SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

DIVERSãO&ARTE »

"Aqui na Terra tão jogando futebol"

Aniversariante da semana, o cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda consegue unir com maestria, ainda hoje, suas duas maiores paixões: a música e a bola

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 17/06/2014 12:36 / atualizado em 17/06/2014 13:01

Diego Ponce de Leon , Gabriel de Sá

 

Chico com a camisa do Polytheama, durante passagem da equipe por Brasília, em 2007  (Zuleika de Souza/CB/D.A Press - 14/5/07) 
Chico com a camisa do Polytheama, durante passagem da equipe por Brasília, em 2007


Em Paris, onde os 70 anos serão festejados na próxima quinta, Chico Buarque de Hollanda frequenta os campos de grama sintética construídos pela prefeitura. O septuagésimo aniversário, certamente, não o impedirá de bater uma bola. Como os nativos não são chegados a uma pelada, o cantor joga com os latinos e africanos residentes, conhecidos ou nunca vistos antes. Alguns deles mal sabem de que se trata de um dos mais conhecidos e admirados compositores do Brasil.

Chico Buarque está para o futebol como Vinicius de Moraes estava para o uísque. A relação é constante, intensa e íntima. O esporte permeou uma série de canções do artista carioca, assim como foi tema central de crônicas e textos. A coincidência da chegada dos 70 anos em meio à Copa do Mundo soa como um presente. “Não tenho dúvida de que ele está acompanhando de perto cada lance do Mundial. Não perderia por nada”, comenta Wagner Homem, escritor responsável pelo conteúdo do site oficial do cantor. A partida de hoje, em que o Brasil enfrenta o México, deve estar sendo aguardada com ansiedade pelo cantor.
A paixão pelo esporte fez com que Chico compusesse, entre várias outras músicas, O futebol, canção que simboliza como nenhuma outra a apreço do cantor pela pelada e os personagens que marcaram sua juventude. “Para Mané/Para Didi/Para Mané/ Mané para Didi/Didi para Pagão/Para Pelé e Canhoteiro”, diz um trecho. Chico é autor também do hino do Polytheama, time criado por ele há 35 anos e no qual dá vazão ao lado jogador três vezes por semana. “Polythema, Polythema, o povo clama por você/ Polythema, Polythema, cultiva a fama de não perder.”

A sede da equipe fica no Recreio dos Bandeirantes, Zona Oeste do Rio de Janeiro, e lá Chico recebe os amigos para divertidas peladas. Nem os 70 anos devem afastá-lo da atividade. Polytheama era o nome do time de futebol de botão criado pelo cantor na infância. Mais velho, conseguiu realizar o sonho de transformar as peças em atletas de carne e osso — ele, inclusive, que joga como meia-esquerda e está sempre atento à performance de seus colegas. As cores do Polytheama são o azul e o verde-limão, bem diferentes das do Fluminense, time do coração de Chico.

O compositor e violonista Guinga conhece o cantor desde o começo dos anos 1970, e garante: “Futebol é a coisa que ele mais gosta no mundo”. A música, segundo o amigo, ocuparia apenas o segundo lugar da lista de preferências do carioca. Foi exatamente quando Guinga começou a frequentar as peladas de Chico, ainda na década de 1980, que a amizade dos dois se fortaleceu. O campinho do Polytheama — sempre “verdinho e aparado”, segundo Guinga — foi palco de inúmeras conversas e os mais variados causos. “Mas boa parte deles é impublicável”, diverte-se o violonista.

O cantor Ruy Faria, ex-MPB4 e amigo de Chico há cinco décadas, também é habitué das partidas no Recreio dos Bandeirantes. “Toda semana, às segundas e quintas, eu estou lá. O resto do pessoal joga no sábado também”, detalha ele. Na turma, estão nomes como Hyldon, Sombrinha, Carlinhos Vergueiro e Jorge Vercillo. Ruy e Chico se conheceram por volta de 1964. Por oito anos, o compositor carioca não abria mão de ter o MPB4 acompanhando ele nos shows que fazia pelo Brasil. “A gente jogava desde essa época. Para a idade do Chico, ele joga muito bem”, elogia o amigo.

Cronista


Pelos corredores da MPB, contam que Chico desembarcou, há bons anos, em Paris e correu para um táxi. Estranhando tamanho alvoroço em torno do rapaz que acabara de adentrar seu carro, o motorista comentou: “Você deve ser famoso”. Irreverente, Chico teria respondido: “Sou um jogador de futebol muito conhecido no Brasil”. Não convencido, o chofer insistiu: “E aquela caixa em forma de violão, que eu guardei no porta-malas?” Certeiro, o artista encerrou as dúvidas: “Justamente para enganar a imprensa. Guardo minhas chuteiras ali”.

As tiradas bem humoradas são velhas conhecidas dos poucos que mantêm laços de amizade com Chico Buarque. Wagner Homem sempre se diverte com elas. O autor (responsável, entre outros, por História de canções — Chico Buarque) revela que os melhores episódios protagonizados pelo compositor costumam ter relação com futebol.

