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Eternamente Yolanda...

Em entrevista exclusiva, coautor da canção mais executada de Chico Buarque, o premiado cubano Pablo Milanés relembra a longa amizade com o compositor carioca

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postado em 18/06/2014 10:22 / atualizado em 18/06/2014 10:24

Em 1986, os compositores fizeram duas apresentações no Distrito Federal. Uma delas em Ceilândia  
Em 1986, os compositores fizeram duas apresentações no Distrito Federal. Uma delas em Ceilândia


Em janeiro de 1978, Chico Buarque esteve em Havana como júri do prestigioso prêmio Casa de Las Américas, promovido pelo governo de Fidel Castro. Sentou-se ao lado do colombiano Gabriel García Márquez e de outros intelectuais latinos. Na plateia, a então esposa Marieta Severo acompanhava o evento. Pouco depois, de volta ao Brasil, Chico e Marieta foram detidos pela polícia e obrigados a prestar esclarecimentos acerca daquela visita.

A relação de afeto que Chico sempre manteve com a ilha socialista rendeu algumas dificuldades, principalmente no decorrer da ditadura militar, mas igualmente alguns proveitos. O principal deles talvez seja a amizade com o guitarrista e trovador Pablo Milanés, um dos mais consagrados músicos cubanos e principal nome do movimento conhecido como Nueva Trova Cubana.

Juntos, Pablo e Chico compuseram alguns clássicos daquele período, como Canción por la unidad latinoamericana (um hino de resistência e congregação) e Como se fosse a primavera. No entanto, foi à custa de Yolanda que a parceria entrou para a história. Trata-se da canção mais executada de Chico Buarque no Brasil, segundo informações do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad).

Em entrevista exclusiva ao Correio, Milanés recordou algumas histórias ao lado do compositor carioca e compartilhou algumas anedotas. Em 1986, os dois estiveram na capital federal para duas apresentações. A vinda rendeu, ainda, uma rápida passagem pela Universidade de Brasília (UnB). “Fizemos uma breve conferência sobre a música cubana”, lembrou o cantor de 71 anos, que enfrenta dificuldade na locomoção, por conta de uma perda óssea nos quadris. Em meio a exames médicos rotineiros, na Europa, Milanés reservou um tempo para falar sobre o amigo.

A amizade entre eles ultrapassa três décadas. Em depoimento, registrado em DVD para uma série retrospectiva, Chico lembrou do impulso inicial para ir à terra de Fidel: “Antigamente, o passaporte brasileiro dizia: válido para todos os países, com exceção de Cuba. Dá vontade de ir, né?” Pois, ele foi. Pablo Milanés (e a música brasileira) agradece.



Entrevista / Pablo Milanés

O senhor se lembra da primeira vez que esteve com Chico?
Sim. Foi no Teatro Carlos Marx de Havana, onde fizemos uma apresentação juntos, ao lado de outros trovadores. Foi nessa noite que nos conhecemos, bem no início da década de 1980.

A canção Yolanda é uma das mais conhecidas do cancioneiro brasileiro. Qual a história por trás da composição?
Yolanda foi um trabalho que dediquei a minha segunda esposa, mãe das minhas três filhas mais velhas. Tornou-se uma canção tradicional, ao longo do tempo, e não posso deixar de cantá-la. Algo que sempre faço com muito prazer. Não sai do meu repertório.

Como era o convívio com Chico, durante as apresentações que fizeram juntos?
Toda a minha história com Chico é de irmão. Mesmo quando deixamos de nos falar por alguns anos, o carinho permanece a distância. Toda vez que nos encontramos, proferimos uma irmandade maravilhosa.

Não pode nos contar nada dos camarins? Algo inusitado?
Chico era um homem muito nervoso durante as apresentações. Tenho a impressão de que ele compõe e escreve de forma mais serena do que canta. Quando se põe a cantar, fica nervoso. Lembro-me de que, na primeira vez que nos apresentamos juntos, no Canecão (Rio de Janeiro), em 1983, ele bebeu tanto vinho para combater a ansiedade que, assim que pisou no palco, caiu! Mas o público o adorava de tal forma que logo o aplaudiu calorosamente e ficou tudo bem.

Uma noite inesquecível essa estreia…
Naquela noite, fomos assistidos por Luís Carlos Prestes, Oscar Niemeyer, Thiago de Mello, a atriz Regina Duarte — que, inclusive, protagonizava uma novela muito popular exibida em Cuba, na época — e por outras personalidades da cultura brasileira. Foi um grande acontecimento, já que eu era o primeiro artista cubano a visitar o Brasil, depois de 20 anos de estorvo. O último havia sido o (popular cantor cubano) Bola de Nieve.

E a última vez em que estiveram juntos?
Em setembro de 2010, mais uma vez, no Rio. Foi uma escala que fiz entre um festival mineiro, organizado por Milton Nascimento, que me convidou, e uma apresentação em outro festival, em São Paulo, onde cantei com Maria Rita. Nesse reencontro, passei vários dias lindos, no Rio, acompanhado de Chico e Milton.

Nos últimos anos, Chico tem se mantido cada vez mais discreto. Imaginava isso?
Ele é tão popular que é impossível passar despercebido. Sempre foi tão assediado pelo público que preferiu ter uma vida menos ativa, publicamente. Eu o entendo e o respeito. Ainda assim, parece-me que o interesse por ele segue igual, como ele merece.

Consegue definir a importância dele em sua vida?
Entre nós dois, há uma correspondência intelectual e humana que nos influencia e nos une.
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