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O Brasil como modelo

Com uma cultura miscigenada e uma política de não se envolver em guerras, país é um ideal do futuro, de acordo com o sociólogo Domenico de Masi

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postado em 26/05/2014 12:30 / atualizado em 26/05/2014 11:12

Nahima Maciel

O especialista acredita que China e Índia também serão exemplos no futuro (Arquivo Pessoal) 
O especialista acredita que China e Índia também serão exemplos no futuro


A Europa está mergulhada em uma onda de pessimismo, mas Domenico de Masi é um otimista. Quatorze anos depois de publicar O ócio criativo, no qual analisou a preciosidade do tempo livre no cotidiano humano, o sociólogo italiano agora quer buscar modelos de sociedade para o futuro em países em desenvolvimento. Em O futuro chegou: modelos de vida para uma sociedade desorientada, Masi analisou cinco modelos que considera exemplares para o mundo e, entre eles, está a sociedade brasileira.

A miscigenação, o fato de ser um país pacífico, a humanidade e o sincretismo da cultura brasileira são alguns dos aspectos positivos apontados pelo italiano como exemplos a serem seguidos. Na mesma categoria, Masi inclui a Índia e a China. “A Índia é um modelo intelectual e espiritiual. A China é um grande exemplo de organização”, diz. O sociólogo estará em Brasília hoje para a palestra O modelo brasileiro na sociedade pós-industrial, na Embaixada da Itália, como parte da programação do projeto Itália na Copa.

Para Masi, a onda pessimista que assola a Europa é fruto da falta de paradigmas que possam orientar a construção da sociedade. Em períodos como a Renascença ou a Grécia Antiga, a existência de um modelo projetava as sociedades para o futuro. Ele acredita que hoje não há modelos a serem seguidos e, por isso, a civilização está desorientada. Abaixo, o sociólogo conta por que é preciso buscar novos modelos nas sociedades em desenvolvimento.

O modelo brasileiro na sociedade pós-industrial
Palestra com Domenico de Masi. Hoje, às 18h, na Embaixada da Itália. Inscrições: eventos.brasilia@esteri.it

"Há racismo no Brasil, mas não é como nos Estados Unidos, na Europa ou nos países islâmicos. É o país menos racista que eu conheço."

Domenico de Masi, sociólogo

Em O futuro chegou, há um capítulo sobre o Brasil, citado como um modelo do futuro. Como e por que o senhor chegou à conclusão de que o país seria um modelo a ser seguido?
É um modelo com aspectos positivos e aspectos negativos. Os negativos sabemos quais são: a violência, o analfabetismo, a distância entre ricos e pobres, a corrupção. Mas, naturalmente, há os aspectos positivos. O principal deles é a miscigenação, a convivência de raças sem muito racismo. É um exemplo para o mundo, porque no futuro o mundo será mestiço. E o Brasil já é mestiço. Um segundo aspecto é a criatividade, é um país muito criativo. E, com a criatividade, estão as artes, o teatro, a televisão e a produção industrial. O Brasil é o quinto país em produção industrial no mundo. E é um país predominantemente pacífico. O único país do continente com o qual o Brasil entrou em guerra foi o Paraguai. Foi o único. Enquanto a Europa sempre fez guerras contra países do próprio continente. A história da Europa é uma história contínua de guerras de um país contra o outro. O Brasil não faz guerras contra países do continente. E tem uma qualidade de vida muito alta, tem um certo sincretismo cultural e religioso. Isso tudo faz dele um modelo para o futuro.

Uma queixa geral é de que a sociedade brasileira está muito violenta. Como isso se encaixa nesse modelo?
A guerra externa é algo mais sangrento e cruel do que uma guerra interna. A guerra interna é uma reação à pobreza, porque há uma diferença muito grande entre ricos e pobres. Não faz tantos mortos quanto uma guerra externa. Hiroshima fez 120 mil mortes em um dia. O Brasil é violento, mas é pacífico — duas coisas que podem andar juntas. É violento por causa da diferença de classes. Mas creio que é um modelo nos aspectos positivos, assim como o modelo chinês, o indiano, o muçulmano, o europeu, o dos Estados Unidos. Por 450 anos, o Brasil copiou o modelo europeu. Nos últimos 40, 50 anos, copiou o modelo americano. Mas agora o modelo europeu e o modelo americano entraram em crise. O Brasil construiu um modelo novo.