“Em um dos shows, sentei ao lado do (técnico) Parreira. No dia seguinte, comentei com Chico. Ele disse: ‘Pois é! Ele foi ao camarim. Estava meio contido, tímido. No fundo, acho que ele queria me convocar e ficou com vergonha”, relatou Homem, aos risos.

Em outro momento, impagável, Chico teria aceitado receber o título de cidadão honorário de uma capital, mas que um requisito fosse cumprido: “Até aceito, desde que o evento aconteça no campinho da cidade, durante uma pelada”, teria dito, segundo narração do amigo Wagner Homem. E não é que a câmara municipal foi até ao bendito campo realizar o protocolo? Nem todo dia que Chico dá as caras. Nas raras ocasiões, futebol parecer ser o principal motivo. Depois, a música.

 (Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press - 13/6/14 ) 


“Já brinquei de bola, já soltei balão
Mas tive que fugir da escola
Pra aprender a lição”
Meu refrão


“Mas caro nego
Um pano rubro-negro
É presente de grego
Não de um bom irmão”
Ilmo Sr. Ciro Monteiro ou receita
para virar casaca de neném


“Pois sem você
O tempo é todo meu
Posso até ver o futebol
Ir ao museu, ou não”
Sem você 2


“Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll”
Meu caro amigo


“Ai, que saudades que eu tenho
Duma travessura
Um futebol de rua”
Doze anos


“Sei que alguém vai sentar junto
Você vai puxar assunto
Discutindo futebol”
Com açúcar, com afeto


“Para estufar esse filó
Como eu sonhei
Só se eu fosse o Rei
Para tirar efeito igual
Ao jogador
Qual compositor”
O futebol


“Quieta que
eu quero ouvir Flamengo
e River Plate”
Biscate


“Inda garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim”
Até o fim
Paratodos
Personagens criados por Chico Buarque ao longo carreira ajudam a contar a história do país. Confira alguns

Quem é Chico Buarque de Hollanda? Um sambista carioca? O homem que escreve sob o viés feminino? Aquele perseguido pela ditadura? O das letras que embasbacam pela poesia divina? Há vários substantivos para se referir a ele, criador plural. O aniversariante da semana (dia 19) ergueu um cancioneiro de cerca de 400 músicas, pelas quais têm ajudado a narrar aspectos importantes da história recente do país. O Correio selecionou seis personagens de suas músicas para tentar compreender os traços que fazem de Chico um dos compositores brasileiros mais geniais de todos os tempos.




 (Julio Lapagesse/CB/D. A Press) 

O malandro e as minorias

“Mas o malandro para valer, não espalha
aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal
Dizem as más línguas que ele até trabalha
Mora lá longe chacoalha, no trem da central”

Há uma figura constante no imaginário carioca, embora real. Aquele cara das calçadas da Lapa. O cara do barracão das escolas de samba. O mesmo que seduz as mulatas, com um hálito de cachaça na nuca. O traje branco impecável. O ar de vagabundo, sagaz e inquieto.
As pernas bambas, como de passista na avenida. O suor na testa secado pela toalha de bolso. Os olhos marejados pelo samba-canção de Cartola, que toca no fundo do bar. Ele que é respeitado nos morros, aconselha os amigos e abraça os mendigos. Bebe com as moças, fuma com os parceiros e reza no terreiro. Navalha no bolso, foto na coluna social e amizade na central.
Se ele trabalha, ninguém sabe. De dia, ninguém vê. À noite, impossível não perceber. Se o tal “guri” crescesse, talvez, viraria esse cara. Que nasce no Rio de Janeiro, sem vocação para Pedro Pedreiro. Não se engane: todo carioca é brasileiro. E ele aparece no país inteiro. O desvalido. O perseguido. Preto, pobre, fedendo a Cashmere Bouquet e a conhaque. O malandro de Chico Buarque.




 (Julio Lapagesse/CB/D. A Press) 

Maldita Geni

“De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada”

No musical Ópera do malandro, criado por Chico em 1978, Geni aparece como um travesti prostituído e marginalizado de uma pequena cidade. A “rainha dos detentos” e dos “moleques do internato” é aquela que “dá pra qualquer um”, e por isso “é boa de cuspir” e deve ser apedrejada, segundo a letra. A personagem é redimida quando se deita com um homem que surge em um Zepelim gigante e, prestes a exterminar a cidade, se apaixona por ela. “Vai com ele, vai, Geni/Você pode nos salvar”, canta a população, em coro.
A saga de Geni registra o talento de Chico para contar histórias, mesmo que fictícias, e traz à tona temas tabus como homossexualidade e prostituição. Em uma simples canção, a partir de uma heroína toda errada, “tão coitada e tão singela”, o compositor suscita discussões sobre preconceito, relações de gênero e poder e falso moralismo. As músicas de Chico ajudam a entender o tempo em que foram criadas; e, como se vê, mantêm uma vitalidade impressionante. Geni está entre nós.





