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Ameaça na sala de aula

A droga sempre dá seus sinais

Especialistas ouvidos pelo Correio são unânimes em dizer que os jovens dão pistas de que começaram a consumir substâncias tóxicas com frequência. Os pais devem ficar atentos a sintomas como irritabilidade, ansiedade, hostilidade e depressão. Procurar ajuda é fundamental

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postado em 05/09/2012 08:00 / atualizado em 05/09/2012 16:14

Mariana Laboissière

Aos 12 anos, o passatempo predileto de Matheus*, um menino de classe média de Brasília, era jogar videogame. Toda semana, ele se reunia com um grupo de amigos na casa da mãe para duelar com vilões dos desenhos animados. O garoto também gostava de skate. Chegou a disputar diversos campeonatos na modalidade. A mãe coruja, a funcionária pública Fátima*, 53, o acompanhava em tudo. A ligação dos dois era mais forte ainda quando se trava do grupo de escoteiros. Ela coordenava uma alcateia, enquanto ele dava os primeiros passos como lobinho. De repente, Matheus começou a se desgarrar da rotina para frequentar as ruas. Se afastou dos velhos amigos e firmou novas amizades, estranhas para a mãe. O jeito amoroso do caçula de dois filhos deu lugar a agressividade. Os livros passaram a ser exceção para o menino. As algemas, uma regra. O garoto havia se viciado em drogas.

“Durante a adolescência, busquei meu filho mais de 20 vezes na delegacia por conta do uso de drogas. Convivi com o problema por mais de uma década”, diz Fátima. Segundo ela, ainda moleque, o filho foi seduzido pela maconha. Depois, vieram a merla e o crack. “Percebi que ele estava diferente quando ele começou a perder o interesse por tudo o que gostava. O primo era o melhor amigo e deixou de ser num estalo. Depois disso, o reflexo foi na escola. Ele faltava, repetiu de ano várias vezes, até chegar ao ponto de eu pagar um curso de línguas durante seis meses e ele não comparecer a um dia de aula”, lembra. A mãe afirma ter buscado ajuda no Conselho Tutelar, em grupos de psicoterapias e em clínicas especializadas, mas nenhum deles foi suficiente para livrar Matheus das drogas.

“Matheus se envolveu com uma traficante e foi preso durante uma batida policial ao apartamento dela. Falaram que se tratava de uma quadrilha porque eles eram casados”, conta Fátima. “Antes disso, eu tentei muitas coisas, mas nem o governo nem ninguém me ajudaram. Fui atrás de tudo, mas não consegui interná-lo. Cogitei em vender um apartamento, mas acabou não dando certo. Em todos os lugares, me falavam a mesma coisa: ele tem que querer. Mas a verdade é que ele nunca quis. Até que foi bom por um lado, pelo menos na cadeia ele não usa droga”, acredita a mãe. Segundo ela, Matheus, que hoje tem 26 anos, não consome tóxicos há um ano e meio. Fátima reclama da falta de recursos para o tratamento de dependentes químicos. Segundo ela, as clínicas de internação costumam ser muito caras e as comunidades terapêuticas ligadas a segmentos religiosos exigem que o paciente siga aquela doutrina.

Para a professora do curso de serviços sociais da Universidade Católica de Brasília (UCB) Karina Aparecida Figueiredo, no Distrito Federal há poucos serviços no âmbito das políticas públicas. “Não temos nenhuma entidade de internação pública, além disso, há pouco investimento em prevenção. Temos iniciativas, claro, mas são pequenas diante da complexidade da questão”, opina.

Atenção
Comportamentos como o de Matheus são comuns em dependentes químicos. A opinião é da psiquiatra e professora voluntária do Laboratório de Psiquiatria da Universidade de Brasília (UnB) Maria Célia Vitor de Sousa Brangioni. Segundo ela, a primeira coisa que os pais devem fazer ao desconfiar do problema é ficarem atentos às alterações na maneira de agir dos filhos. Entre os sinais estão ansiedade, irritabilidade, hostilidade e depressão. Antes disso, ressalta a especialista, é importante entender qual relação aquela pessoa faz com a droga, pois as abordagens são diferentes. “Há o uso recreativo, abusivo e dependente. Jovens e adolescentes, por exemplo, fazem uso recreativo.”

A professora esclarece ainda que cada droga tem sua particularidade, por isso geram reações diferentes no usuário. “A maconha é uma substância alucinógena. Nesse caso, a pessoa fica mais lenta, fala arrastado, demonstra apatia e desinteresse. Ela provoca alterações de apetite. Num momento, a pessoa não come nada e depois ela sente muita fome”, relata. “A cocaína, por sua vez, é um psicoestimulante. Ela causa irritabilidade, inquietação, ansiedade. Os pais podem até não saber que droga o filho está usando, mas a mudança de comportamento é evidente”, ensina. Maria Célia destaca também os reflexos no rendimento escolar e na relação com os pais. Segundo ela, o usuário sai mais vezes de casa, passa a ser hostil sem motivo aparente e fica muito tempo recluso.

Para a mãe de Matheus, a parte mais difícil na luta contra as drogas é a marginalização da família. Ela ficou meses sem sair de casa temendo o olhar dos vizinhos. “As pessoas encaram a dependência como um crime, e não como uma doença, o que na verdade ela é. Mas se meu filho se tornou um marginal, foi porque a sociedade fez dele um marginal. É muito triste. E eu criei meus dois filhos sozinha. Não tinha com quem me agarrar”, diz Fátima. Dentro de um ano e meio, Matheus sairá da prisão, mas Fátima não sabe o que pensar. “Há dias em que acho que ele vai ser solto e fazer faculdade, se tornar um profissional, como ele vem dizendo que vai fazer. Há outros em que imagino que ele pode não conseguir emprego por ter passagem pela polícia. Então, fico dividida. Mesmo assim, ainda peço a Deus para me dar forças. Tento acreditar que ele tem salvação.”

Os sintomas

Como os pais podem identificar se seus filhos estão envolvidos com drogas

» Irritabilidade
» Agressividade
» Apatia
» Depressão
» Hostilidade
» Isolamento no convívio com a família
» Constantes saídas de casa
» Mudanças bruscas de humor

Depoimento

Da curiosidade ao uso contínuo
“Tudo começou por pura curiosidade. Fui para casa de um amigo e lá experimentei. No dia seguinte, já passei a comprar drogas e não parei mais. Minha família só desconfiou quando um dia meu irmão experimentou e acabou no hospital com uma crise de asma. Mesmo assim, eu fazia de tudo para esconder. Muitas vezes neguei que usava, outras, quando começaram a me monitorar com exames, pedi para amigos fazerem testes de urina no meu lugar”

Geraldo Henrique Mundim Oliveira, 21 anos, consumiu drogas dos 12 aos 20 anos, é ex-viciado e hoje comanda uma clínica de recuperação

Combate ampliado nas escolas públicas
O governador Agnelo Queiroz afirmou que o trabalho de combate à venda e ao consumo de drogas dentro das escolas públicas tem recebido atenção especial. “Precisamos de uma política de conscientização, integrada ao trabalho de investigação feito pela polícia, que, nos casos de tráfico dentro das escolas, deve ser especializado. Tráfico em escola é uma situação perigosa, e temos trabalhado com êxito contra esses crimes”, afirmou, durante comemoração ao primeiro ano de lançamento do Plano de Enfrentamento ao Crack e outras Drogas. Segundo Agnelo, estão em ação 32 novos setores da Polícia Civil que cuidam especialmente da investigação contra traficantes que atuam próximo às instituições de ensino.

 

 

 

 

 

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