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Personagens criados por Chico Buarque ao longo carreira ajudam a contar a história do país. Confira alguns

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postado em 17/06/2014 13:00 / atualizado em 17/06/2014 15:55

Diego Ponce de Leon , Gabriel de Sá

Quem é Chico Buarque de Hollanda? Um sambista carioca? O homem que escreve sob o viés feminino? Aquele perseguido pela ditadura? O das letras que embasbacam pela poesia divina? Há vários substantivos para se referir a ele, criador plural. O aniversariante da semana (dia 19) ergueu um cancioneiro de cerca de 400 músicas, pelas quais têm ajudado a narrar aspectos importantes da história recente do país. O Correio selecionou seis personagens de suas músicas para tentar compreender os traços que fazem de Chico um dos compositores brasileiros mais geniais de todos os tempos.




 (Julio Lapagesse/CB/D. A Press) 

O malandro e as minorias

“Mas o malandro para valer, não espalha
aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal
Dizem as más línguas que ele até trabalha
Mora lá longe chacoalha, no trem da central”

Há uma figura constante no imaginário carioca, embora real. Aquele cara das calçadas da Lapa. O cara do barracão das escolas de samba. O mesmo que seduz as mulatas, com um hálito de cachaça na nuca. O traje branco impecável. O ar de vagabundo, sagaz e inquieto.
As pernas bambas, como de passista na avenida. O suor na testa secado pela toalha de bolso. Os olhos marejados pelo samba-canção de Cartola, que toca no fundo do bar. Ele que é respeitado nos morros, aconselha os amigos e abraça os mendigos. Bebe com as moças, fuma com os parceiros e reza no terreiro. Navalha no bolso, foto na coluna social e amizade na central.
Se ele trabalha, ninguém sabe. De dia, ninguém vê. À noite, impossível não perceber. Se o tal “guri” crescesse, talvez, viraria esse cara. Que nasce no Rio de Janeiro, sem vocação para Pedro Pedreiro. Não se engane: todo carioca é brasileiro. E ele aparece no país inteiro. O desvalido. O perseguido. Preto, pobre, fedendo a Cashmere Bouquet e a conhaque. O malandro de Chico Buarque.




 (Julio Lapagesse/CB/D. A Press) 

Maldita Geni

“De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada”

No musical Ópera do malandro, criado por Chico em 1978, Geni aparece como um travesti prostituído e marginalizado de uma pequena cidade. A “rainha dos detentos” e dos “moleques do internato” é aquela que “dá pra qualquer um”, e por isso “é boa de cuspir” e deve ser apedrejada, segundo a letra. A personagem é redimida quando se deita com um homem que surge em um Zepelim gigante e, prestes a exterminar a cidade, se apaixona por ela. “Vai com ele, vai, Geni/Você pode nos salvar”, canta a população, em coro.
A saga de Geni registra o talento de Chico para contar histórias, mesmo que fictícias, e traz à tona temas tabus como homossexualidade e prostituição. Em uma simples canção, a partir de uma heroína toda errada, “tão coitada e tão singela”, o compositor suscita discussões sobre preconceito, relações de gênero e poder e falso moralismo. As músicas de Chico ajudam a entender o tempo em que foram criadas; e, como se vê, mantêm uma vitalidade impressionante. Geni está entre nós.





 (Julio Lapagesse/CB/D. A Press) 

Beatriz e a vida da atriz

“Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura”

A personagem não é unânime. Nem todos se seduziram por Beatriz. O próprio Chico demorou a concebê-la. Quando ela apareceu, em 1982, foi por solicitação. Edu Lobo pediu. E, como bom parceiro, Chico aceitou. Mas a recebeu sob outra graça: Agnes, uma equilibrista. Tudo culpa do poeta Jorge de Lima que, em 1938, escreve O grande circo místico. Lá, ainda era Agnes.
Quando o Balé Guaíra, do Paraná, pede uma montagem sob mesmo nome, Edu vai beber na fonte de Jorge de Lima. Chico prefere outra: Dante Alighieri. Assim, Agnes se torna a Beatriz de Dante, aquela do sétimo céu, da Divina comédia. Logo, tornaria-se a Beatriz de Chico, surrealista e gerada por um impulso psíquico. Isso até Milton Nascimento tomá-la para si, em definitivo.
Embora tenha sido emprestada a vozes competentes, como de Elba Ramalho e de Carlos Navas, Beatriz foi embalada na interpretação de Milton no disco de 1983 (o antológico O grande circo místico, como o poema de Jorge de Lima). Ali, descansou. Atriz? Triste? Ao contrário? Beatriz é quem ela quiser. Até equilibrista. Só não a chamem de Agnes.




