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Blogueira conta histórias que viveu em ônibus desde a universidade

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postado em 04/06/2014 11:02 / atualizado em 04/06/2014 11:09

Mariana Niederauer

Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press
Quem anda ou já andou de ônibus sempre tem alguma história para contar sobre alguma situação engraçada ou difícil pela qual passou a bordo do transporte público. Os estudantes, que lotam as paradas nos horários de pico, para ir ou voltar da escola ou da universidade, também acumulam muitos relatos. Foi justamente na época em que estudava jornalismo que Sarita González, 25 anos, decidiu compartilhar as histórias que vivencia diariamente nas viagens para casa. “Eu pegava quatro ônibus por dia, então, eu dava chance para as histórias”, conta.

Mesmo antes de começar o curso de jornalismo, Sarita já anotava os fatos interessantes e diferentes que presenciava nos ônibus, mas só começou a escrevê-los no blog Gente passageira em 2012. Encontrou designers do Sul do país e, juntas, pensaram em um blog que transparecesse a rotina de quem anda de ônibus. As cores do trânsito – vermelho, verde e amarelo – ilustram a página, e as seções também trazem nomes sugestivos.

No “Itinerário” estão as conversas paralelas, os micro-micos e a seção você é o passageiro, onde leitores blog contribuem com relatos de situações que viveram nos ônibus. Até mesmo uma leitora da Suécia contribui com um post sobre como funciona o transporte público no país europeu. As “Histórias do baú” são os contos mais antigos de anos de viagens de um lado para outro da cidade. Em vez da contagem tradicional do número de visitantes, tem o “Já passaram pela roleta”.

Hoje, andar de ônibus virou um estilo de vida para Sarita. “Eu não aguento não andar de ônibus. É como se eu estivesse perdendo uma história”, afirma. Desde que começou a usar o transporte público, quando ainda era estudante, a jornalista já se emocionou, riu e envergonhou-se com situações embaraçosas. No caminho, encontrou diversos estudantes que, como ela, tiveram que fazer toda a viagem em pé ou esperar a chegada de um novo carro depois de o primeiro quebrar no meio da BR, com chuva. “O blog é uma forma de criticar o transporte público também”, diz.

Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press


Trabalho
A ligação de Sarita com o transporte público é tão forte que se reflete até hoje no trabalho da jornalista. Na última semana, Sarita foi finalista distrital do 6º Prêmio Sebrae de Jornalismo com uma reportagem escrita para o CorreioWeb sobre empreendedores que criaram soluções inovadoras para facilitar a rotina de quem depende de ônibus.

Ela conta que faz questão de andar de ônibus e passar pela Rodoviária para estar em contato com a realidade mais difícil da cidade e relatá-la, como a pobreza nas ruas e todas as dificuldades de quem depende sistema oferecido pelo governo até mesmo para ir ao hospital quando está doente e se locomove com dificuldade. “São coisas que eu não sei se eu veria se viesse de carro”, observa. “Tem vezes que eu choro dentro do ônibus.”

Diante de todas essas histórias que Sarita divide com os leitores sempre que tem tempo e que chega a inspiração, a blogueira conseguiu encontrar o nome ideal para resumir o que a página representa. Apesar de difícil, a escolha veio naturalmente: ela sabia que precisava falar de gente, e de gente que vem e volta todos os dias em linhas diferentes e por caminhos distintos, passando de um lado a outro da cidade. “Elas estão de passagem na minha vida e eu na delas.”

Confira um dos micro-micos que Sarita conta no blog

Fui com uma grande amiga ao Pátio Brasil depois do trabalho. Lá é nosso ponto de encontro, nossa parada da amizade. Basicamente, a gente se senta para comer em um lugar qualquer do shopping ou vai entrando e saindo de lojas enquanto desempenhamos o que sabemos fazer muito bem: conversar. Como ambas somos passageiras de ônibus, nossos encontros semanais pela noite não duram tanto tempo. Sobretudo quando se trata da parada do Pátio Brasil. Quem já esperou coletivo por lá já deve ter presenciado assaltos, confusão entre suspeitos e polícia, barracos e por aí vai.

O relógio cravou 22h e era hora de irmos embora para nossas casas. Ela ficaria na parada em frente ao shopping e eu atravessaria a pista da W3 para ir para a do outro lado, já que moramos em regiões opostas. Mas, antes, passamos numa lanchonete que vende deliciosos milk-shakes de Ovomaltine para adoçar um pouco mais a nossa noite. Não sei o que tem naquele líquido, mas sempre me deixa de muito bem com a vida. Além disso, como ônibus para Sobradinho depois daquela hora é como um milagre, o milk-shake me faria inestimável companhia.

Chegamos à rua. Tchauzinho pra cá, beijinho pra lá. Como grandes amigas nunca se despedem realmente no momento anunciado, conversamos ainda qualquer abobrinha, contamos mais alguma breve história iniciada com “menina, rapidão, esqueci de contar” e, alguns minutos depois, finalmente nos separamos. Lembro-me de que o milk-shake dela já estava praticamente no fim e, enrolada para comer e beber que sou, mal tinha iniciado o meu. Nunca entendi a pressa das pessoas para ingerir as coisas. E não significa que não tenho sede de vida e que isso reflete no meu modo de me alimentar. É que eu prefiro degustar tudo com muito jeitinho. Em contrapartida, ninguém me entende. É o mundo contra Sarita.