 (Julio Lapagesse/CB/D. A Press) 

Beatriz e a vida da atriz

“Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura”

A personagem não é unânime. Nem todos se seduziram por Beatriz. O próprio Chico demorou a concebê-la. Quando ela apareceu, em 1982, foi por solicitação. Edu Lobo pediu. E, como bom parceiro, Chico aceitou. Mas a recebeu sob outra graça: Agnes, uma equilibrista. Tudo culpa do poeta Jorge de Lima que, em 1938, escreve O grande circo místico. Lá, ainda era Agnes.
Quando o Balé Guaíra, do Paraná, pede uma montagem sob mesmo nome, Edu vai beber na fonte de Jorge de Lima. Chico prefere outra: Dante Alighieri. Assim, Agnes se torna a Beatriz de Dante, aquela do sétimo céu, da Divina comédia. Logo, tornaria-se a Beatriz de Chico, surrealista e gerada por um impulso psíquico. Isso até Milton Nascimento tomá-la para si, em definitivo.
Embora tenha sido emprestada a vozes competentes, como de Elba Ramalho e de Carlos Navas, Beatriz foi embalada na interpretação de Milton no disco de 1983 (o antológico O grande circo místico, como o poema de Jorge de Lima). Ali, descansou. Atriz? Triste? Ao contrário? Beatriz é quem ela quiser. Até equilibrista. Só não a chamem de Agnes.




 (Julio Lapagesse/CB/D. A Press) 

Angélica e a ditadura militar

“Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar meu anjo”

Nesta melancólica letra de Chico, Angélica é a estilista Zuzu Angel, cujo filho, o militante político Stuart, foi preso, torturado e morto pela ditadura militar no começo dos anos 1970. A luta de Zuzu para encontrá-lo, em vão, tornou-se internacionalmente conhecida. Ela morreu em 1976, um ano antes de Chico homenageá-la com a canção.
Para melhor compreender a ditadura sob a ótima cultural, Chico Buarque de Hollanda é nome essencial. As provocantes metáforas criadas por ele em canções como Cálice e Apesar de você cutucaram o regime ajudaram a dar voz a uma população reprimida. Em contrapartida, Chico foi objeto constante de censura, criou pseudônimo para conseguir emplacar algumas músicas, gravou disco com canções alheias e se autoexilou na Itália. A ditadura passou, a obra de Chico ainda está passando.




 (Julio Lapagesse/CB/D. A Press) 

A Rita, os 20 anos e o coração

“A Rita matou nosso amor de vingança
Nem herança deixou
Não levou um tostão
Porque não tinha não
Mas causou perdas e danos”

As mulheres são um capítulo extenso no cancioneiro de Chico Buarque. Da submissa de Com açúcar, com afeto à batalhadora de A violeira, o compositor versa com maestria sobre o universo feminino, revelando nuances muitas vezes menosprezadas por homens menos sensíveis. Rita é uma mulher forte, decidida. Ao sair de casa, deixa o amante devastado, e carrega consigo sentimentos e objetos que contam a história dos dois. Faixa do primeiro disco de Chico, A Rita é uma das canções mais conhecidas do cantor, e apresenta elementos que seriam marcantes em toda a obra do artista.
Um dos itens carregados por Rita é “um bom disco de Noel (Rosa)”. A referência ao compositor carioca do início do século 20 evidencia a admiração de Chico pelo artista. Os dois, volta e meia, são comparados, pelo caráter cronista de suas obras. Rita, também, “deixa mudo” o violão do artista. Seria uma forma de Chico dizer que, sem a mulher, a inspiração vai embora?




 (Julio Lapagesse/CB/D. A Press) 

Pedro Pedreiro e a espera sem fim

“Pedro pedreiro tá esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo
Espere alguma coisa mais linda que o mundo”

Em 1965, quando Pedro Pedreiro nasceu, Maria Bethânia estava cantando a saga do carcará, em cima do palco. Pedro teria adorado assistir ao espetáculo Opinião. A identificação seria imediata. A saudade do Norte, a espera da morte. Quando Bethânia pede para o morro descer a ladeira, ele berraria da plateia: “Já estou aqui!”.
Pedro é real. De carne e osso. De canela empoeirada, calça rasgada e sandália nos pés. Mãos calejadas e trocada no bolso. Com quantos Pedros cruzamos hoje? Quantos Pedros há em você? Trabalhador braçal, que vai em pé no ônibus e arregaça as mangas para pagar as contas. Todo dia, ele faz tudo sempre igual.
Por isso, não pôde ir ver Bethânia. O cotidiano não permite. Ele não tem dinheiro para ir para Copacabana. Fica ali, na estação, correndo risco de apanhar dos militares que tomaram o poder no ano anterior. Proletário não vai ao teatro. Não reclama. Ele segue esperando o trem. Esperando… Esperando… “Amanhã vai ser outro dia”, pensa Pedro. E algo lhe diz que o trem, alguma  hora, vai passar!
 
Tags:

publicidade