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Qualidade da educação depende de participação dos pais na vida dos filhos

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postado em 14/11/2012 20:07 / atualizado em 15/11/2012 09:36

Mariana Niederauer

São Paulo – A aproximação entre família e escola foi o tema do Ciclo de Debates Gestão Educacional de 2012. O evento ocorreu nesta quarta-feira (14/11) em São Paulo. Todos os países que têm bons sistemas educacionais guardam essa semelhança: os pais são muito presentes na vida escolar dos filhos. "Se eles (os filhos) veem que esse é um valor na família, acabam carregando esse valor para o resto da vida", explica Beatriz Pont, especialista em políticas educacionais da Diretoria de Educação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O resultado dessa interação, segundo a pesquisadora espanhola, são menores índices de abandono escolar.

A Fundação Itaú Social, responsável pelo evento, desenvolveu um projeto-piloto que visa promover a melhoria da relação entre pais e escola. Os chamados coordenadores de pais são membros da comunidade que fazem a ligação entre escola e os responsáveis pelos alunos. "A relação com os pais melhora quando eles não são chamadas à escola apenas para falar de problemas", explica a gerente da fundação Isabel Santana. Nos estados em que foi implantado o projeto - São Paulo e Espírito Santo - já foi possível perceber melhorias nos índices de qualidade.

Objetivos claros

Para Beatriz Pont, é importante que a escola deixe claro o que espera dos pais: que eles acompanhem os deveres de casa dos filhos - se não puderem ajudar, que garantam que eles estejam com as tarefas escolares em dia -, propiciem um bom ambiente de estudos para a criança ou o jovem e que garantam que eles tenham todo material de que precisam para estudar, como livros e cadernos. "Em países como Canadá e Coreia do Sul isso não é necessário, porque os pais já estão por trás da educação dos filhos, o que não ocorre no Brasil", diz. "Agora, nós temos dados e mais clareza sobre o que dá certo. É hora de começar a agir", completa a pesquisadora.

No Brasil, o tema tem ganhado relevância nos últimos dias por causa de Projeto de Lei que tramita no Congresso Nacional e prevê a obrigatoriedade da presença dos pais na escola. Quem não participar de reuniões e encontros com professores pelo menos duas vezes a cada bimestre poderá, de acordo com o projeto, sofrer as mesmas sanções impostas aos eleitores que deixam de votar sem justificar a ausência.

O oficial de educação da Unesco Sérgio Gotti acredita que o ponto mais relevante da discussão é a mudança de paradigma pela qual o país passa: “Mais importante que a Lei, é justamente essa mudança que está ocorrendo no país todo e que tem aproximado cada vez mais a comunidade escolar da família”. Ele lembrou que durante anos o país viveu um descompasso normativo em relação à proximidade entre pais e escola. A legislação que menciona essa relação mais próxima veio tardiamente, primeiro em 1990, com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e, depois, com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de 1996. Pelo menos três artigos dessa última norma tratam da relação entre pais e escola.

Igualdade

A palestrante Beatriz Pont também apresentou no evento estudo finalizado recentemente que mostrou a importância da equidade para que os sistemas de ensino alcancem também a qualidade. A especialista analisou dados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês) dos 34 países membros da OCDE e viu que nações como Austrália, Holanda, Reino Unido e Estados Unidos têm notas altas na avaliação. Um dos motivos é o fato de os sistemas educativos combinarem essas duas características, equidade e qualidade.

 Ela ressaltou que, nos últimos anos, as notas do Brasil na avaliação internacional têm melhorado, mas o país precisa continuar avançando. "Vocês precisam trabalhar duro e continuar nesse caminho para garantir a continuidade do desenvolvimento que já começaram a ter." O primeiro passo é buscar a equidade, ou seja, garantir que todas as crianças alcancem o nota mínima no Pisa. Hoje, metade dos brasileiros menores de 15 anos não alcançou esse índice mínimo. Situação parecida é percebida em outros países da América Latina, como Chile e México.

Crescimento econômico

A saída, segundo Beatriz, é que a educação seja encarada como prioridade. "A equidade anda de mãos dadas com a qualidade. Todas as crianças devem ter a oportunidade de ter acesso à educação independentemente do nível educacional dos seus pais", ressalta. Um dos exemplos citados pela pesquisadora é a Coreia do Sul. Há 30 anos o país começou a investir em educação e colocar o tema como prioridade. Duas décadas depois, o resultados já podiam ser vistos com o aumento do Produto Interno Bruto (PIB), que antes era muito baixo.

A especialista defende que todos os jovens devem ter completado o ensino médio até o 16 anos e lembra que o fracasso escolar tem um alto custo para sociedade. Pessoas com escolaridade menor normalmente tem mais problemas de saúde e permanecem desempregadas por mais tempo. Esse efeito cascata termina tendo consequências na economia do país. O crescimento é limitado por causa da falta de qualificação da população.

Por aqui, as consequências começam a ser percebidas. A taxa de desocupação da população é baixa, 5,4% de acordo com o dado mais recente divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e a busca crescente por mão de obra qualificada sugere que essas pessoas podem não estar preparadas para ocupar as vagas que restam no mercado.

Escolas vulneráveis


A solução, para Beatriz, está no investimento nas escolas consideradas mais vulneráveis, ou seja, aquelas que apresentam piores índices de rendimento e qualidade. Dos 34 países que fazem parte da OCDE, o Brasil é o segundo em número de alunos de até 15 anos que repetiram pelo menos um ano na escola: 40% dos estudantes nessa faixa etária se encaixam no índice. Os brasileiros perdem apenas para os alunos de Macau, uma das regiões administrativas da China. Em terceiro lugar vem a França, seguida por Luxemburgo e Espanha.
 
A probabilidade de esses jovens deixarem a escola é muito maior, de acordo com a especialista. E colocar a culpa no aluno é um grande erro na opinião de Beatriz. A responsabilidade deve ser da escola e do professor. Beatriz destaca os principais fatores que podem mudar esse quadro: direção engajada com a melhoria do ensino e a equidade, professores com boa formação, clima escolar propício, estratégias em sala de aula e participação dos pais e da comunidade.

*A jornalista viajou a convite da Fundação Itaú Social

 

 

 

 

 

 

 

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