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Correio Braziliense

O triste fim do Espaço Renato Russo

Centro cultural da 508 Sul padece sob o abandono público. Fechado, sem previsão de reabertura, o local pede socorro

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postado em 03/06/2014 11:12 / atualizado em 03/06/2014 11:17

Diego Ponce de Leon

A entrada principal: portas fechadas   
A entrada principal: portas fechadas


Banheiro em manutenção: o abandono interno é similar àquele observado do lado de fora  
Banheiro em manutenção: o abandono interno é similar àquele observado do lado de fora



As imediações do espaço se tornaram residência para moradores de rua  
As imediações do espaço se tornaram residência para moradores de rua



Ajuda comunitária. Artistas se reúnem para tentar mantê-lo vivo  
Ajuda comunitária. Artistas se reúnem para tentar mantê-lo vivo




Segunda-feira, 19 de maio de 2014, 16h30. Espaço Cultural Renato Russo fechado. Um vigia informa que apenas duas pessoas cuidam do local. Revezam-se na função. Nenhuma delas estava presente. A reportagem do Correio é impedida de adentrar o espaço. No dia seguinte, a mesma história. Fechado. O enredo se repete no decorrer dos dias subsequentes.
Desde janeiro deste ano, as portas do mais importante centro cultural de Brasília, na 508 Sul, não se abrem ao público. A movimentação interna é, praticamente, nula. Oficialmente, três funcionários ocupam o espaço. Além dos dois gerentes mencionados pelo segurança, uma bibliotecária. Ninguém mais. Na década de 1990, o número era superior a 60.

Na semana passada, o Correio teve acesso à área interna. Rachaduras, fiações expostas, teias, portas danificadas, pichações. Não se admite publicamente, mas, pelos bastidores, há quem diga que um dos motivos para o encerramento das atividades foram problemas relacionados à rede elétrica do prédio, incapaz de suportar a demanda e, consequentemente, um risco aos frequentadores.

O gestor público do espaço, Marconi Valaderes, atendeu a reportagem, mas preferiu que a Secretaria de Cultura prestasse os esclarecimentos devidos, principalmente no que tange à reabertura. Ele aproveitou, no entanto, para explicar a impossibilidade de o local se manter aberto: “Foram emitidas 12 notificações da Agefis (Agência de Fiscalização do Distrito Federal) quanto à acessibilidade do local. Por uma questão de segurança e para evitar o acúmulo das multas previstas, a gestão preferiu o fechamento”.

Além da Agefis, o Corpo de Bombeiros pediu a interdição do local. Motivo: o Espaço Cultural Renato Russo nunca obteve alvará de funcionamento, sempre atendendo sob condições precárias.

Por meio da assessoria de comunicação, a secretaria informou que o projeto de revitalização deverá ser entregue este mês. Somente então, será realizada a licitação para a escolha da empresa responsável por realizar as futuras obras,  previstas para o segundo semestre e estimadas em R$12 milhões. Os mais otimistas  esperam a conclusão em 2017. Destarte, a cidade perde um dos seus mais efervescentes centros culturais. Celeiro artístico desde a inauguração, em 1974.

“Uma afronta”
 Delei Amorim, artista plástico, conhece como poucos o outrora chamado Espaço Cultural da 508 Sul, casa dos antológicos palcos Galpão e Galpãozinho e do extinto Centro de Criatividade. Além de ter exposto no local diversas vezes, desde a fundação, ensinou o ofício por lá ao longo de 12 anos. Hoje, aposentado, Delei lamenta a condição atual: “É uma afronta. Um desserviço inacreditável”.

A aposentadoria não o esmorece. O artista mineiro, que desembarcou por aqui em 1960 e se tornou conhecido pela arte urbana, murais e pinturas que adornam algumas paredes a céu aberto, segue intervindo nos espaços públicos da capital. “Não abandono a 508 Sul. Todo sábado, eu e um grupo de pintores nos encontramos por ali.”
A reunião acontece propositadamente do lado de fora, já que a tela que eles buscam jaz sob o sol. “Pintamos as paredes do Renato Russo. O grafite está se deteriorando, apagando-se. Em qualquer trecho em branco, jogamos uma tinta. Tudo do nosso bolso. Sem qualquer incentivo público. Pela arte.” Apesar da negligência do governo, há quem ainda se importe.



Artigo


 


João Antônio é ator, diretor, dramaturgo e professor emérito da UnB, um dos fundadores do Departamento de Artes Cênicas da universidade


Nossa casa

1974 — O embaixador Wladimir Murtinho autorizou e o galpão vazio se transformou no Teatro Galpão. Em 1977, mais galpões foram ocupados e o Centro de Criatividade virou a nossa casa, encontro das artes, ponto de reunião de artistas.

Ali, encontramo-nos com o público. Fizemos temporadas longas, sucessos com trabalhos até hoje lembrados. Ali, fomos surpreendidos por obras que impactaram e transformaram nosso fazer artístico. Éramos donos daquele espaço democrático. Todo mundo que passou por ali tem uma bela história para contar, como protagonista ou espectador. Formamos público. Formamo-nos como artistas. Nós, brasilienses, estávamos em casa!

Nos anos 1990, em plena atividade e depois de tanto tempo, a burocracia achou que corríamos perigo! Madeira, fios soltos, teto de zinco. Vamos reformar! Fecha e espera. A reforma demorou tanto! O ânimo esfriou. Nunca mais voltou a ser o mesmo. Ainda assim, a sensação de pertencimento continuava. Com muito esforço, com equipamentos próprios, com muita garra, enfrentamos a falta de políticas culturais permanentes, e o rebatizado Espaço Cultural Renato Russo ainda era nosso.

Agora, fechado de novo! Tristeza. Apreensão.

Já perdemos o Cine Cultura, a Concha Acústica, os teatros do Centro de Convenções, o Teatro Helena Barcelos da UnB e o Teatro Nacional, fechado para reforma (perigo!), além de tantos outros espaços culturais abandonados.

SOCORRO!
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