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Voto consciente aos 105

Acreana que mora em Brasília há mais de 50 anos compareceu às urnas nestas eleições. Matriarca de uma grande família, ela espera ajudar a construir um país melhor por meio do voto

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postado em 06/10/2014 11:07 / atualizado em 06/10/2014 11:26

Ana Paula Lisboa

Paula Rafaiza/Esp. CB/D.A Press
Acompanhada da filha, de duas netas e de uma bisneta, Maria Mesquita Meira chegou à Seção 116 para votar às 10h30 do último domingo. De cabelos brancos e vestido azul florido, ela chamava atenção na cadeira de rodas em meio à fila de eleitores. Ela passou da idade em que é obrigatório votar há 35 anos: aos 105, faz isso por prazer. "Eu gosto de política e gosto de acompanhar o que acontece", diz com um sorriso escancarado. Desde que veio morar em Brasília, em 1963, vota no mesmo local: o Colégio La Salle, na 906 Sul. Daqui a quatro anos, ela pretende participar das eleições mais uma vez. O que ela almeja por meio do voto é simples: "eu espero tudo de bom para o Brasil."

Maria nem se lembra mais da primeira vez em que foi às urnas, mas diz que as eleições são um momento muito importante. "A primeira vez foi em Feijó, no Acre, onde nasci, e eu nunca fiquei sem votar. Faço questão de votar, de ser mais um voto, de ajudar a eleger. Eu voto para ajudar os bons e corretos candidatos que estão aí pelejando", declara. Ele teve algumas decepções políticas, mas não se deixa abater. "Isso não me desanima não. Tenho esperança de que venham outros melhores."

Ela não revela os candidatos escolhidos, porque "voto é secreto", mas diz que os seleciona acompanhando programas políticos e noticiários pela televisão. A aparência frágil e a fala fraca — de poucas palavras — contrastam com a lucidez e o brilho nos olhos miúdos quando o assunto é política. Afinal, é um tema de família: o marido, Raul Arantes Meira, foi prefeito em Boca do Acre (AM); o filho, José Clerman Meira, foi prefeito em Cruzeiro do Sul (AC); o único irmão, Geraldo Gurgel de Mesquita, foi deputado federal, senador e governador do Acre; o sobrinho, Geraldo Mesquita Júnior, foi senador pelo Acre até 2011.

O entusiasmo pela política também estava presente nos pais dela, o seringueiro José Henrique de Mesquita e a dona de casa Maria Gurgel de Mesquita. "Eles ficavam felizes com a carreira política do meu irmão. Foi vendo ele que eu me interessando por isso também. Ele era homem trabalhador e honesto", lembra. Maria passou o interesse pela administração pública para os filhos, netos e trinetos. "A família é muito politizada por causa dela. No sábado mesmo, estávamos na casa dela discutindo sobre os candidatos. Ela veio votar porque quer uma mudança mesmo", conta a neta Suzana Meira Magalhães, que prefere não revelar a idade.

Paula Rafaiza/Esp. CB/D.A Press


Laços de sangue
Dois filhos, 10 netos, 20 bisnetos e 13 trinetos são sua descendência. "São muitos. Tem uns que eu já nem conheço pelo nome", admite. Fã de crianças, adora estar rodeada pela família. A filha Terezinha Meira Magalhães, 85 anos, mora com ela e sente completa veneração pela matriarca. "Ela é boa demais, e eu admiro tudo nela. Procura os netos o tempo todo... Eu aprendi a valorizar a família com ela. Mamãe sempre nos ensinou sobre política e sobre valorizar a família", diz.

O contato com os familiares é constante, tanto que quando eles não estão por perto, Maria fica dependurada no telefone. "Gosto de cuidar e de controlar. Quero saber onde todos estão", conta. "Quando não estou no telefone, eu vejo o noticiário, molho as plantas e gosto de mudar as coisas de lugar para deixar a casa bonita. Eu sempre chamo alguém para ajudar. Enquanto não ficar bom, fico reclamando", revela. "Gosto de fazer de tudo, mas não posso mais fazer de tudo. Então, faço o que eu posso. Quando eu quero fazer uma coisa chamo uma pessoa para me ajudar e vou fazendo. Eu gostava de cozinhar, mas parei. Meu pudim de leite condensado era coisa de que todo mundo gostava", lembra.

