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Correio Braziliense

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Talento a serviço dos índios

Músico de 12 anos será o primeiro jovem brasiliense a tocar para crianças da etnia pataxó hã hã hãe, no sul da Bahia. Além de se apresentar em uma escola, ele visitará as comunidades indígenas da região

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postado em 08/04/2015 10:47 / atualizado em 08/04/2015 10:51

Luiz Calcagno

Paula Rafiza
Pela primeira vez, um jovem músico brasiliense é convidado pelos líderes indígenas da etnia pataxó hã hã hãe para tocar para as crianças da tribo. A viagem de Gabriel Piernes, 12 anos, para a aldeia Barra Velha, a 50km de Porto Seguro (BA), está marcada para 9 de abril, em comemoração ao Dia do Índio, celebrado em 19 de abril. A intenção é promover o intercâmbio cultural. Ele se apresentará em uma escola e visitará comunidades. Além disso, Gabriel conversará com os estudantes e ouvirá as necessidades locais. Ele gravará as entrevistas e, posteriormente, quer entregá-las à presidente da República, Dilma Rousseff.

O garoto deixará a capital ciente de algumas dificuldades da região, como falta de postos de saúde e atraso no processo de reintegração de posse das terras dos índios (leia Para saber mais). No momento, o desafio do menino e da mãe, a publicitária Pethy Mattos, é levantar dinheiro para as passagens de ambos (veja Ajude).

O superintendente de Assuntos Indígenas de Porto Seguro, Ibui Pataxó, encarregou-se da parte burocrática da viagem. As crianças da tribo preparam “um dia de índio” para o jovem músico. Além de passear entre as aldeias, ele participará de brincadeiras típicas, como trilhas pela mata e pesca. Ao voltar, participará do Acampamento Terra Livre, uma manifestação com diversos povos indígenas na Esplanada dos Ministérios.

O adolescente ganhou a atenção das lideranças indígenas não apenas pela facilidade com que aprende e toca piano ou teclado, mas por se apresentar para crianças com câncer e para moradores de rua. Gabriel entrou no mundo musical aos 4 anos, com uma flauta doce e, um ano depois, conseguia tocar trechos da 9ª Sinfonia, de Beethoven. Aos 6, depois de algumas aulas, tocou a mesma canção no teclado, sem dificuldades. “A viagem é um grande privilégio. Sou uma pessoa de outra cultura que vai entrar em uma aldeia e conhecer o mundo deles”, afirma.

Para o repertório, o músico preparou canções da MPB, entre elas, Brasileirinho, e canções de que gosta, como da banda britânica Coldplay. “Escolhi coisas de que gosto, que os meus colegas pedem na escola quando me apresento. Tenho certeza de que eles não conhecem, nunca ouviram. Vai ser uma coisa diferente, tanto para mim quanto para eles. Os índios estão aqui (no Brasil) muito antes de nós. O mundo inteiro vem conhecer esses povos, essas culturas. Nós, no entanto, não damos o devido valor.”

Além da facilidade de aprender música e outras atividades, como xadrez, Gabriel gosta de jogar futebol, de cozinhar com a mãe e de sair com os amigos no sábado à noite. Mas, diante do piano ou do teclado, ele se transforma. O olhar fica mais intenso e os dedos se revezam com habilidade entre as teclas. Questionado sobre o que sente ao tocar, ele diz não saber. A mãe intervém e pergunta, diretamente, se é “alegria” ou “tristeza”: “Sinto tudo de uma vez”.

Pethy não esconde o orgulho. “Com 12 anos, ele é um menino inconformado. Já tocou em mobilização para ajudar o Haiti e para moradores de rua. Por isso, recebemos esse convite. Ele vai tocar para uma aldeia, e as crianças vão dançar e tocar para ele. A minha forma de demonstrar orgulho é dando o meu apoio”, conta.

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