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Onde tudo aconteceu

Os principais nomes da arte brasileira passaram pelos palcos do Galpão e do Galpãozinho. O Espaço Cultural da 508 Sul completa 40 anos sem motivos de celebração

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postado em 03/06/2014 11:13 / atualizado em 03/06/2014 11:19

Diego Ponce de Leon

 Em 1974, um antigo depósito se torna palco principal da cidade. Grande agitação artística até o declínio, a partir dos anos 1990  
Em 1974, um antigo depósito se torna palco principal da cidade. Grande agitação artística até o declínio, a partir dos anos 1990


Cássia Eller e Marcelo Saback nos primórdios do Jogo de Cena, na 508  
Cássia Eller e Marcelo Saback nos primórdios do Jogo de Cena, na 508



Segundo consta, o último evento no Espaço Cultural Renato Russo a congregar um grande número de artistas da cidade foi o funeral do militante cultural Jota Pingo, há pouco mais de um ano. De alguma forma, o próprio local foi enterrado a partir de então. Em 2013, os eventos rarearam e as oficinas foram encerradas. O centro terminará o primeiro semestre fechado.

Com raras exceções, poucos conseguem entrar por ali. Margareth Ribeiro Moura é uma delas. Bibliotecária, a servidora cuida da coleção de livros do espaço há 15 anos. “A ordem era a liberdade. A juventude sempre teve espaço para experimentações artísticas por aqui”, conta, com ares de nostalgia. Atualmente, ela passa o dia praticamente sozinha.

Entres as lembranças mais queridas, Margareth se recorda de uma visita especial. “Dona Lúcia Rocha, em 2007, veio nos visitar e sentou-se em uma de nossas mesas. Pude, então, dizer a ela: ‘Tenho muito orgulho de ter nascido no mesmo dia que o seu filho, Glauber Rocha’.”

Em 15 anos de serviços prestados, não faltou ninguém. Até fantasma, Margareth já viu. “Parecia um monge. Um senhor careca, vestido de laranja, lendo um livro”. Para quem duvidar, ela garante: “Uma professora de artes plásticas também avistou o mesmo senhor”, comenta, aos risos. No panorama atual, o valioso acervo parece restrito aos espíritos.

Histórico
Antes de ter qualquer relação com as artes, o centro cultural da 508 Sul era um mero depósito. Daí o nome do teatro que ali nasceu, em 1974: Galpão. A atriz e antropóloga Iara Pietricovsky conhece bem esse enredo. Ela integrava o elenco da peça O homem que enganou o teatro e ainda pediu troco, primeiro espetáculo a ser encenado no novo espaço. “Logo, tornou-se um dos maiores celeiros de produção cultural de Brasília”, recorda a veterana artista, que contabiliza mais de 60 peças no currículo.

Outro a bater pernas por aquelas coxias desde a fundação foi o dramaturgo, ator e diretor Neio Lúcio, um dos pilares do cenário cênico brasiliense. Neio apresentou à cidade dois eventos antológicos, que tomaram conta da 508 Sul: a Feira de Música, promovida com o sambista Carlos Elias, e o Jogo de Cena, uma iniciativa que persiste até os dias atuais, sob a coordenação do diretor James Fensterseifer.

Os palcos do Galpão e do Galpãozinho arrebataram todos. Fossem artistas de Brasília (Hugo Rodas, Irmãos Guimarães, Alexandre Ribondi, Guilherme Reis, Cássia Eller, entre eles), fossem nomes de fora (Cacilda Becker, Cleyde Yáconis, Paulo Autran, Nathalia Timberg, apenas para citar alguns). O ambiente parecia seduzir toda e qualquer alma.

Em alguns casos, literalmente. “Não digo nome, mas uma atriz me confessou: ‘Meus dois filhos são cria da 508 Sul. Um foi gerado no Galpão, outro no Galpãozinho’.”, diverte-se o artista plástico Delei Amorim, professor do espaço por mais de uma década.

Nos últimos anos, a efervescência (artística ou física) foi menor. Desde a longa reforma de1992 e da reabertura sob o nome de Renato Russo, as coisas andaram mais calmas. Nunca mais se repetiram eventos com a mesma proporção de outrora, quando a quantidade de pessoas transgredia a capacidade. “Era muita gente. Era o local de Brasília”, relembra Neio Lucio. Para o diretor, esse histórico de êxitos não pode ser esquecido: “Resgatar aquele lugar e devolvê-lo a sua vocação é obrigação de quem está na pasta. O resto é conversa para boi dormir”. Alguém acordado por aí?

