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Correio Braziliense

Brasiliense de 14 anos publica livro de poemas por conta própria

Inspirada pela poetisa Julianna Motter e incentivada pela prima mais velha, Luiza Midlej vendeu por volta de 200 exemplares de Circuncisfláutica

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postado em 05/10/2015 19:14 / atualizado em 05/10/2015 19:33

Circuncisfláutica é a palavra difícil, com cara de inventada, que Luiza Midlej, 14 anos, escolheu para batizar seu primeiro livro. “Tenho mania de pesquisar palavras estranhas. Quando achei essa, vi que era perfeita para me descrever”, justifica. O dicionário entrega os significados: uma pessoa que aparenta ter muitas qualidades, mas também pode ser pretensiosa. Algo que não consegue se conhecer nem compreender, ou ainda, alguma coisa simplesmente triste.

A adolescente começou a escrever aos 13 anos, usando cadernos com capa simples, para não chamar atenção, porque “quando é chamativo muita gente pede para ler”. Em agosto, Luiza transformou os rascunhos em livro pelo site Clube de Autores. A plataforma permite que escritores enviem livros e definam o preço a ser pago. Os volumes são impressos de acordo os pedidos de compra. Desde então, por volta de 200 exemplares de Circuncisfláutica foram vendidos.
Luiza Midlej

Confira a entrevista com Luiza Midlej para o Eu, Estudante:

Você começou a escrever aos 13 anos. De onde surgiu esse impulso?
Adolescência é, para todo mundo, um período muito conturbado, com muitas mudanças. Não tem uma pessoa de 14 anos que não carrega uma angústia no peito. Então brotou em mim uma vontade de escrever, foi uma coisa muito natural. Sempre fui uma pessoa que se questionava demais. Arrumei um jeito de desabafar no papel. Me angustiava com questões como “ Por que estou aqui? Qual é minha função? Qual é minha missão?”. Escrever não resolve a pergunta, mas é uma forma de botar para fora.

Quando você decidiu publicar seus poemas?
Minha prima, que mora no Rio de Janeiro e tem 17 anos, veio para Brasília, e eu sempre prometi que deixaria ela ler meus cadernos. Ela achou sensacional e descobri o site do Clube de Autores na mesma semana. Selecionei os poemas com a ajuda da minha prima, ela marcava os que mais gostava, e depois acrescentei outros.

Quais são as suas influências?
Tomei coragem de publicar depois de ter ido num sarau da [poetisa brasiliense] Juliana Motter, que é uma das minhas maiores inspirações. Acho que ela consegue, com a poesia, expor os sentimentos mais puros de dentro dela. Ela leu o livro e disse que gostou muito, mas ainda não tivemos oportunidade de conversar pessoalmente sobre o assunto. Também gosto do Paulo Leminski e do Fernando Pessoa.

De onde surge a inspiração para escrever?
Me inspiro por situações pessoais, uma atitude do outro, meu sentimento pelo outro. Amores, desilusões, angústias. Nunca escrevi com o intuito de publicar o livro, então, quando publiquei, acho que pensei mais nos outros do que em mim. Imaginei que poderia ter alguém da minha idade que passasse pela mesma situação que eu, então por que não compartilhar?

Como é o processo de escrever para você? Você tem o costume de revisar várias vezes o material?
Quando escrevo, é muito rápido e flui. Não reviso o texto de jeito nenhum, porque atrapalha. Quando você tem algo para falar, você simplesmente cospe, parece que a mão faz o movimento sozinha. Sempre escrevi no caderno, não consigo digitar no computador porque preciso do toque. A criação está muito no contato da mão para o lápis, para o papel. É um ciclo vicioso.
Luiza Midlej

Sua família apoiou a publicação do livro?
Eu nunca mostrei meus textos para ninguém antes da minha prima, foi sempre uma coisa muito pessoal. Então mostrei para a minha mãe na semana em que o livro ia ser publicado. Ela teve uma grande surpresa e só chorava, ficou muito emocionada. Minha tia também estava em casa, então foi um grande chororô aqui. Meu pai mora fora, então ficou mais surpreso ainda, porque pelo menos minha mãe sempre me via escrevendo no caderninho.

Você também gosta de fotografia, né? Como escolheu a imagem da capa do livro?
Eu tiro foto de tudo: de prato sujo, do céu, do chão. Meus amigos até zombam da minha cara. Eu gosto do abstrato, das coisas que ninguém enxerga, detalhes, sombras. Essa foto foi a Pillar Peres, minha melhor amiga, quem tirou. Já deve ter um ano, mais ou menos. Era uma foto comum, e nela só falta estar escrito na minha testa o que eu escondo. Gosto muito do Sebastião Salgado, por causa do preto e branco. Também gosto muito de quadros, como os da Frida Kahlo, do Picasso, do Van Gogh. A arte inspira minha fotografia.

Como tem sido a reação dos seus colegas na escola?
Para as pessoas da minha escola é uma surpresa muito grande. Muita gente não leva a sério no início e quando pega o livro, se surpreende. Alguns falam que admiram a minha coragem. Tenho tido um retorno positivo.

Você pensa em tocar a carreira de escritora ou pretende seguir outra profissão?

Eu nunca tive o desejo de ser escritora, mas vou deixar a vida me levar, não sei para onde. Nunca pensei que fosse publicar um livro e publiquei. Não tenho definido o que eu quero ser. Tenho ideias de ir para o ramo da psicologia, gosto muito de letras, de direito, mas não tenho nenhum plano. Planejo escrever outro livro, já tenho alguns escritos, mas ainda não tem uma data certa para publicar.

Você acha que os adolescentes não são levados a sério?
Isso acontece sim, mas está prestes a ser mudado. Os adolescentes estão ganhando cada vez mais força, mais voz, mais protagonismo. Nós somos simples, sinceros, mas chamam a gente de chato por causa das perguntas que fazemos. Não queremos ser chatos, queremos entender porque estamos aqui. A gente tem muita criatividade, sinceridade, outra visão do mundo para oferecer. Eu sinto muita falta de gente que entenda o que é ser adolescente e também de mais adolescentes indo para a poesia. Tenho muitos amigos que escrevem coisas bonitas, mas que se escondem, porque acham que não são bons o suficiente. Nós, adolescentes, não somos muito bem representados. Eu tenho buscado mais espaço.


Você pode comprar o livro no site e conferir a página de Luiza Midlej no Facebook.