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Educação

Big brother também na sala de aula

Depois das avenidas do Distrito Federal, o uso de câmeras de segurança começa a ganhar o ambiente escolar. Pelo menos três colégios particulares da cidade instalaram os equipamentos para acompanhar alunos e professores. A medida divide opiniões

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postado em 15/10/2012 12:28 / atualizado em 15/10/2012 12:53

No Distrito Federal, há cerca de uma câmera de vigilância para cada cinco habitantes. No total, são quase 500 mil equipamentos espalhados por avenidas, corredores, empreendimentos e elevadores. A maioria passa despercebida no dia a dia do brasiliense, mas, agora, a instalação de filmadoras em um ambiente específico — as salas de aula — provoca polêmica entre estudantes, educadores e familiares.

Em Brasília, pelo menos três instituições particulares adotaram as ferramentas de segurança recentemente: o Ciman (Área Octogonal Sul e Cruzeiro), há mais de 10 anos; o Galois (601 Sul), desde o início do ano; e o Colégio La Salle (906 Sul ), que neste semestre iniciou a segunda fase de implementação dos aparelhos.

Em setembro, 107 estudantes de uma escola de São Paulo acabaram suspensos após protestar contra a colocação de câmeras no interior das salas. Os alunos do colégio Rio Branco, um dos mais requisitados da capital paulista, foram surpreendidos pelos equipamentos nas salas e organizaram, no horário do recreio, uma manifestação contra a iniciativa da direção. O caso ganhou repercussão nacional e trouxe o debate sobre o monitoramento novamente à tona.

Avô de um aluno do colégio Galois, o aposentado Edelmo Queiroz, 77 anos, é contra a instalação das máquinas em ambiente escolar. “Eu acho que é uma medida invasiva”, comenta. “Nem tudo que é dito nas salas de aula deve sair de lá.” Mas o neto de Edelmo, o aluno do 3° ano do ensino médio Thiago Queiroz, 17, não vê problemas no uso das filmadoras. “No início, nós ficamos incomodados, mas, depois, nos acostumamos. Eles conversaram com a gente e explicaram o objetivo da mudança”, conta.

Pedro Ponchio, 16 anos, também do Galois, é a favor da presença desses equipamentos. O jovem lembra que as imagens obtidas na turma dele por meio dos aparelhos de vigilância foramaté utilizadas para solucionar problemas. “Uma vez, jogaram um ovo na sala e só descobriram o responsável por causa das gravações. Acho que é legal colocar as câmeras, é uma medida de segurança”, avalia.

Disciplina

Para o sociólogo e antropólogo Antônio Flávio Testa, o monitoramento é bem-vindo ao ambiente escolar, pois pode inibir o bullying, evitar comportamentos violentos e o uso de drogas, além de combater a depredação do patrimônio. No caso do Galois, por exemplo, a decisão de instalar as câmeras nas salas foi tomada para proteger os recém-instalados computadores. “A utilização das câmeras pode melhorar o desempenho e a educação”, argumenta o especialista. “Brasília já é toda cercada por sistemas de segurança mesmo. Essa é uma situação recorrente para quem mora aqui”, avalia.

Testa admite, porém, que o assunto divide opiniões entre os educadores. Ele lembra que, há alguns anos, o governo estudou a proposta de instalar equipamentos de vigilância nas salas de aula, mas os docentes se mostraram contrários. “Houve bastante resistência por parte dos professores. Muitos achavam que estariam sendo fiscalizados”, conta o pesquisador.

Por isso, ele alerta que a instalação dos aparelhos deve ser acompanhada de diálogo com a comunidade escolar para não gerar os problemas enfrentados pela instituição paulista. Ele explica que é importante esclarecer o objetivo do equipamento e como o monitoramento deverá funcionar, até porque não há uma legislação que trate da utilização das filmadoras nas escolas privadas (leiaOque diz a lei).

