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Ao mestre, com todo carinho

Alunos e professores da UnB, onde Lelé deu aulas, falam sobre a perda do arquiteto, as facilidades de se morar em prédios da Colina Velha - erguidos por ele - e a falta de reconhecimento por parte do público

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postado em 23/05/2014 11:12 / atualizado em 23/05/2014 11:15

Isabela, Alexandre e Júlia não chegaram a ter aulas com Lelé, mas aprendem diariamente com as obras dele feitas na Universidade de Brasília (Bruno Peres/CB/D.A Press) 
Isabela, Alexandre e Júlia não chegaram a ter aulas com Lelé, mas aprendem diariamente com as obras dele feitas na Universidade de Brasília


Nos corredores onde os fundamentos da obra de João da Gama Filgueiras Lima são passados de mestres a alunos, o clima era de luto. Na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), na Universidade de Brasília (UnB), professores, muitos deles amigos do arquiteto fluminense, não escondiam seu pesar. Os estudantes, alguns ainda em início de curso, lamentaram a perda do profissional que serviu de inspiração para muitos deles. Lelé, morto na quarta-feira, aos 82 anos, também fez parte do corpo docente da instituição nos anos 1960.

Na UnB, não foi só professor — convidado especialmente por Oscar Niemeyer. Também tornou-se autor de projetos, como os prédios que abrigam o Instituto de Artes (IdA) e a Colina Velha. O mais recente, o Memorial Darcy Ribeiro, conhecido como Beijódromo, é o favorito entre os aprendizes de arquiteto. Além disso, foi o supervisor da construção do Instituto Central de Ciências (ICC), o Minhocão, projeto de Niemeyer. Quem estuda arquitetura na UnB hoje aprende com as obras dele tanto em sala de aula quanto caminhando pelo câmpus. “Os projetos dele, os croquis, são maravilhosos. É uma grande perda para a arquitetura”, lamenta a estudante Isabela Ferrari, 19 anos.

Colegas de Isabela, os estudantes Alexandre Costa, 24, e Júlia Mazzutti, 19, compareceram ao velório de Oscar Niemeyer, em dezembro de 2012. Ontem pela manhã, se planejaram para prestar uma última homenagem a Lelé. “Ele era um cara muito simples, muito humilde. Sabia fazer as coisas, mas também ouvia e aprendia com as pessoas. Todos conhecem o Oscar Niemeyer, ele é o xodó do país, mas, infelizmente, por isso, outros arquitetos ficaram à sombra dele”, opina Alexandre.

Uma característica de Lelé, apontada prontamente pelos estudantes, é o amplo conhecimento que ele tinha de arquitetura. “Hoje em dia, muitos profissionais estão, cada vez mais, especializados, mas ele sabia de tudo. Desde o prego que ia usar na construção até como o prédio iria se comportar em relação ao clima”, comenta Alexandre. “A gente fica muito triste com a morte do Lelé porque ele era uma inspiração. É um dos maiores exemplos de como fazer boa arquitetura”, elogia Júlia.

Se depender dos alunos e dos colegas, o nome de Lelé ainda será reconhecido. Esse é o objetivo, por exemplo, de Cláudia Estrela, professora da instituição e amiga do mestre. Eles se conheceram em 1982 e trabalharam juntos por um curto período, em 1986. A amizade se manteve e, em 2010, ela conseguiu publicar um livro, assinado em conjunto por vários arquitetos, sobre a obra dele. “Para mim, ele é o grande arquiteto brasileiro. O problema é que não existem muitas publicações porque ele era um homem muito humilde e não tinha tempo para se promover”, afirma.

Lar

O arquiteto dificilmente projetava construções particulares. Além de algumas poucas casas para amigos, Lelé projetou a Colina Velha da UnB. Lar de professores e de alguns estudantes da pós-graduação, o setor de construções baixas, de três andares, hoje está sucateado. “Foi um local muito bom para morar, mas está sem manutenção, abandonado”, reclama a professora Cláudia Estrela, que hoje mora na Colina Nova, vizinha aos prédios de Lelé. Para a doutoranda Anadria Silva, 27 anos, a principal vantagem de se morar em um prédio construído por Lelé é o clima agradável. “Eu gosto do meu apartamento, é bem arejado, não passo calor. O que desanima é que, desde que eu me mudei para cá, há três anos, tenho problemas com o fornecimento de energia. Quem mora há mais tempo me disse que a última reforma do prédio foi há 17 anos. Mas eu gosto”, comenta.
Presença também em Taguatinga

Uma das cidades do Distrito Federal com a marca forte do arquiteto João da Gama Filgueiras Lima é Taguatinga. Em 1968, o artista projetou o Hospital Regional da cidade, um gigante de mais de 40 anos e primeiro de uma série que faria de Lelé um nome consagrado da arquitetura hospitalar — além da Rede Sarah Kubitschek, desenhou o Hospital Regional de Ceilândia.

Atualmente, o prédio de Taguatinga conta com 343 leitos ativos na internação e 22 ambulatórios, além de ser um dos centros de atendimento mais importantes da área. Muitos daqueles que visitam o espaço podem não conhecer o nome de Lelé, mas, com certeza, os traços do arquiteto não passam desapercebidos. O agricultor Reginaldo Silva, 51 anos, é um exemplo. Ele veio de Anápolis (GO) até o hospital, ontem, para visitar um familiar. Mesmo sem saber quem foi o idealizador do hospital, não deixou de notar a arquitetura diferenciada do edifício.

“Entre os outros hospitais que conheço no Distrito Federal, este de Taguatinga, com certeza, tem a fachada mais bonita. Eu cheguei a conhecer o prédio por dentro e ele é muito bem projetado”, afirma. A manicure Rosilene Alves dos Santos, 41, também teve impressões parecidas às de Regional. “Eu gosto da forma dos blocos na frente. É bem interessante, ainda mais em comparação a outros hospitais de Brasília”, elogia.
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