A escola que ficou somente no papel

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postado em 27/08/2012 12:41 / atualizado em 27/08/2012 18:27

Renata Mariz

No país que escalou posições em termos econômicos, tirou milhares da pobreza extrema e conseguiu solidificar suas instituições democráticas, a constatação feita 80 anos atrás, noManifesto dos Pioneiros da Educação Nova, continua atual.CNa hierarquia dos problemas nacionais,nenhum sobreleva em importância e gravidade ao da educação, começava o documento histórico, marco do movimento brasileiro que definiu, em1932,as bases para a construção deumaescola pública de qualidade.Oito décadas depois da carta aberta assinada por notáveis como Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo e Cecília Meireles, as propostas lançadas, até hoje consideradas fundamentais para uma reforma educacional de verdade,tiveram avanços tímidos. Embora o acesso à educação tenha melhorado, com 98% das crianças de 7 a 14 anos matriculadas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a qualidade do ensino não evoluiu no mesmo ritmo. E temas defendidos ainda pelos pensadores da Educação Nova como escola integral, valorização do professor e instalações de qualidade para a aprendizagemsão reavivados de tempos em tempos pelos governos e pela sociedade. O manifesto trouxe uma ideia de planejamento absolutamente inédita naquele momento da história brasileira.Mas esse grande objetivo foi derrotado.Hoje, vivemos de improviso no campo da educação, lamenta Romualdo Portela de Oliveira, professor de política educacional na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, a Cúnica vitória nesses 80 anos é que os temas continuam em discussão. O movimento encabeçado pelos pensadores, porém, rendeu frutos nos campos político, ideológico e jurídico. É de 1934, portanto na efervescência da mobilização, o primeiro dispositivo constitucional determinando que a educação é direito de todos, devendo ser garantida pela família e pelo poder público. A década de 1950 mostrou-se fértilemtermos de experiências inovadoras, como o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, inaugurado por Anísio Teixeira emSalvador, que unia formação acadêmica e lúdica. No período, surge também o método de alfabetização de Paulo Freire, transformado em programa nacional em 1962.O golpe militar bane muito dos modelos considerados Csubversivos e fazumaexpansão do ensino com pouca qualidade.Com a reabertura política,o tema volta e permanece no topo da Chierarquia dos problemas nacionais, como disseramhá 80 anos. Instituições de educação em tempo integral, defendidas pelo educador Anísio Teixeira como Cescolas de formação de hábitos de vida desde a primeira metade do século passado, ainda são uma raridade. Apenas 5% dos alunos matriculados na rede pública de ensino fundamental e médio no Brasil têm acesso a horas extras na formação. Isso significa que, para cada estudante inserido no sistema integral, há 20 fora dele. A divisão ocorre entre colegas de uma mesma escola. Caso de Jhonata Soares deOliveira, que está no 3º ano do ensino fundamental em um colégio de São Sebastião, no Distrito Federal. Ele faz parte dos 130 alunos não atendidos com a educação integral no colégio, que oferece a formação extra a cerca de 140, por meio do programaMais Educação, do governo federal. Queria ficar para receber o almoço e depois molhar a horta, fazer judô e brincarcomos joguinhos, diz o menino de 8 anos. A vice-diretora da escola, Cristina Guimarães, conta dos planos de expansão. Há uns três anos, já temos o projeto de ampliação da estrutura aprovado pela área de arquitetura da Secretaria de Educação, para fazermos uma sala multiúso, pois hoje temos de improvisar. Só assim poderemos absorver mais alunos, diz ela. Os cerca de R$ 300 recebidos por mês pela escola para atender os estudantes, por meio do programa Mais Educação, ajudam, mas não suprem todas as demandas. Os meninos almoçam dentro da sala de aula. Como os monitores recebem uma ajuda de custo, há rotatividade. As dificuldades são muitas. Em compensação, o desenvolvimento dos alunos incluídos na educação integral é notável diz. Larissa Dias França, de 8 anos, é a prova disso. Estou desde o ano passado no Mais Educação e minhas notas melhoraram. Já sei muitos golpes no judô e fazer horta, diz a menina do 3º ano. Para o educador Walter Garcia, os exemplos internacionais são suficientes para mostrar a efetividade da educação em tempo integral. Coreia, Chile e até o próprio Paraguai são países que investiram em mais horas na escola, além de outras abordagens. Só que educação boa custa caro, diz. Pelas contas do governo federal, para atingir a meta 6 do Plano Nacional de Educação, prestes a ser votado na Câmara, de ofertar o tempo integral em 50% das escolas de ensino fundamental e médio até 2020, seria necessário adicionar R$ 369,75 nos valores repassados por aluno ao ano. O impacto seria de R$ 3 bilhões. A Campanha Nacional pelo Direito à Educação,uma articulação de organizações da sociedade civil, contesta o valor. Segundo estimativa do grupo, o adicional seria de R$ 2.396,44. Comisso, a medida custaria em torno de R$ 23 bilhões. Comesses valores trabalhados na proposta do MEC, é impossível.Mesmo com o investimento de 10% do Produto Interno Bruto (PIB), isso só contemplará 25% das matrículas, critica o cientista político. Das 28 escolas parque,que receberiam os alunos no contraturno da jornada para atividades físicas e artísticas, previstas no Plano de Construções Escolares de Brasília, somente cinco saíramdo papel. Já na década de 1960, omodelo desenhado por Anísio Teixeira que deveria servir de referência para o Brasil,emtermos de escola em tempo integral, foi desvirtuado.Os estudantes passavam apenas duas horas diárias, devido à grande demanda. Hoje, as escolas parque atendem alunos dentro da grade escolar, propiciando apena sum dia nas emanade atendimento extra. Mas a capital do país não foi a única tentativa de colocar em funcionamento o sistema de educação integral.Pelas mãos do antropólogo Darcy Ribeiro, o Rio de Janeiro recebeu os Centros Integrados de Educação Pública, os Cieps, que contavam com estrutura de primeiro mundo.Hoje tornaramse escolas comuns. Inspirado nos Cieps, o então presidente Fernando Collor de Mello implementou os Centros Integrados de Atendimento à Criança, chamados de Ciacs, pelo país. Mudam-se as siglas,maso destino é o mesmo.Os Ciacs também se desvirtuaram.A falta de continuidade, de vontade política e até erros de arquitetura paralisaram esses projetos.Mas não há dúvida de que ter educação básica emtempo integral é o futuro da educação.Além disso,aescola integral também protege, pois tira o estudante do risco de ser cooptado pelo crime,darua,diz Paulo Bareicha, mestre emeducação e professor da Universidade de Brasília.(RM)
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