O agitador
Morto aos 66 anos, Pingo era um dos mais animados militantes da cultura brasiliense. Entrou para a história da 508 Sul, ao promover naqueles palcos a ópera-rock Último rango. Por conta desse espetáculo, Pingo acabou por levar Renato Russo ao local que o próprio acabaria por rebatizar. À época, no início da década de 1980, Renato estava à frente do Aborto Elétrico, que participava da encenação imaginada por Pingo.



O que eles disseram…

 

“A dor de vê-lo deixado de lado é grande. Uma falta de respeito histórico”
Neio Lucio, diretor, ator e dramaturgo

 

“O Galpão era o espaço das experimentações. Ele mudou a referência cultural da cidade”
Iara Pietricovsky, atriz e antropóloga

 

“Naquela época, tínhamos a impressão de fazermos algo, realmente, importante”  
James Fensterseifer, diretor e dramaturgo

 

“Minha primeira apresentação solo foi ali. Depois daquele dia, tive certeza do caminho a trilhar”
Eduardo Rangel, músico
MEMÓRIA » De Glauber a Legião


A trupe do Astrubal Trouxe o Trombone apresentou no palco da Escola Parque Trate-me leão 
A trupe do Astrubal Trouxe o Trombone apresentou no palco da Escola Parque Trate-me leão


Gal Costa estava em turnê pelo país, em 1973, com o show Índia, quando chegou a Brasília em setembro de 1973. A apresentação foi no Teatro da Escola Parque, que ficou superlotado por duas noites. Vivendo fase esplendorosa em sua carreira, a cantora baiana deixou a plateia deslumbrada ao ouvi-la interpretar canções como Barato total (Gilberto Gil), Flor de maracujá (João Donato),Volta (Lupicínio Rodrigues) e a guarânia Índia (José Fortuna) — esta num solo de voz e violão, sentada em banquinho, com as coxas à mostra.

O que não faltam são recordações de belos espetáculos que passaram pelo palco do teatro da Escola Parque, entre os anos 1970 e 1980. Foi ali que ocorreu a primeira edição do Projeto Pixinguinha, aberto por Ivan Lins e Nana Caymmi, em 28 de agosto de 1977. Antes, em maio daquele ano, um show antológico reuniu Nelson Cavaquinho e Clementina de Jesus, que depois voltaria com o Pixinguinha. Naquela década, o brasiliense se emocionou, também, com o mestre Cartola.

Em março e 1978, Brasília tomou conhecimento de uma trupe que apostava numa proposta ao mesmo tempo simples e revolucionária de fazer teatro. Com a montagem de Trate-me leão, o Astrubal Trouxe o Trombone, cumpriu temporada de 15 dias no Teatro da Escola Parque. À época, atores que integravam o grupo como Regina Casé, Patrícia Travassos, Nina de Pádua, Luiz Fernando Guimarães, Perfeito Fortuna e Evandro Mesquita (que depois criaria a banda Blitz) ainda eram pouco conhecidos.

Também em 1978, mais precisamente em 12 de abril, o consagrado Paulo Autran aportou naquele palco com a peça clássica de Arthur Miller, A morte de um caixeira viajante, em que dividia a cena com ninguém menos que Nathalia Timberg e grande elenco. Outro gigante das artes brasileiras, o cantor e compositor Paulinho da Viola trouxe para o histórico teatro o show Miudinho, acompanhado pela Velha Guarda da Portela. Por duas noites, ele deixou a timidez de lado e saiu dançando, com passos miúdos pelo palco.

Não é bom esquecer que entre 1975 e 1980 funcionou no local o Cine Clube Nelson Pereira dos Santos, criado pelo hoje programador José da Mata e por dois amigos baianos, de Barreiras, o arquiteto Aníbal Barbosa Neto e o economista Ailson Moreno. No livro Apontamentos para uma história, o crítico e pesquisador Sérgio Moriconi fala daquele período em que filmes de arte, com a assinatura de Glauber Rocha e Pier Paolo Pasolini e outros mestres eram exibidos no telão do teatro.   

 

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