Pesquisa mostra que ciberbullying atormenta boa parte dos jovens

Um dos aplicativos mais polêmicos que facilitava essas agressões, o Secret, foi suspenso pela Justiça

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postado em 21/08/2014 21:10 / atualizado em 22/08/2014 14:45

Segundo a pesquisa Este Jovem Brasileiro, realizada pelo Portal Educaciona, 95% dos jovens têm acesso diário à internet e 90% começaram a navegar na rede com 12 anos ou menos. Enquanto o acesso aos meios digitais cresce exponencialmente, a educação digital ainda deixa por desejar. Dos jovens, 86% admitem acessar conteúdo proibido para menores de 18 anos, 37% reconhecem que ofenderam colegas por meio da rede e 36% já ficaram tristes pelos insultos que se multiplicam na rede.

O fenômeno do bullying é observado inclusive por pais e professores. 64% dos docentes entrevistados relatam que observam problemas de bullying e ofensas entre os estudantes, e 73% apontam problemas de relacionamento causados por postagens em redes sociais. Embora 98% dos pais afirmaram ter alertado os filhos sobre os perigos da rede, 59% dos professores alegam que os estudantes não têm consciência dos riscos da internet.

Um dos aplicativos mais polêmicos em relação ao bullying é o Secret. A intenção dos criadores do app era que os usuários compartilhassem os próprios segredos, como forma de ter a liberdade de falar anonimamente sobre assuntos íntimos que causariam constrangimento caso fossem publicados em redes sociais como Facebook e Twitter, nas quais todos são identificados. Porém, o anonimato também pôde incentivar comportamento irresponsável e agressivo, como a publicação de segredos de outras pessoas.

O estudante de agronomia da Universidade de Brasília, João Lucas Cotrim, 19 anos, tem vários colegas que foram hostilizados na rede social e reprova esse tipo de atitude. “Às vezes, aparece uma foto da pessoa e uma frase debochando dela, falando coisas ruins. Geral comenta concordando e xingando a pessoa. Claro que ela não se sente bem, sendo exposta a todo mundo. Algumas começaram a fazer terapia”, conta.

De acordo com Grazielle Rangel, professora e coordenadora do curso de redes sociais do Ibmec-MG, muitos usuários, protegidos pelo anonimato, causaram multiplicação em rede de ofensas, mentiras e até fotos íntimas. “As pessoas se aproveitam e se escondem atrás do anonimato para expor as outras e não as próprias ideias.”

Suspensão
O aplicativo será suspenso no Brasil, de acordo com decisão liminar da 5ª Vara Civil de Vitória (ES), nesta terça-feira (19/8). A medida defere o pedido do Ministério Público do Espírito Santo para que as lojas virtuais deixem de disponibilizar o Secret para downloads. Além disso, prevê que o Secret seja apagado de dispositivos móveis em que o programa já esteja instalado. Caso a Apple e a Google descumpram a decisão após o prazo de 10 dias, podem ser multadas diariamente em R$ 20 mil. A medida também se aplica ao similar Cryptic, lançado pela Microsoft.

Grazielle Rangel lembra que os mais jovens são ainda mais vulneráveis a esse tipo de malefício. “Eles ainda estão construindo a imagem digital e, quando vem um ataque, uma crítica ou uma exposição negativa, isso afeta significativamente o jovem, que muitas vezes não lida bem com isso”, esclarece. A professora enfatiza que postagens de má fé causam impacto muito negativo para as vítimas. “É muito constrangedor. Imagina você dormir e, de repente, tem 6 mil compartilhamentos de uma imagem íntima sua?”.

A professora Grazielle Rangel explica que, para evitar constrangimentos, os jovens precisam ser educados digitalmente a respeito de ética na rede. Rangel recomenda tomar cuidado com o que fotografam, registram e publicam nas redes sociais. “Precisamos ter responsabilidade maior e nos perguntar: ‘Isso fere os direitos de alguém? Meu conteúdo é privado ou atinge outras pessoas? Até que ponto tenho exposto minha privacidade e a dos outros?'". A professora ressalta que as atitudes na rede afetam tanto o meio on-line quanto o off-line.

O professor de geografia do colégio Seriös Thiago Fernandes concorda com a decisão da Justiça. Segundo ele, diferentemente de aplicativos como o WhatsApp e Facebook, o Secret estimula o bullying e não oferece meios de responsabilizar quem emite mensagens mal-intencionadas, o que justifica a proibição. “Não vejo a proibição como solução. Mas, honestamente, nesse caso, ainda não consegui perceber nenhum tipo de benefício trazido pelo Secret”, afirma.

De acordo com o professor Thiago Fernandes, é importante que a família converse com os jovens a respeito do uso do aplicativo, para que eles tenham consciência do impacto negativos de uma postagem ou até uma curtida. “O diálogo ainda é o melhor instrumento de combate a esse tipo de prática”, explica.

O professor também recomenda que a família apóie as vítimas, até mesmo procurando ajuda psicológica. Grazielle também orienta procurar um advogado. “As vítimas de constrangimento podem se defender. Existem leis contra esse tipo de publicação e garantem que, se alguma imagem for divulgada, isso seja tipificado como crime”, explica.

 

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