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LITERATURA »

Alice alucinada

Ilustrado pela artista Yayoi Kusama, livro de Lewis Carroll encontra casamento perfeito com as bolinhas da japonesa

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postado em 27/05/2014 13:00

Nahima Maciel

 (Yayoi Kusama/Divulgação) 


Parece que Alice sempre viveu num país de bolinhas. Amarelas, rosas, vermelhas azuis, um mundo alucinado e em movimento, marcado pelo ir e vir das cores, dos cenários e dos personagens. Quando a japonesa Yayoi Kusama começou a ilustrar Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll, logo se deu conta de que suas alucinações tinham tudo a ver com a viagem fantástica da personagem. A combinação das imagens visualizadas por Kusama durante as crises e a loucura da narrativa de Carroll aparecem muito bem casadas nessa versão ilustrada de Alice no país das maravilhas.

Editada pela Globo Livros e traduzida por Vanessa Barbara, a história vem cercada de delicadezas e cuidados editoriais que justificam a inclusão do volume em uma coleção alicemaníaca. O diálogo entre o texto e as ilustrações é fundamental, e Vanessa precisou respeitar cada bloco da narrativa para que estivesse perfeitamente encaixado com as ilustrações de Kusama. Não há nada fora do lugar. Quando Alice encolhe e tudo à sua volta fica gigantesco, os desenhos tomam a forma agigantada.
Quando a paisagem e seus ocupantes parecem surreais, as cores e formas acompanham.

Ilustrações de Yayoi Kusama para o clássico Alice no país das maravilhas (Yayoi Kusama/Divulgação) 
Ilustrações de Yayoi Kusama para o clássico Alice no país das maravilhas


A própria Kusama já comparou o mundo de Alice às suas próprias alucinações. A artista sofre de doenças mentais e vive em um hospício, em Tóquio, há 20 anos. Durante uma performance, no fim dos anos 1968, ela declarou: “Eu, Kusama, sou a versão moderna de Alice no país das maravilhas”.
Vanessa Bárbara também tem uma relação antiga com Alice. Ela sempre admirou os jogos de lógica, os diálogos nonsense e o ritmo da narrativa de Carroll. Na faculdade, fez uma prova sobre o livro na qual escreveu invertido, como se estivesse em frente a um espelho. “Foi incrivelmente divertido”, conta. “Adoro, por exemplo, os diálogos da Alice durante o chá maluco, enfim, acho a maior graça em ver um personagem tentando usar a razão e insistindo em fazer perguntas sensatas aos outros, que por sua vez estão completamente enlouquecidos e engajados em suas lógicas próprias. E nesse caminho eles vão confundindo e manipulando a coitada da Alice, até que ela mesma esteja seguindo uma lógica torta.”

Traduzir o livro de Carroll foi a coisa mais difícil que Vanessa já fez. Ela já verteu para o português clássicos como O grande Gatsby (Scott Fitzgerald) e Três vidas (Gertrude Stein), mas Alice tem dezenas de trocadilhos que dificultam a tradução. Muitos diálogos não faziam sentido algum se traduzidos literalmente, assim como não apresentavam lá muito sentido em inglês. “Então, era preciso ler um milhão de vezes em inglês, tentar captar a lógica por trás daquilo, depois tentar transpor para a nossa língua perdendo o menos possível no caminho. Um dos desafios mais curiosos foi reconhecer que muitos dos trocadilhos do Carroll eram, em si, muito sem graça — tipo um que fala sobre o professor Cação, que era uma tartaruga —, e que eu simplesmente não podia arrumar uma solução mais brilhante ou elegante no português, senão estaria traindo o original”, conta a tradutora. “Se é atual eu não sei, mas ainda é de chorar de rir. E é ousado, é tolo, é criativo, tudo junto”.

 (Reprodução) 

Alice no país das maravilhas
De Lewis Carroll. Tradução: Vanessa Barbara.
Globo Livros, 184 páginas. R$ 59,90.
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