Mesmo assim, todo esse cuidado não é suficiente para evitar danos ao ambiente escolar, na opinião do doutor em psicologia da educação e professor da Universidade Católica de Brasília Afonso Galvão. Segundo o especialista, o uso desses equipamentos nos colégios pode prejudicar a formação dos alunos.

“Quanto mais as escolas ficarem parecidas com presídios, pior. As instituições de ensino deveriam ser locais de tolerância, respeito e educação, não de vigilância permanente”, argumenta. Galvão avalia que a presença constante das câmeras pode acabar condicionando os estudante a manter um bom comportamento apenas enquanto estão sob as lentes das filmadoras.

Diálogo
O diretor da unidade do Ciman da Área Octogonal Sul,Mark Mello, discorda da avaliação do estudioso. Para ele, se os equipamentos forem adotados da maneira correta, não representarão risco à formação dos estudantes. “Aqui, nós tivemos o cuidado de discutir a adoção das câmeras com a comunidade acadêmica. Nós debatemos o assunto com os alunos nas aulas de ética e cidadania para construir o conceito de que elas não servem para vigiá-los, são apenas um material de segurança”, explica.

Diálogo

O diretor da unidade do Ciman da Área Octogonal Sul,Mark Mello, discorda da avaliação do estudioso. Para ele, se os equipamentos forem adotados da maneira correta, não representarão risco à formação dos estudantes. “Aqui, nós tivemos o cuidado de discutir a adoção das câmeras com a comunidade acadêmica. Nós debatemos o assunto com os alunos nas aulas de ética e cidadania para construir o conceito de que elas não servem para vigiá-los, são apenas um material de segurança”, explica.

 

ERASTO FORTES MENDONÇA, CONSELHEIRO DO CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO DO CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO

Quais são as vantagens da adoção de câmeras nas salas de aula?

O que estão anunciando como vantagem para essa instalação é o controle da situação interna na escola em relação a possíveis questões de violência. Mas, pessoalmente, acredito que essa interferência externa representada pelas câmeras pode gerar problemas.


Quais seriam esses problemas?

A sala de aula é umambiente onde existe um vínculo de confiança entre professor e estudante. Qualquer interferência externa pode romper com esse pacto pedagógico. Vejo também que esse mecanismo pode ser usado de forma errada, pode ser utilizado para o controle da atividade do professor por parte da gestão da escola. Os educadores precisam ter certo grau de autonomia na sala de aula, e isso precisa ser respeitado. As câmaras acabam rompendo com o nível de confiança que deve existir nesses ambientes.


Mas, caso seja constatada a necessidade de uso desse instrumento, qual é a maneira mais correta de se proceder?

Eu entendo que vivemos em uma situação de violência constante, que se repercute nas instituições de ensino e nos obriga a adotar esses equipamentos em alguns casos. Mas a direção não tem o direito de fazer uma intromissão externa, sem o entendimento das pessoas que fazem o dia a dia nas escolas. Tem que haver diálogo com a comunidade acadêmica.

 

“Colocar câmera dentro das salas tem um lado bom e um ruim, mas eu acho que seria legal. Quem fizesse alguma coisa de errado na sala, ia ser punido. Então, muita gente não ia gostar. Mas pelo menos os roubos, essas coisas de violência que a gente vê na escolas, isso ia diminuir.” Talisson Marcos da Silva,
14 anos, 9° ano, aluno do Centro de Ensino Fundamental nº 4 de Taguatinga

 

 

 

 

 

 

 

“Na minha escola, tem câmera em todas as salas, e muitos alunos não gostam. Eu mesmo acho invasivo demais, que atrapalha a relação com os professores na sala. Sempre que tem algum problema de comportamento durante as aulas, eles olham nas câmeras e vão na sala reclamar.”
Marcelo Douglas Araújo, 14 anos, 8° ano, estudante do Colégio Paloma de Santa Maria
 

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