Tecnologia

Um abismo digital em sala de aula

Pesquisa mostra que três em cada quatro adolescentes navegam na internet. Mas 40% dizem que professores não usam a web na escola

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postado em 28/09/2012 11:40 / atualizado em 28/09/2012 11:43

Nascidos na era da tecnologia, as crianças e os adolescentes estão ligados nas novidades e funcionalidades das quatro principais telas que os cercam: da televisão, do telefone celular, do computador e do videogame. Tudo conectado em tempo real pela internet e que faz parte da rotina de uma garotada que já não consegue, sequer, desligar o telefone durante a aula. Mesmo sem ter computador em casa, 75% dos adolescentes com idade entre 10 e 18 anos, navegam na internet. Entre as crianças de 6 a 9 anos, o índice é 47%. Quando se trata de educação, 40% dos jovens dizem que os professores não usam a internet em sala de aula. Para especialistas, existe uma lacuna que precisa ser preenchida por educadores e alunos.

Esses números, apurados pela pesquisa Gerações Interativas Brasil — Crianças e Jovens diante das Telas, feita pela Fundação Telefônica Vivo (ligada à operadora de telefonia), e divulgada ontem, soam como um alerta, segundo a especialista em inclusão digital e professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB) Amaralina Miranda de Souza. Ela explica que o resultado reflete uma mudança de mentalidade de uma geração para outra, provocada pelos avanços da tecnologia. Mas ressalva que os passos estão lentos. “Fica claro que existe a necessidade de formar professores capacitados para usar esses instrumentos”, frisa.

Apesar de lembrar que a maioria dos docentes não tive esse tipo de formação, Amaralina reforça que esse tema deve ser introduzido na agenda diária como um grande aliado da educação, capaz de atender melhor às necessidades dos estudantes. Alguns só se desconectam quando estão dentro da sala de aula, como a estudante Mariana de Oliveira, de 14 anos. Com o celular na mão, ela passa o dia conectada nas redes sociais. “Na escola, só ligo no intervalo”, garante a menina. A mãe, Elyene Alves, 40, diz que dá orientações à filha sobre os perigos da internet e como se relacionar com estranhos. Ela diz que, às vezes, é necessário “puxar a orelha” da filha: “Tem dia que a busco no colégio e ela fica mexendo no celular por todo o caminho. Tenho que avisar: ‘olha, estou aqui’”.

Diferenças regionais
Entre os adolescentes, 53% usam a internet para estudar e fazer a lição de casa e 72% acessam esse conteúdo de casa. Embora a estatística seja nacional, existem diferenças entre as regiões. Coordenadora científica do projeto Escola do Futuro e professora da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP), Brasilina Passarelli aponta essa discrepância como mais um fator que interfere no uso da internet nas salas de aula. “A infraestrutura das regiões Norte e Nordeste não são equivalentes à do Sudeste e Centro-Oeste. Essa é outra barreira a ser ultrapassada”. A pesquisa mostrou que, embora o número de conectados seja alto, 70,4% das crianças da Região Sudeste têm computador em casa, enquanto no Nordeste esse índice cai para 21,2%.

A aposta do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, para reverter esse quadro é o lançamento de um plano de universalização da banda larga. “Com conexão wi-fi, mesmo sem ter um pacote de dados no celular, (o usuário) poderá ter acesso à internet”, diz. Outra aposta do governo federal é a compra de tablets (computadores em forma de prancheta) para professores que, segundo o ministro, vai estimular o uso da plataforma como instrumento de ensino.

O presidente da operadora Telefônica, Antonio Carlos Valente, lembra que os tablets não foram incluídos na análise porque foram lançados no ano em que a pesquisa foi iniciada. O levantamento, apurado entre 2010 e 2011, ouviu 1.948 crianças e 2.271 jovens de escolas públicas e particulares de zonas urbanas e rurais de todas as regiões do país.

“Fica claro que existe a necessidade de formar professores capacitados para usar esses instrumentos”
Amaralina Miranda de Souza, professora da Faculdade de Educação da UnB

Choque de realidades Os dados sobre as crianças e os adolescentes diante das telas digitais, além de mostrar o choque entre a geração dos alunos e a dos professores, revelam que os adultos em geral — e os pais, em particular — se relacionam de forma diferente com os dispositivos. Enquanto os que nasceram quando a televisão já não era mais novidade tentam usufruir ao máximo as novas tecnologias, a geração anterior mantém uma relação mais distanciada dos equipamentos.

A estrela em popularidade é o telefone celular. Além da função original, que é a comunicação por voz, o aparelhinho portátil também serve para ouvir música, tirar fotos, bater papo e navegar na internet. A professora da USP Brasilina Passarelli lembra que esse fenômeno pode ser considerado normal. “Os pais e professores não participaram desse processo como os jovens”.

Exemplo dessa estatística é o estudante Rafael Galvão, 13, que ganhou o primeiro telefone celular quando tinha 9 anos. “Gosto, principalmente, dos jogos que acho na internet”, diz o adolescente. A “expertise” fez com que ele se tornasse uma espécie de tutor para a geração que veio antes dele. A avó, Maely Gehre, 67, diz que o neto já a salvou em diversas situações. “Quando entro no meu e-mail, sempre preciso das dicas dele. Essa geração é muito esperta com as tecnologias”, diz a vovó coruja e, agora, conectada.

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