Fui andando para a primeira faixa de pedestres que teria de atravessar e, no meio do caminho, senti uma mão desconhecida em meu ombro. “Ei, moça. Me arruma R$ 3,00 pra eu voltar pra Ceilândia?”, ouvi em seguida. Interrompi meu devaneio no canudinho do milk-shake e olhei para ele. O rapaz de 20 e poucos anos tinha cheiro forte de álcool e andava meio que dançando, no mesmo ritmo de sua fala, meio cantando.

Eu já estava com uma nota de R$ 20 separada na mão para pagar o ônibus que me levaria para casa – quem não tem experiência como gente passageira deve saber que é sempre bom fazer isso para evitar ficar abrindo bolsa e correr o risco de ser assaltado (a) – e era tudo o que eu tinha. “Poxa, cara, desculpa, mas não tenho”, declarei. Realmente não tinha os R$ 3 que ele queria e senti que não devia dar muito papo para ele porque seus olhos não paravam quietos no rosto. Tive medo de ele estar muito fora de si e fazer algo comigo. Segui em frente. Ele também.

Parei ao lado do semáforo no qual desejei ver o bonequinho verde do mesmo modo como desejara aquele milk-shake minutos antes. Nada de abrir o sinal. Olhava para a parada que me receberia dali a pouco para ver como estava o movimento e reparei que ali perto de mim, o rapaz que queria voltar para Ceilândia abordava outras pessoas. Olhei demais. Ele me olhou de volta como Lucas olhava para Jade nos desertos da novela “O Clone” e veio falar comigo novamente. “Hein, moça, é sério. Me dá aí R$ 3 porque eu tenho que voltar para Ceilândia”, ordenou. Eu me fiz de louca e falei qualquer coisa do tipo “hjklwosturi” e ele saiu. O bonequinho do semáforo ficou verde e eu apertei o passo para chegar do outro lado.

Já estava na parada de ônibus e tudo parecia tranquilo. Havia umas 11 ou 12 pessoas além de mim, mas nenhuma “polêmica”. Posicionei-me de modo a verificar se meu ônibus vinha e continuei tomando meu milk-shake como um bebê toma sua mamadeira: na santa paz de Deus.

Eis que sinto uma mão em meu ombro, mas, desta vez, ela já era familiar. Mordi forte o canudo como quem pensa “caramba, de novo esse cara!”, e me virei para ele. “Ei, moça, me dá um gole desse seu milk-shake aí?!”. Eu ainda não tinha chegado à metade daquele líquido dos deuses e teria de dar um gole para aquele cara que nem precisava entrar num ônibus para fazer uma viagem – seus olhos e voz denunciavam. “Oi?”, eu respondi. “Um gole, moça, desse seu

Ovomaltine aí. Dá pra ser ou tá difícil? Três reais você não tem, mas tem um milk-shake gostosão aí, então me dá um gole que eu tô com sede”, apelou.

Entreguei a ele olhando para as pessoas que estavam na parada de ônibus. Uns me olhavam querendo rir, outros com cara de pena. Sempre assim. O rapaz arrancou o canudo do copo de 750 ml, levantou a tampa e bebeu um grande gole, deixando escorrer pelas beiradas da boca. Depois, colocou a tampa de volta, enfiou o canudinho de novo e apontou o copo para mim, me devolvendo. Eu estava, é claro, completamente pasma com aquela situação. “Toma, moça. VA-LEU”, ele disse. “Imagina, pode ficar, pode tomar tudo. Estou satisfeita”, falei, ligeiramente chocada. “Tá com nojinho, é, moça? Que mané satisfeita, tu tava com a maior cara de que tava curtindo o Ovomaltine quando eu te pedi. Foi só um gole, bebe o resto agora”, ele implicou. “VA-LEU”, debochei de volta, me virando para a frente para cortar de vez o contato com ele.

Olhei para a pista e, um segundo depois, o rapaz joga com toda a força do mundo o “nosso” milk-shake (pois é, passou a ser meu e dele) no meio do asfalto por onde passam os ônibus. “Não quer de volta, não quer. Tá com nojinho de mim, problema é seu”, disse ele gritando enquanto atravessava para o outro lado de onde havia surgido.

Diante dos espectadores na parada de ônibus, fiquei mais embaraçada do que meu cabelo depois de um banho de mar, mas depois comecei a rir da situação. Pobre milk-shake. Tão desejado – por mim, por minha amiga, pelo rapaz inconsequente e acredito que também pelo pessoal da parada de ônibus – e tão desperdiçado. Meu ônibus chegou logo em seguida e passou por cima daquela deliciosa lambança de Ovomaltine. Só me restou, no final das contas, olhar pela janela do coletivo nossa triste despedida.
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