé será sepultado na Ala dos Pioneiros do Cemitério Campo da Esperança, ao lado de outros importantes nomes da história da construção de Brasília. Parlamentares chegaram a oferecer batedores para facilitar o translado do cadáver de Lelé até o cemitério, mas a família recusou. A simplicidade dele não condizia com tal regalia.

No velório, por vezes, a tristeza cedia espaço à admiração. Comedidos, todos pareciam dizer um “muito obrigado” ao ex-professor, ex-músico, ex-jogador de futebol — por cinco anos foi ponta-direita de um time da escola — e sempre arquiteto. Presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil, Aroldo Pinheiro destacou a criatividade como a maior marca de Lelé. “Ele integrou uma geração especial, que floresceu num período de bastante criatividade, que, para mim, é a palavra que resume a vida dele”, disse.

Carioca, Lelé percorreu o país inteiro. Uma das passagens mais marcantes foi em São Paulo, onde ele ajudou a fundar a Escola da Cidade, uma instituição de ensino comunitária para estudantes de arquitetura de baixa-renda. Por sua contribuição, tornou-se o patrono da primeira turma formada no local. Existe um projeto para a construção de uma segunda escola, também na capital paulista. O nome de Lelé ficará imortalizado, pois batizará a instituição. Quando tudo estiver pronto, a pedra fundamental trará os seguintes dizeres: “Escola de Humanidade João Filgueiras Lima”.

Para o diretor da Escola da Cidade, Ciro Pirond, o que diferenciava Lelé dos outros era a forma humilde de enxergar as coisas. “Ele faz parte de uma geração extremamente profissional, mas, principalmente, humanista. Antes de qualquer outra coisa, tinha o ideal de construir um país mais justo e igualitário”, destacou.

Políticos também apareceram para dar o último adeus ao artista. O senador Cristovam Buarque (PDT), assim como Pirond, lembrou o envolvimento social do arquiteto. “Além da genialidade para criar projetos diferenciados, foi um homem extremamente comprometido com o social. Uma figura de caráter”, elogiou.

Sábio conselheiro

Na opinião do diretor do Departamento Técnico de Engenharia e Arquitetura da Câmara dos Deputados, Maurício Matta, o que mais impressionava em Lelé era a capacidade de unir o ofício à solidariedade. “Ele sempre vai ser uma referência pelo fato de ter usado a profissão também como algo social. Em todos os projetos, ele sempre fazia um story board, de tal forma que, em cada etapa, acabava por usar mais mão de obra. Sempre tinha em mente a geração de empregos. Era arquiteto do chão da fábrica, generoso e tinha a mentalidade de contribuir para um país melhor”, afirmou.

A jornalista Sônia Filgueiras, 46 anos, uma das três flhas do arquiteto, estava bastante emocionada com a morte do pai, mas, ao Correio, disse guardar os bons momentos vividos ao lado dele. “Era um homem carinhoso e sempre tinha o conselho sábio para dar nos momentos mais complicados das nossas vidas” recordou.

A filha mais velha, Adriana Rabello Filgueiras, 51, falou com orgulho da influência do pai na escolha da profissão. “Desde criança, eu acompanhava meu pai nas obras e, hoje, é uma honra administrar os projetos dele. Apesar de ocupado, era muito presente. Foi um ser humano que marcou a sua passagem por este mundo.”

“Lelé foi uma criatura fantástica, grande arquiteto e humanista. Na saúde, teve um papel muito importante ao transformar áreas de tratamento em ambientes mais leves, bonitos e agradáveis”

Agnelo Queiroz, governador do DF

“Brasil e Brasília terão sempre por Lelé um sentimento de grande gratidão e reconhecimento por seu espírito altamente inovador e solidário”

Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), senador

“Além da genialidade para criar projetos diferenciados, foi um homem extremamente comprometido com o social. Uma figura de caráter”

Cristovam Buarque (PDT-DF), senador
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