Qual a importância da mestiçagem no Brasil?
É fundamental, porque todo o mundo vai ser mestiço um dia. O Brasil é o primeiro país a fazer a mestiçagem. A mistura de raças é um aspecto positivo. Há racismo no Brasil, mas não é como nos Estados Unidos, na Europa ou nos países islâmicos. É o país menos racista que eu conheço.

A mestiçagem é possível na Europa?
Não é possível, é necessária. E já está acontecendo porque na Itália, por exemplo, não existia tantos africanos nem tantos eslavos quanto existe hoje. No Brasil, há racismo, mas não como na Europa do século 20 ou nos países islâmicos.

O senhor diz que a Itália é um país pessimista e que a tristeza avança no mundo. A que o senhor atribui esse sentimento de tristeza e pessimismo que ronda o mundo?
Neste momento, há muito pessimismo no mundo porque há uma desorientação. Não se sabe mais o que é bom, o que é ruim, o que é verdadeiro, o que é falso, o que é belo, o que é feio, o que é homem, o que é mulher, o que é vida, o que é morte. Estamos desorientados. E estamos desorientados porque não temos modelo de vida. Todas as sociedades antes da nossa — a medieval, a industrial, a renascentista — tinham um modelo de vida. Nós não temos um modelo e estamos desorientados. E, enquanto não tivermos um modelo, seguiremos desorientados. E, quanto mais desorientados, mais pessimistas ficaremos.

Qual é a crise mais importante da humanidade hoje? Passamos por um novo mal estar da civilização?
Vivemos uma situação econômica que depende da redistribuição mundial da riqueza. Hoje, na Itália, a renda per capita é de US$ 34 mil, no Brasil é de US$ 11 mil, na China é de US$ 1 mil, na Índia é US$ 1,2 mil, na América é US$ 56 mil e, em Luxemburgo, de US$ 150 mil. Há uma diferença enorme no mundo. Mas os países pobres vão se tornar os ricos, como o Brasil e a China. E a Itália e a América vão se tornar mais pobres.

A igualdade é possível?
Os sociólogos creem que e possível, os economistas, não. É justo. E, se é justo, é possível.

O Ócio criativo foi publicado há 14 anos. Quanto ele continua atual? Há alguma ligação entre o ócio (ou falta dele) e o pessimismo?

Creio que sim. É muito atual porque a tecnologia não liberou as pessoas do trabalho. A tecnologia está em todo lugar — na vida pessoal, no jornal, na fotografia, no trabalho, nas fábricas. E, com isso, ocorre uma redistribuição do trabalho, podemos trabalhar um pouco menos. Mas, como a sociedade não muda e não aceita essa ideia do ócio criativo, há uma crise contínua, aumenta a desocupação, aumenta a pobreza, porque não há distribuição do trabalho. Então, a riqueza do ócio criativo é importantíssima ainda hoje.

Taça chega amanhã a Brasília


A taça da Copa do Mundo estará exposta a partir de amanhã no estacionamento do Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha. O tour, que passou por 89 países, proporcionará a oportunidade de ver de perto — e tirar foto — o troféu mais cobiçado do futebol. O prêmio já levantado por Bellini, Mauro, Carlos Alberto Torres, Dunga, Cafu ficará na capital até quarta-feira, quando segue, à noite, em um jato executivo especialmente decorado para receber o objeto de 6,175kg feito de ouro maciço de 18 quilates, para São Paulo.

Para ter direito a conhecer a taça, que somente campeões do mundo e chefes de Estado podem tocar, é preciso trocar o cupom fiscal da compra de refrigerantes por um vale-ingresso nos pontos de venda participantes e agendar o horário da visita no site www.cocacola.com.br/tourdataca. A lista com os locais exatos de troca também está disponível no endereço.

O evento, que terá o tetracampeão Bebeto na cerimônia de abertura, também fará uma homenagem aos campeões do Brasil. Quem for visitar a taça, criada pelo escultor milanês Silvio Gazzaniga para substituir a Jules Rimet (roubada e derretida em 1983 no Rio de Janeiro), também poderá assistir a um filme sobre a história das Copas e participar de jogos interativos relacionados ao universo do futebol, como chutes a gol, drible, totó e estilingue humano. O encerramento será com apresentações de dança e música no palco principal. O tour da taça da Copa do Mundo termina em 1º de junho, quando o troféu será entregue à Fifa.

36,8cm de altura

Tem a taça da Copa do Mundo pertencente à Fifa: o país campeão ganha uma réplica folheada a ouro

Programe-se

Tour da Taça

Quando: 27 e 28 de maio
Horário: 9h às 21h
Local: Estacionamento do Estádio Mané Garrincha

 

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