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Correio Braziliense

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Ameaça na sala de aula

Sitiadas pelo tráfico

Professores, alunos e servidores descrevem ao Correio a perigosa rotina das instituições de ensino que ficam nos arredores dos pontos de venda de drogas e também das cracolândias. Há relatos de agressões, histórias de vícios e registros de assassinatos de pais e estudantes

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postado em 03/09/2012 11:29 / atualizado em 03/09/2012 11:35

  Uma simpática escola pública de Ceilândia tornou-se símbolo da resistência. Construída há duas décadas no coração da maior e mais populosa cidade do Distrito Federal, a unidade é motivo de orgulho para a comunidade. Os desenhos preservados nas paredes e a limpeza das salas indicam um trabalho eficaz dos professores. Mas é um choque de contraste com a realidade que se vê do outro lado dos portões. A poucos metros dali, segue ativa a maior cracolândia do DF, na qual viciados de todas as idades consomem pedras em galerias subterrâneas. A situação degradante deixou o lugar conhecido como “bueiro do crack”.

Por todo o DF, há círculos de tráfico ao redor das instituições de ensino. Às vezes, como ocorre na escola de Ceilândia, as imediações das escolas ficam tomadas por usuários. Pouco importa se é noite ou dia. Integrantes desse submundo são figuras conhecidas mesmo em frente aos colégios que desenvolvem trabalhos bem-sucedidos de prevenção às drogas ou com baixo número de adolescentes envolvidos nessa situação. No Recanto das Emas, pessoas ligadas a grupos de criminosos vendem entorpecentes desde a manhã. Por volta das 7h, quando começa a movimentação de servidores e alunos, é possível observar alguns jovens sentados nos bancos da quadra esportiva. Segundo professores, são traficantes com uma clientela fiel de estudantes.

Na mesma cidade, uma diretora de outra instituição instalou 16 câmeras para vigiar o local. Mas o aparato de vigilância não intimidou os bandidos que repassam drogas. O mais atuante deles é matriculado no ensino fundamental da unidade. Por ser deficiente físico, conta com uma rede de alunos responsável por distribuir maconha dentro e fora do colégio. Um funcionário da escola tentou impedir a ação do traficante, mas recuou após receber ameaças. “Nós não temos armas para enfrentar um criminoso desses. Ele não frequenta as aulas, inibe outros alunos e propaga o mal dentro da escola. Mesmo com esse histórico, não temos coragem de pedir a transferência dele, pois temos medo de ele não gostar e querer se vingar”, diz o servidor.

Os relatos dos docentes impressionam. A diretora lembra que três alunos foram assassinados no ano passado. Um deles morreu com 42 facadas. O garoto de 14 anos tinha várias passagens por centros socioeducativos e acumulou uma dívida com um perigoso traficante da área. Como não pagou, acabou assassinado. O crime ocorreu em plena luz do dia e a poucos metros da escola. Um colega tentou vingar o amigo e enfrentou os donos da boca de fumo. Foi executado a tiros.

A rotina de enterrar alunos não cessou. Poucos dias depois, a vítima foi uma menina de 16 anos, assassinada com um disparo na cabeça dentro de um bar. Considerada uma das adolescentes mais bonitas da escola, o crime causou clamor na região. “Ela era uma moça que chamava a atenção pela beleza. Era meiga e estudiosa, mas se perdeu quando começou a usar drogas”, relembra a professora de história.

Traficantes também atuam com liberdade nas redondezas de uma grande escola no centro de Taguatinga. No período noturno, estudantes a caminho da aula se deparam com imagens degradantes de moradores de rua consumindo pedras de crack nas marquises de lojas situadas em volta da instituição.

Apedrejada
Um episódio singular retrata o quão pouco os bandidos temem as autoridades de segurança. Em maio deste ano, uma funcionária da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) dava palestra em escola localizada em uma região pobre, vizinha a um dos bairros mais nobres do DF. Ela falava sobre as consequências do uso de entorpecentes e alertava os alunos a respeito das trapaças de traficantes. A servidora usava um microfone, para que todos conseguissem ouvi-la. Inclusive criminosos reunidos em uma praça ao lado do colégio.

“De repente, começaram a jogar pedras na escola. Parecia um tiroteio. Gritavam para que a palestrante calasse a boca. Por sorte, ninguém saiu ferido, mas o evento foi interrompido e tivemos que chamar a polícia para escoltar a nossa convidada na saída”, conta a orientadora pedagógica da unidade. A especialista retomou a conversa com as crianças no período da tarde. Mas, para isso, policiais militares tiveram que cercar a escola a fim de garantir a segurança.

Reféns do medo
Moradores e trabalhadores das proximidades se acostumaram com a presença dos traficantes. A maioria dos comerciantes se resignou a um pacto de silêncio. Ninguém enfrenta ou denuncia as práticas criminosas. “Evita retaliações”, justificam. Em uma mercearia, a dona do estabelecimento passou alguns sustos. Certa vez, um adolescente jogou uma arma dentro da loja. “Me pediu para ‘guardar’ até a polícia passar. O que eu ia fazer? Depois, ele buscou e eu disse, numa boa, que o que ele fazia estava errado. Disse que ele precisava de mais Deus no coração”, conta.

A história dessa escola é intrinsecamente relacionada aos dramas do vício. Só em 2010, bandidos assassinaram três mães de alunos, sempre à luz do dia. Uma porque denunciou um traficante com quem tinha tido um relacionamento. As outras por não pagarem pelo que consumiram. Todas foram mortas com tiros na cabeça. Depois disso, o filho de um funcionário do colégio foi executado, também por ligações com o narcotráfico. O mesmo motivo tirou a vida de um ex-aluno, assassinado a poucos metros da instituição. “Ninguém quer ficar nessa escola. Trabalhei lá um ano. Quem fica mais tempo é um herói”, conta uma professora.

DEPOIMENTOS

“A droga está rolando solta”
“A droga está rolando solta perto de escolas em Planaltina. O diretor do colégio em que trabalho está ciente, os professores estão cobrando, mas nenhuma providência está sendo tomada, pelo que se vê. Os professores estão em situação de risco e com medo de trabalhar. Por favor, socorra-nos.”
Professora de um centro de ensino médio em Planaltina

Maconha em plena luz do dia
“Ocorre a prática de uso de drogas em frente ao centro de ensino fundamental em que trabalho todos os dias. Por volta das 11 horas da manhã, é só passar por lá e conferir crianças, adolescentes e adultos fazendo seus cigarros de maconha em plena luz do dia e sem nenhum pudor.”
Professor de uma escola no Paranoá


Nós não temos armas para enfrentar um criminoso desses.Ele não frequenta as aulas, inibe outros alunos e propaga o mal dentro da escola”
Funcionário de uma escola no Recanto das Emas, falando sobre um aluno que trafica drogas dentro da instituição de ensino

 

 

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