Admiração
A generosidade é um traço conhecido de Maria, que sempre fala em dividir a aposentadoria com as duas funcionárias: uma cuidadora e uma cozinheira. Para a neta Suzana, a avó também é sinônimo de caráter e amor. "Até a amar ela ensina. É muito agregadora. A mãe dela, minha bisa, passou isso para ela, que passou para minha mãe e para toda a família", conta. "Eu admiro a bondade e o carinho que ela tem pelas pessoas ao seu redor. É calma e tranquila, é um amor de pessoa. Eu adoro a minha avó", derrete-se Maria Tereza Meira Magalhães, que não revela a idade.

A bisneta Marcela Magalhães Scafuto, 33 anos, aprecia mais um traço da matriarca acreana: o respeito. "Minha bisavó é um exemplo em todos os sentidos, como cidadã, como bisavó, vó, mãe. Ela é muito especial e nos ensina a não ter preconceito, a sempre pensar no próximo. O que mais admiro é essa questão de tratar todos da mesma forma, mesmo vindo de uma época bem diferente", elogia.

Saudades
Maria Mesquita Meira era dona de casa e também inspetora de um jardim de infância. Ela se aposentou e veio para Brasília, em 1963, acompanhando o marido, servidor público. Os dois filhos, crescidos e casados, também vieram para a capital federal, onde terminaram de criar os netos. Apesar de viver no planalto central há 51 anos, o lugar ainda não a cativou. "Eu não gosto daqui não. Prefiro o Acre. Tenho saudades de lá. Ainda quero fazer uma viagem para lá. Sinto falta dos amigos, das comadres…"

Outras de suas saudades são o marido, Raul Arantes Meira, que morreu em 1975; o irmão, Geraldo Gurgel de Mesquita, que faleceu em 2009 aos 90 anos; o filho, José Clerman Meira, que morreu há 10 anos num acidente de carro; e o sobrinho que criou como se fosse filho, José Henrique Meira, que morreu aos 68 anos há 4 anos de problemas de coração. "Eles fazem muita falta. Foi muito difícil, mas eu supero trabalhando e rezando."

Longevidade
Pelo menos uma vez por ano, na ocasião do aniversário de Maria, toda a família se reúne. Na comemoração dos 105 anos, em 26 de agosto, os familiares se espremeram no apartamento em que ela vive na Asa Sul. Maria Mesquita Meira só tem a agradecer. "Estou satisfeita, sou muito feliz… A minha família é toda unida", comemora com uma gostosa gargalhada. A receita da longevidade ela diz não saber, mas garante: "Deus que me carregou até aqui."

O longo tempo de vida foi assunto até mesmo no palanque do Senado Federal. Em 26 de agosto de 2009, seu sobrinho, Geraldo Mesquita Júnior, então senador pelo Acre, falou sobre o centenário da tia. "Permitam-me as senhoras e os senhores, peço até licença aos telespectadores da TV Senado, da Rádio Senado. Mas a minha querida tia Maria Mesquita Meira hoje completa 100 anos. Irmã do meu pai, mais velha do que ele dez anos. É uma velhinha linda, 100 anos de vida dedicada a uma grande família, uma grande mãe, uma grande tia, uma grande avó, uma grande bisavó. Eu aqui parabenizo a Maria Meira", disse em discurso registrado nos Anais do Senado Federal.

Segundo a família, ela mantém uma alimentação saudável. "Eu como tudo o que vier", diz a centenária. Frango assado, legumes cozidos e banana frita estão entre os alimentos preferidos. Há cerca de um ano, dona Maria teve que abrir mão de uma atividade diária: ler jornais e revistas. "Minha avó ficou com dificuldade para ler de perto. Agora, os filhos e netos sempre leem para ela. Também continua acompanhando tudo. O passatempo da tarde é assistir TV Câmara, TV Senado e canais de notícias, sempre querendo saber de política", conta a neta Suzana. Há um ano, Maria também começou a usar cadeira de rodas. Ela ainda consegue andar, se apoiada por alguém, mas a osteoporose a deixa frágil. Fora isso, o único problema de saúde é a pressão alta, mas, segundo Terezinha, o mal só se torna um problema quando ela fica preocupada querendo notícias dos netos.

Aviso: nada disso é empecilho para participar das eleições. Ela não se cansou ainda. Em 2018, dona Maria disse que estará na festa da democracia de novo.
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