 (Julio Lapagesse/CB/D. A Press) 

Angélica e a ditadura militar

“Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar meu anjo”

Nesta melancólica letra de Chico, Angélica é a estilista Zuzu Angel, cujo filho, o militante político Stuart, foi preso, torturado e morto pela ditadura militar no começo dos anos 1970. A luta de Zuzu para encontrá-lo, em vão, tornou-se internacionalmente conhecida. Ela morreu em 1976, um ano antes de Chico homenageá-la com a canção.
Para melhor compreender a ditadura sob a ótima cultural, Chico Buarque de Hollanda é nome essencial. As provocantes metáforas criadas por ele em canções como Cálice e Apesar de você cutucaram o regime ajudaram a dar voz a uma população reprimida. Em contrapartida, Chico foi objeto constante de censura, criou pseudônimo para conseguir emplacar algumas músicas, gravou disco com canções alheias e se autoexilou na Itália. A ditadura passou, a obra de Chico ainda está passando.




 (Julio Lapagesse/CB/D. A Press) 

A Rita, os 20 anos e o coração

“A Rita matou nosso amor de vingança
Nem herança deixou
Não levou um tostão
Porque não tinha não
Mas causou perdas e danos”

As mulheres são um capítulo extenso no cancioneiro de Chico Buarque. Da submissa de Com açúcar, com afeto à batalhadora de A violeira, o compositor versa com maestria sobre o universo feminino, revelando nuances muitas vezes menosprezadas por homens menos sensíveis. Rita é uma mulher forte, decidida. Ao sair de casa, deixa o amante devastado, e carrega consigo sentimentos e objetos que contam a história dos dois. Faixa do primeiro disco de Chico, A Rita é uma das canções mais conhecidas do cantor, e apresenta elementos que seriam marcantes em toda a obra do artista.
Um dos itens carregados por Rita é “um bom disco de Noel (Rosa)”. A referência ao compositor carioca do início do século 20 evidencia a admiração de Chico pelo artista. Os dois, volta e meia, são comparados, pelo caráter cronista de suas obras. Rita, também, “deixa mudo” o violão do artista. Seria uma forma de Chico dizer que, sem a mulher, a inspiração vai embora?




 (Julio Lapagesse/CB/D. A Press) 

Pedro Pedreiro e a espera sem fim

“Pedro pedreiro tá esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo
Espere alguma coisa mais linda que o mundo”

Em 1965, quando Pedro Pedreiro nasceu, Maria Bethânia estava cantando a saga do carcará, em cima do palco. Pedro teria adorado assistir ao espetáculo Opinião. A identificação seria imediata. A saudade do Norte, a espera da morte. Quando Bethânia pede para o morro descer a ladeira, ele berraria da plateia: “Já estou aqui!”.
Pedro é real. De carne e osso. De canela empoeirada, calça rasgada e sandália nos pés. Mãos calejadas e trocada no bolso. Com quantos Pedros cruzamos hoje? Quantos Pedros há em você? Trabalhador braçal, que vai em pé no ônibus e arregaça as mangas para pagar as contas. Todo dia, ele faz tudo sempre igual.
Por isso, não pôde ir ver Bethânia. O cotidiano não permite. Ele não tem dinheiro para ir para Copacabana. Fica ali, na estação, correndo risco de apanhar dos militares que tomaram o poder no ano anterior. Proletário não vai ao teatro. Não reclama. Ele segue esperando o trem. Esperando… Esperando… “Amanhã vai ser outro dia”, pensa Pedro. E algo lhe diz que o trem, alguma  hora, vai passar!
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