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Crianças conhecem abrigos de idosos em Brasília e lançam biografias

Os lares escolhidos foram o Maria Madalena, o São Francisco e o de Taguatinga Sul

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postado em 13/12/2014 15:38

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press


Investigar a vida de uma pessoa beeeeem mais velha pode trazer lições que você nem imagina. Afinal, quem nunca ouviu dizer que os anciões são cheios de sabedoria? São mesmo. Para cada ano de vida, acumulam uma diversidade de saberes, experiências, alegrias e tristezas de um tempo bem diferente. Para não deixar esse conhecimento se perder, crianças da Escola de Brinquedos, de Taguatinga, começaram a visitar lares de velhinhos pelo Distrito Federal com uma importante missão: escrever sobre a vida de um idoso. Antes de redigir as histórias, os pequenos escritores fizeram duas entrevistas com o pessoal da terceira idade e descobriram um monte de coisas interessantes. Cada turma de 5º ano visitou um asilo diferente e cada estudante “adotou” um velhinho. Os lares escolhidos foram o Maria Madalena, o São Francisco e o de Taguatinga Sul.

A coleção de biografias do Lar Maria Madalena foi reunida no livro Os idosos e suas fascinantes histórias, lançado este mês. Na ocasião, as crianças do 5º ano B leram os textos e emocionaram os velhinhos. A garotada ainda cantou a música O que é, o que é?, de Gonzaguinha, em homenagem aos moradores do abrigo. A turminha trabalhou duro e preparou um lanche para deixar a tarde de histórias ainda mais gostosa. Para pagar a impressão dos livros e as comidinhas, os meninos fizeram um recreio solidário no colégio, em que venderam bolos, salgadinhos, refrigerante e pulseirinhas de elásticos coloridos — um verdadeiro trabalho de formiguinhas!

Lucas Vilela, 10 anos, conta que foi moleza fazer a entrevista:

— Foi muito fácil entrevistar o meu idoso porque ele é muito sincero!

Para Ana Carolina Alves Pires, 10, a experiência foi muito boa:

— Eu descobri que eles gostam de muitas coisas de que a gente gosta! A Dona Neide, por exemplo, adora desenhar e pintar. Eu também. Quando frequentava a escola, ela estudava muito, como eu.

Eduarda Rodrigues Martins, 10, aprendeu muito com a experiência:

— Foi bom escrever a história. Eles nos deram conselhos que a gente vai seguir por toda vida!

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press

Entrevistando Maria da Conceição
Dona Maria da Conceição, 74 anos, estava sentada sozinha na varanda quando Gabriel Elias, 10, a encontrou. Com jeitinho discreto, ele ouviu a história atentamente.

— Gabriel sentou perto de mim e foi perguntando, e eu fui respondendo até que ele falou: “agora, chega”. Fiquei emocionada vendo um menino desse tamanho tão inteligente, conta Dona Maria.

Durante a leitura do livro, a idosa soltou um riso gostoso quando ouviu, com as palavras de Gabriel, que ela gostava muito de comer galinha frita e cozida. Ela agradeceu o carinho:

— Falou a verdade. Achei lindo, viu? Essas crianças trouxeram amor, paz e sabedoria.

Dona Maria tem mesmo tanta coisa para contar que Gabriel conseguiria até fazer uma segunda edição do livro. O esforço não seria em vão:

— A entrevista foi muito boa, gostei muito. Aprendi muito sobre a vida, garante o menino.

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press

A história do Sr. Paulo Rodrigues
Victor Mateu, 10 anos, escreveu sobre a vida de Paulo Rodrigues, 72, um senhor que esbanja saúde — e sabe da vida de quase todos os outros moradores do Lar Maria Madalena.

— Paulo é muito legal. Ele revelou que viajou muito e, quando era estudante, a matéria preferida dele era português. Ele me falou para obedecer as leis do país e ser sempre um homem honesto.

Paulo garante que aprendeu muito com o entrevistador mirim:

— Não foi ele quem me adotou, eu o adotei. Gostei muito do livro, vou guardar para sempre.

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press

A descoberta de um artista
Alex de Oliveira Júnior, 10 anos, não poderia imaginar que encontraria, no Lar Maria Madalena, uma estrela do cinema nacional. Sem saber, o garoto escreveu a primeira biografia de Rajá de Aragão, roteirista, assistente de direção, diretor e ator de vários filmes populares a partir da década de 1970. Ele trabalhou com Mazzaropi (famoso ator e cineasta brasileiro) e adaptou para o cinema o romance O sertanejo, do grande escritor brasileiro José de Alencar. Autodidata, Rajá de Aragão fez radionovelas, trabalhou em jornal, escreveu dois livros e várias histórias em quadrinhos. Natural de Rio Pardo, cidadezinha do Rio Grande do Sul, ele viveu muitos anos na Boca do Lixo — região no centro velho de São Paulo conhecida pela produção de cinema a partir dos anos 1920 — e se mudou para Brasília em 2002, onde moram os dois filhos dele.

— Rajá é só um nome artístico. O nome dele de verdade é Ido Oraídes Dias da Costa, explica Alex.

Aos 76 anos, Seu Ido, como é conhecido onde vive, faz fisioterapia e se recupera de um acidente vascular cerebral (AVC) que paralisou o lado esquerdo do corpo. Ainda assim, o português e os feitos gloriosos do passado estão na ponta da língua.

— Eu escrevi dois livros, várias músicas e fiz muito cinema no Brasil.

O encontro entre o menino e o idoso foi cheio de emoção, mas Seu Ido seca as lágrimas rapidamente e logo dá dicas de como escrever bem para o garoto.

— Aprendi muito com o Seu Ido. Ele é um homem muito culto, revela Alex.

Além da inteligência, Rajá conserva o humor inconfundível e, na hora da foto, brinca que pode estragar a câmera por causa da feiura.

— Alex, você está falando de um sujeito que não pode morrer. Porque um homem que faz o que eu fiz não pode morrer, não!, finaliza o cineasta.

A primeira biografia de Rajá vai ajudar a fazer com que essa incrível história ainda seja contada muitas outras vezes.

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