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Correio Braziliense

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Esperança nas cordas musicais

Maestro brasiliense de 31 anos monta orquestra com 10 alunos entre 11 e 17 anos no Guará. Os instrumentos são doados e o grupo precisa de ajuda para levar o projeto social a outras cidades do DF

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postado em 27/09/2012 08:00 / atualizado em 26/09/2012 12:43

Ela havia ouvido música clássica duas vezes na vida, uma delas grudando o ouvido na tevê. Ele, por sua vez, seguia a batida do rap. Nem sequer sabia o que era uma orquestra. Os irmãos Larissa Aparecida dos Santos Barbosa, 15 anos, e Alyson Cosme dos Santos, 11, moradores do Guará 2, nunca tiveram contato direto com instrumentos eruditos e, por pertencerem a uma família humilde, jamais puderam comprá-los. Hoje, porém, ambos fazem parte da Orquestra Juvenil do Guará — projeto encampado pelo maestro brasiliense Ricardo Castro, dedicado ao resgate social de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Atualmente, 10 alunos entre 11 e 17 anos participam das aulas realizadas duas vezes por semana, das 18h às 21h, em uma sala do Centro Socioeducativo Santo Aníbal, na QE 40.

Com dois meses de funcionamento, a iniciativa conquistou o olhar de colaboradores. Parte dos instrumentos foram doados pela comunidade. Três, em especial, conseguidos por meio de uma campanha em uma rede social. O restante foi comprado com dinheiro arrecadado de outros músicos. Além de violinos, foram adquiridos violas, violoncelos e percussão clássica. Todos eles emprestados aos estudantes. “Eles não levam para casa, deixam no Santo Aníbal. Isso porque, se desistirem das aulas, abrimos vagas para outros interessados”, explicou o maestro.

Ricardo foi proprietário, durante 10 anos, de uma escola de música em Brasília. Ele observa a diferença no aproveitamento dos dois públicos. “A pessoa carente chega a demonstrar mais interesse do que quem paga pelo curso”, compara. “No Guará, por exemplo, eles têm aprendido bem rápido.”

Para a diretora e representante legal do Centro Socioeducativo Santo Aníbal, Diane Galdino Morais Silva, acolher o projeto foi como realizar um sonho. “Queria fazer um centro de aprendizado para esporte, arte e cultura. Pegar um adolescente sem esperança e colocar nas mãos dele um instrumento como um violino é algo lindo, vê-lo ler uma partitura é emocionante”, completa. Entre os aprendizes, estão ex-alunos e parentes de estudantes da instituição que atende, atualmente, 320 crianças de um a 10 anos.

Aula após aula, Alysson trabalha a intimidade com o violino, objeto distante da realidade do menino. Após um teste vocal, o instrumento foi o mais compatível com o timbre do garoto. “É complicado apertar a corda e também posicionar o arco. Estou aprendendo ainda”, esclarece o estudante de 11 anos.

A irmã, de 15 anos, por sua vez, tenta se equilibrar agarrada ao corpo do violoncelo. “É bem grande. Ultrapassa a minha cabeça, mas tem uma base onde posso apoiá-lo”, percebe. Diferentemente do irmão, que sonha em ser ator, Larissa pretende se profissionalizar na música e fantasia tocar para um grande público na Itália, país do qual ouviu falar muito bem. Os irmão completam um total de nove filhos. Sete deles moram com a mãe e o padrasto.

Exemplo da Venezuela

Ricardo Castro, de 31 anos, se divide entre Brasília e Caracas, na Venezuela, onde faz mestrado em regência orquestral na Universidade Simón Bolívar. Lá ele conheceu o El Sistema, nome popular do projeto que tem tirado jovens da marginalidade e levado-os às salas de concerto. A ação — que existe há 37 anos —proporciona ensino musical a mais de 300 mil alunos, em cerca de 400 orquestras espalhadas pelo país. “Eu tive contato com a ideia deles e decidi começar algo parecido aqui”, conta Ricardo. “Buscamos criar uma orquestra em cada região administrativa, além de formar multiplicadores”, completa.

