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Correio Braziliense

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Intervenções artísticas colaboram para o aprendizado de estudantes

Projeto inspirado no Profeta Gentileza recebeu 1,5 mil alunos da rede pública, que trocaram a rotina da sala de aula por um passeio diferente nas cidades-satélite

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postado em 17/09/2012 12:50

Obedeça sua intuição e respeite quem você ama! Essas são duas recomendações incomuns que surgem espalhadas em placas de trânsito por cidades-satélite do Distrito Federal. Quem passa por elas enquanto anda pelas ruas, geralmente não percebe a diferença para as tantas outras praticamente idênticas em cor e tamanho que pedem ao motorista que obedeça a velocidade ou pare na faixa de pedestre.

Mais de 1,5 mil estudantes da rede pública de ensino, no entanto, já tiveram a oportunidade de participar de um trajeto guiado que exercita o olhar para obras espalhadas pela rua e mostra, entre outras intervenções, as 27 placas que modificam, de forma lúdica e dinâmica a paisagem local.

Conhecido como Mapa Gentil, o projeto leva estudantes do Centro de Ensino Médio Escola Industrial de Taguatinga (Cemeit), de escolas públicas de ensino fundamental e básico, além de interessados da comunidade local, para conhecerem não apenas as placas, mas um conjunto de 97 intervenções urbanas — entre pinturas, grafites, stencils e outros tipos de arte —, que discutem o conceito da cortesia e transformam lugares comuns em obras ao ar livre. As obras estão espalhadas nas cidades de Taguatinga, Samambaia, Ceilândia e Riacho Fundo

O projeto é inspirado no profeta Gentileza, personagem muito conhecido na cidade do Rio de Janeiro, que escrevia sobre o amor e distribuía frases e flores aos passantes. “Decidimos fazer como ele e interagir com o espaço de acordo com o que ele dizia. Seja na crítica ao capitalismo, seja na vantagem do bom convívio e da gentileza”, explica Janaína André, diretora do projeto, que teve início em março deste ano.

Roteiro Cultural

Todos os dias saem grupos para visitar as obras em um tour monitorado por mediamores — nome inspirado no profeta Gentileza, que substitui o termo tradicional mediador. De segunda a sexta, o passeio é oferecido a turmas de alunos do Cemeit e, nos fins de semana, a jornada é aberta ao público. Quase 2 mil pessoas conheceram as produções e a expectativa é de que 4 mil apreciem as intervenções da pequena viagem, que é gratuita e acontece em vans do projeto.

Os pontos de montagem das intervenções foram escolhidos de modo a contemplar o caminho que grande parte dos alunos faz no trajeto de ida à escola. “De acordo com os locais das obras, criamos um roteiro cultural de visitas que mostra os espaços modificados e compartilha não apenas informações técnicas, mas parte da história da cidade-satélite, características da identidade local e ajuda a mudar o olhar de cada um para o espaço que nos rodeia”, explica Janaína.

“O Mapa Gentil modifica nosso olhar para a cidade. Ele ensina a enxergar não só as obras, mas nossa vida de uma forma diferente”, acredita Lana Guimarães, coordenadora do programa educativo do projeto. “Educar é também fazer parte da formação pessoal dos alunos, e com o [projeto] Gentileza a gente faz isso de forma dinâmica, contemporânea, lúdica e prática”, analisa, contente, a coordenadora, que confirma a boa resposta da comunidade ao projeto. “O Mapa Gentil revitaliza locais que vivemos e isso aproxima a população que não entra em galerias ou museus da arte. Elas têm a possibilidade de ver o espaço restaurado, valorizado.”

Patrocinado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Governo do Distrito Federal, o Mapa Gentil ofereceu palestras preparatórias para cerca de 2 mil alunos do Cemeit e promoveu oficinas de capacitação de dois meses para uma turma de 20 estudantes da instituição. Eles aprenderam a mexer com grafite, xilogravura, azulejaria, stencil, adesivo, pintura e modificaram, durante o mês de julho, 62 pontos diferentes das cidades.

Locais como a Feira da Ceilândia, a Casa do Cantador, o sítio Geranium, o mercado sul de Taguatinga, centros de reciclagem de sucata, árvores, escadas, pistas de skate, paredes, outdoors, e até mesmo estações do metrô — que apoiou o projeto e teve todos os trêns personalizados —, fazem, agora, parte do Mapa.

Arte que transforma
Durante o trajeto, que dura cerca de duas horas, é possível interagir com os trabalhos e em certos pontos, como no sítio Geranium, descer do transporte para tocar e observar as produções. As obras têm duas características marcantes, o que facilita identificá-las quando se vê uma, sem querer, nas ruas. A temática é sempre alegre, de valorização da gentileza no dia-a-dia e as cores remetem às da bandeira brasileira: verde, amarelo, azul e branco.

“Diversas vezes a gente parou o tour e interviu na hora. Víamos placas em branco e, junto aos meninos, fazíamos uma intervenção com adesivos. O espaço estava lá e a cidade nos convida a criar”, relembra Maurício Ferreira Junior, 23 anos, professor de história e um dos mediamores do evento. “Participar do projeto foi, ao mesmo tempo, enriquecedor e desafiador, porque ele fez despertar em mim aptidões que eu não tinha. Com a troca dialética com os estudantes, nasceu o artista além do historiador”, alegra-se.

“Esse projeto veio pra mexer com a rotina da escola, da cidade”, acredita Iara da Silva Flores, 15 anos, estudante da 1ª série do ensino médio do Cemeit. Participante de um dos tours de visitação, ela admite que muitas vezes não prestava atenção ao que a rodeava, mas que isso mudou. “De repente, uma frase chama a atenção e o olhar muda. Antes de fazer o passeio eu olhava e não prestava atenção, via um grafite e não entendia que essas coisas têm significado. Agora, sei que a rua também conversa comigo”, assegura Iara. A coordenadora Lana Guimarães concorda com a aluna, e destaca que conhecer as obras do roteiro é apenas o início para que se tenha uma nova perspectiva do mundo.

Participante do projeto desde o início e escolhido para fazer as oficinas de capacitação, Everton de Aquino Barbosa, 18 anos, é estudante da educação de jovens e adultos (EJA) do Cemeit e diz que o projeto fez toda a diferença. “Eu era um pouquinho arrogante, hoje me considero melhor. Trato melhor as pessoas, tento colocar gentileza em mim mesmo e no que faço diariamente, até no modo de falar”, destaca ele, que se identificou com as oficinas de azulejaria, grafite e xilogravura.

Programação

As visitas ao circuito Mapa Gentil começaram em 25 de agosto e podem ser feitas até 23 de setembro. Para marcar o passeio é necessário confirmar a presença. Basta ligar no telefone (61) 81267510 ou mandar e-mail para programaeducativo@mapagentil.com.br. Aos fins de semana o número de visitantes limita-se a 15 passageiros.

Para as próximas edições, o projeto analisa novas propostas. Convidados a expandir as ações a escolas de ensino básico e fundamental da rede pública, a direção do Mapa Gentil diz ter “abraçado os convites” e, inclusive, feito tours com turmas do Centro de Ensino Fundamental 13 da Ceilândia e agendado o passeio para turmas do ensino básico.

No entanto, a ideia é que a produção das obras e a criação de turmas para capacitação crie raízes no Cemeit para que seja de longa duração. “Queremos criar uma rede de gentileza”, conclui Janaína.

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