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Andarilho das feiras de letras

Ignácio Loyola Brandão afirma que festivais de escritores são muito importantes na formação de novas gerações de leitores

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postado em 03/06/2014 11:22

Mariana Vieira

Aliteratura e as viagens, tanto as medidas em quilômetros quanto aquelas empreendidas na imaginação, é um tema caro a Ignácio de Loyola Brandão.Ele publicou 40 livros  entre romances, contos e histórias infantis e visitou quase 50 cidades apenas no ano passado: “Em todos os estados por conta de feiras, festas e bienais do livro”, recorda. O registro dessas andanças está em O mel de Ocara, livro mais recente do autor, que passeia, por várias cidades, inclusive Brasília e Pirenópolis, armado do estilo livre da crônica.

Ignácio esteve na primeira edição da Flipiri. “Considero-me um dos fundadores. Mesmo que não me convidem, vou continuar voltando enquanto tiver pernas”, brinca. E foi justamente por um problema de locomoção que ele quase não veio este ano. Pela manhã, o escritor de 78 anos de idade tem uma mobilidade muito reduzida. “É bom porque todos se precipitam para pegar café para mim, fazer favores, é um mimo só”, conta. A hora do café , aliás, é o ponto alto do evento na opinião de Ignácio. “As verdadeiras mesas de escritores são as que se formam no café da manhã. É engraçado porque escritor é um bicho meio esquisito, que não se relaciona muito. Mas aqui somos uma grande comunidade”, afirma.

Esse convívio entre os participantes é uma das qualidades do evento apontadas por Ignácio, bem como o contato direto com as crianças. “Falei com 300 crianças. Se 30 delas virarem leitoras, já é um êxito”, conta. Para o autor, o modelo da Flipiri deveria ser reproduzido. “A Flipiri dá de 10 a 0 na Flip, que é uma bobagem para granfinos. Aqui existe formação de leitores, contato, interação”, completa. Na conferência que fez sobre viagens literárias, ao lado de Elder Rocha Lima e de Eliane Lage, o escritor recebeu o título de cidadão honorário de Pirenópolis e a chave da cidade das mãos do prefeito. “Nem precisava. Já me sinto daqui.”


“A Flipiri dá de 10 a 0 na Flip, que é uma bobagem para granfinos. Aqui existe formação de leitores, contato, interação”
Ignácio de Loyola Brandão, escritor



Trecho
(O mel de Ocara)
“Cada vez mais ligo literatura ao prazer de comer, nessas caminhadas pelo Brasil, levado por festas, festivais, feiras e bienais de livros. De Pirenópolis ainda trago da Rua Nova o cheiro quente do biscoito de queijo de dona Sebastiana, ao sair do fogo e desmanchando na boca.”

 

O mel de Ocara
Ignácio de Loyola Brandão. Editora Global. 240 páginas. Preço médio: R$ 35.



Cinco perguntas/ Ignácio de Loyola

O escritor debruçado numa janela de um dos  casarões de Pirenópolis  
O escritor debruçado numa janela de um dos casarões de Pirenópolis



O senhor foi a Pirenópolis pela terceira vez e diz que pretende voltar lá sempre que puder. Apaixonou-se pela cidade?
A cidade é bonita e aconchegante. Arrisco a dizer que é mais bonita que Parati porque é mais ampla, dá para ver bem o céu. Além disso, tem a história da Eliane Lage, que foi uma superatriz de cinema e abandonou tudo para viver em Pirenópolis há mais de 40 anos. Eu era apaixonado por ela quando tinha meus 16 anos, e depois ela sumiu. Antes da primeira edição, eu fiquei sabendo do paradeiro dela e a conheci em São Paulo, quando foram exibir o documentário sobre ela. Passada aquela timidez inicial, ficamos amigos. Admiro muito a coragem dela de largar tudo, de tomar uma decisão e ir morar em Pirenópolis. De certa forma, ela que me atraiu para conhecer a cidade.

O que mais lhe agradou no interior do Goiás?
Ah, tem tanta coisa! Eu queria levar o céu para casa. De certa forma, eu levo. O céu de Pirenópolis é o mesmo de Brasília. Eu vi em algum lugar que queriam tombar o céu da capital como patrimônio da humanidade. Tem gente que ironiza isso, mas eu achei bonito, uma licença poética.

O céu de Brasília vale essa reverência?
 Claro! Em Brasília, eu me sinto livre, é uma cidade com horizonte, dá para ver tudo. Em São Paulo, apesar de ser uma cidade que eu amo, eu me sinto meio sufocado, com todos os prédios tão altos. Mesmo assim, estou escrevendo um livro que deve se chamar Dicionário amoroso de São Paulo. Está sendo bom para revisitar lugares e relembrar histórias da capital paulista.

Você fez muitos elogios ao modelo da Flipiri. O que a torna um evento interessante para a literatura?
 O modelo deles deveria ser copiado em todo o Brasil. Existem dados desconhecidos que mostram que os livros chegam sim até as classes mais baixas, apesar de a grande maioria ainda se concentrar na classe A. Isso graças ao esforço de gente que leva a literatura para os lugares mais longínquos do país. Eu me sinto pequeno perto de contadores de histórias profissionais, gente que tem uma pequena quantidade de livros e que consegue atingir tanta gente. Essa proposta de ir até as escolas e ter esse contato com as crianças deveria virar uma política e se expandir para outros estados. Num país como o nosso e no atual momento histórico, o importante é formar futuros leitores. Pirenópolis passou para o noticiário nacional e foi por conta da literatura.

O senhor participa de eventos no Brasil inteiro, e também de encontros internacionais, como a Feira de Frankfurt no ano passado.  O que você assimila desta experiência de circular por tantos eventos deste tipo?
Boa parte desses eventos não tem nada a ver com o leitor. A própria Feira de Frankfurt, por exemplo, é uma coisa para editores e agentes! Você vai lá, fala num auditório para 50 pessoas e vai embora. Os escritores ficam parecendo bola de árvore de Natal, que está ali só para enfeitar. Por isso, defendo a Flipiri, que leva os autores para falar com as crianças. Elas se interessam, fazem perguntas, me entregam desenhos, poemas. Outros lugares do país também estão indo por esse caminho nos eventos literários e eu acho que é o melhor mesmo.

 

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