A metodologia do projeto se difere das já existentes no Brasil e enfoca o aperfeiçoamento técnico. “Normalmente, quando é feita essa ligação entre cultura e trabalho social, pensa-se, simplesmente, em colocar aquela pessoa em contato com determinada atividade. Na Venezuela, as pessoas assistem aos concertos já sabendo que se trata de profissionais com alto nível de performance”, sinaliza.

As vagas na Orquestra Juvenil do Guará, por ora, são limitadas. Isso ocorre proporcionalmente à quantidade de instrumentos arrecadados. A expectativa, entretanto, é formar grupos de 40 a 50 pessoas em cada localidade do DF. “Temos submetido as pessoas que nos procuram a testes musicais. As que demonstram mais afinidade com a música estão sendo priorizadas. Essa, no entanto, não é a nossa meta. Procuramos abrir espaço para todos os que quiserem participar”, antecipa.

A inclusão dos jovens no mercado de trabalho é outra bandeira da ação. No futuro, os envolvidos na iniciativa pretendem pleitear auxílio do Governo do Distrito Federal (GDF) e de particulares para manutenção do projeto. Aguardam apenas o registro formal como pessoa jurídica.

Expectativa

A partir da semana que vem, os alunos passarão por um curso intensivo de duas semanas — para elevar o nível técnico dos aprendizes — com o maestro José Carmelo Calabrese, de 26 anos, da Venezuela. Ele é diretor artístico da Orquestra do Conservatório de Música do Estado de Carabobo e violista da Orquestra Sinfônica Estadual de Carabobo.

Ele chegou a Brasília na semana passada. “A ação tem tentado salvar a juventude do país. Afinal, elimina-se o tempo de ócio daquelas crianças e daqueles adolescentes, inserindo esses meninos em teatros, em conservatórios. Isso os sensibiliza e os educa”, acredita.

Calabrese fala sobre a turma do Guará: “Minhas expectativa para esse curso é que ele alcance pessoas que ainda não conhecem o projeto e, por sua vez, alcance Brasília como um todo e as demais regiões que a circundam”, conclui.

Embora os alunos não possam contribuir na manutenção da iniciativa com quantias em dinheiro, o maestro Ricardo Castro afirma que a mobilização da sociedade é grande. “Por um lado, não temos como arrecadar nenhum recurso dessas famílias, mas, por outro, recebemos ajuda da comunidade e acabamos conseguindo maior envolvimento de empresas e governo”, justifica.

Personagem da notícia
Regente orquestral

Vencedor do concurso Jovens Compositores, da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre em 2012, o brasiliense Ricardo Castro é graduado em regência pela Universidade de Brasília (UnB). Participou de classes de regência orquestral na Itália, na República Tcheca, na Argentina, na Venezuela e no Brasil, com maestros, como Helmuth Rilling, Kirk Trevor, Sergio Feferovich e Lanfranco Marcelletti. Castro foi aluno de Emílio de César, entre 2009 e 2010, e regeu orquestras no Brasil e no exterior, entre elas a Orquestra Sinfônica Rossini (Itália), a Orquestra Sinfônica Estadual de Carabobo (Venezuela), a Ensamble Contemporâneo Simón Bolívar (Venezuela), e a Orquestra de Câmara Municipal de Lanús (Argentina). Também conduziu produções das óperas La Forza Del Destino, Orfeu e Eurídice e Cena Musical — que compôs e estreou em 2004. Fundou o Coro de Câmara de Brasília, em 2001; a Orquestra Filarmônica do Sudoeste, em 2012, e o Centro de Música Ricardo Castro, onde desenvolveu projetos didáticos e artísticos de 2003 a 2010.


Para ajudar / A Orquestra Juvenil do Guará precisa de instrumentos musicais novos ou usados. Também aceitam-se contribuições em dinheiro. Os interessados podem entrar em contato pelo e-mail: maestro.ricardo.castro@hotmail.com. Para se ter uma ideia, um violino custa R$ 180; uma viola, R$ 380; um violoncelo, R$ 800; e uma estante para partitura, R$ 65.
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