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Diálogo com o HIV

Estudante da UnB mistura ficção e realidade para conscientizar os jovens por meio da arte

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postado em 28/07/2015 12:09 / atualizado em 28/07/2015 12:10

Renato Oliveira
“O problema é quando essa questão de sigilo é perpetuada, lemos logo no início na declaração dos direitos das pessoas vivendo com HIV ou Aids: ‘direito ao sigilo sobre a sua condição sorológica’. Mas ninguém se  lembrou de garantir também o direito à expressão. Freud já dizia que falar das coisas faz as coisas ficarem mais fáceis. Então eu não preciso guardar aquilo dentro de mim e remoer”. E, assim, inspirado pelo princípio de sensibilizar os jovens por intermédio da sua própria história, o ator e diretor Gabriel Estrela escreveu a peça Boa sorte e criou o projeto homônimo, na tentativa de abrir diálogo com o maior número possível de pessoas. E agora o projeto vai para a rua.

Gabriel, que descobriu estar com HIV há 5 anos, afirma que somente agora compreendeu plenamente o que é ser uma pessoa vivendo com o vírus. Depois do entendimento, veio a certeza de que o melhor seria dividir. Ele acredita que o pior que podemos fazer nos tempos atuais é deixar uma situação estagnada, sem possibilitar mudanças. O texto do espetáculo traz , em parte, a experiência do ator e se completa com um pouco de ficção, criada pelo jovem que estuda desde 2010 as possibilidades, vivências e transformações que surgem com a sorologia positiva.

“O direito ao sigilo ainda é importantíssimo, já que muita gente sofre com o preconceito ainda forte. A orientação que recebemos, a princípio, é de manter segredo, para nos proteger de respostas negativas em um momento que já nos deixa fragilizados”, reconhece. Ainda assim, incentivado pela forte resposta artística que surgiu no início da epidemia, nos anos de 1970, criou o projeto, baseado em ações sociais e artísticas. “O que eu espero conseguir é sensibilizar o maior número de pessoas possível”, conta o ator.

Segundo relatório da Unaids, divulgado no último dia 14, o número de infecções no mundo diminuiu 35,5% entre 2000 e 2014. No entanto, no Brasil, esse número cresceu no mesmo período, mostrando a importância de continuar e renovar as ações de sensibilização e conscientização dos jovens. Engajado para reverter esse quadro, o projeto Boa sorte fez uma parceria com a ONG Vida positiva, que nasceu em 2006 com o intuito de ajudar os portadores do vírus a superarem o preconceito. Vicky Tavares, fundadora da ONG, afirma que o teatro é um agente transformador e acredita que inciativas como essa podem ajudar a disseminar informações de maneira efetiva.

Controle social
Diego Callisto é ativista na causa e se descobriu positivo em 2007. O mineiro de Juiz de Fora trabalha para desconstruir preconceitos e foi um dos responsáveis pela decisão que deu início ao projeto Boa sorte. “Eu conheci o Gabriel em um curso de formação de jovens lideranças pertencentes às populações-chave para o controle social no âmbito do HIV/Aids. Procuro sempre passar um pouco das minhas vivências e experiências para as pessoas que conheço e acolho nesses cursos”, afirma.

Em relação ao projeto, Diego acredita que toda forma de arte é fundamental para trabalhar a instrumentalização e o emponderamento das pessoas em relação a questões que falam sobre o HIV. Callisto afirma ainda que a arte é um ótimo condutor de informação e que é facilmente absorvida e replicada. “Tenho na arte um aliado estratégico para combater a discriminação e acredito que o Boa sorte se soma a esse contexto, buscando trabalhar a perspectiva do HIV numa linguagem sensível, inspiradora e que relata, acima de tudo, a vivência com o vírus”, declara.

O autor do projeto acredita que a peça seja uma boa iniciativa para colocar o assunto em pauta novamente e ajudar a conscientizar os jovens de uma geração que não acompanhou o crescimento da epidemia. “Lá no início da epidemia, a arte foi muito utilizada para falar a respeito e eu quero resgatar isso. Eu fico pensando em um grupo de amigos que veja a peça e se sensibilize para ir fazer um exame depois. Eu fiz questão de que a página levasse o nome de Projeto para mostrar que as ações se expandem além da peça”, ressalta Gabriel.

Projeto Boa Sorte
www.facebook.com/projetoboasorte

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