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Correio Braziliense

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Educação e saúde abandonadas

Sem condições mínimas para atender os pacientes, hospitais de cidades como Luziânia e Águas Lindas mandam os casos mais graves para o DF. Nas escolas, os alunos encontram paredes rachadas, pisos esburacados e carteiras quebradas

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postado em 22/01/2013 08:00 / atualizado em 21/01/2013 13:28

Trocadilhos como a “Saúde está na UTI” e a “Educação está reprovada” foram repetidos algumas vezes durante a semana em que o Correio visitou as cidades do Entorno. A realidade das duas áreas nos municípios não é nem um pouco favorável neste início de ano. Se a situação dos alunos não será boa na volta às aulas nas redes municipais, que está marcada para o fim de janeiro e início de fevereiro, a dos usuários da rede de saúde é complicada todos os dias, indistintamente.

O Hospital Regional de Luziânia (HRL), que pertence ao município, serve para ilustrar a situação da rede. Hoje, não passa de um arremedo da referência que já foi para as cidades vizinhas. Tem apenas um paciente internado atualmente e só consegue responder por atendimentos mais simples, como suturas e pequenas emergências. A unidade tem capacidade para internar até 300 pacientes por mês, mas em 2012 manteve média de 20 a 25, por falta de estrutura adequada. O hospital carece até mesmo de macas, camas e colchões, além de estar com problemas em vários equipamentos médicos.

De maneira geral, a nova gestão assumiu sem funcionários na rede (médicos e servidores foram demitidos no ano passado) e problemas a perder de vista. “As unidades de saúde estão sucateadas em estrutura e equipamentos”, admite o secretário de Saúde, Watherson Roriz de Oliveira. O município tem três aparelhos de Raios-X, todos sem funcionar. São quatro equipamentos de ultrassom, apenas um funcionando. O único tomógrafo está estragado. Além disso, os laboratórios de exames não estão operando. “Nessa situação, não temos muito o que fazer. Como médico, eu me sinto muito mal. Os casos mais sérios são mandados para Brasília. Não temos outra alternativa”, desabafa Oliveira.

Embora a pressão seja maior na capital, nesse período pós-eleitoral, o secretário adjunto de Saúde do DF, Elias Miziara,  ressalta que a situação está sob controle. “Ainda que não tenhamos recursos para recbê-los (moradores do Entorno), sempre nos desdobramos e não questionamos.  De forma alguma, chegamos em uma situação de desespero, nem de longe”, ressalta.

Em Águas Lindas, onde um hospital regional está com a obra parada há vários anos, os pacientes não têm muita alternativa, a não ser procurar as unidades de saúde pública da capital federal. “Se o caso é mais sério, já orientamos o pessoal a procurar Brasília. É muito ruim isso, mas não tem jeito”, diz o vice-prefeito, Luiz Alberto Giribita. A nova administração encontrou equipamentos encaixotados e sob risco de estragar, medicamentos vencidos e falta de médicos e servidores na rede.

Despreparo

Se as aulas fossem iniciadas hoje, em Águas Lindas, apenas cinco das 43 unidades da rede municipal estariam em condições de receber os alunos de maneira adequada. A avaliação é do próprio secretário municipal de Educação, Silvério Correa. “Temos escolas com problemas de estrutura, como goteiras e rachaduras nas paredes, sem as mínimas condições de receber nossas crianças. Não há jeito de um aluno aprender assim”, admite. A rede local tem cerca de 22 mil alunos.

Para saber mais

Impacto imediato

Levantamento feito pela Secretaria de Saúde do DF, no primeiro semestre do ano passado, confirma em números a carência da rede pública nas cidades da região metropolitana de Brasília. O diagnóstico mostrou que, do total de pacientes vindos de fora atendidos nas unidades de emergência da rede pública local, cerca de 90% eram provenientes de cidades do Entorno. O impacto é de 10% no total geral de atendimentos de urgência. As cidades que mais ‘exportam’ pacientes para a capital federal são Águas Lindas, Novo Gama, Valparaíso e Luziânia. Entre o fim do ano passado e início deste, a situação ficou pior ainda, com o atendimento médio aumentando entre 60% e 70%, de acordo com a SES-DF.


Cinco perguntas para

Como está a situação do Entorno?
Já visitei boa parte dos 22 municípios da Ride e fiquei preocupado. Os novos prefeitos encontraram um ambiente muito ruim, com dívidas atrasadas, sem recursos em caixa, maquinário sucateado e com muita coisa por fazer em infraestrutura, saúde e educação.

O GDF tem recebido pedidos de socorro?
Sim. Os prefeitos estão nos procurando e também procurando o Governo de Goiás. Sabemos que eles têm encontrado muitas dificuldades. Estamos conversando com eles.

Como o GDF pode ajudá-los?
Não temos como fazer uma transferência direta de recursos, por se tratar de outros estados, mas poderemos dar apoio, como ajudar na execução de certos serviços, emprestando máquinas e equipamentos. O governador Agnelo Queiroz já nos autorizou a dar o apoio operacional que for preciso para ajudar esses municípios. Vamos verificar o que é possível fazer com a nossa estrutura.

Existe uma discussão conjunta com os outros estados sobre o Entorno?
Temos falado principalmente com Goiás, onde estão 19 dos municípios da Ride. A questão do Entorno vai muito além dessas dificuldades pontuais que estamos verificando agora. É preciso encontrar uma saída conjunta entre os governos estaduais, o GDF e a União para pactuar políticas em comum para essa região. É preciso criar mecanismos de desenvolvimento.

Os novos prefeitos têm noção da necessidade de integração até mesmo entre eles?
Sim. Eles entendem que precisam criar uma pauta consolidada entre eles para tentar resolver os problemas. Eles estão conscientes.

 

Situação crítica

Publicação: 21/01/2013 04:00

Em Águas Lindas, duas escolas municipais, a Orlando Soares Sousa e a Antônio Cícero da Costa, são exemplos de descaso. Instaladas em prédios alugados, velhos e insalubres, elas não têm condições mínimas de receber crianças em idade escolar. As paredes são rachadas, as janelas, quebradas, os telhados estão com goteiras e até os pisos são cheios de buracos. Na Antônio Cícero, o banheiro dos meninos tem apenas metade da porta. “Foi dessa maneira que os alunos encerraram o ano letivo”, diz uma professora.

 “Encontramos carteiras e até livros atuais deteriorados, que não estão mais em condições de serem utilizados pelos alunos. Mas vamos verificar todas essas situações, porque, em muitos casos, pode ter existido uma falta de atenção dos diretores com o acondicionamento dos livros”, ressalta um outro professor.

Problemas à vista também em Valparaíso, onde as aulas serão retomadas no próximo dia 18. Do total de 22 mil alunos, entre 2 mil e 3 mil não teriam lugar para estudar. “Nossa cidade não tem um número de escolas suficiente para atender a demanda. E, nos últimos anos, as administrações não se preocuparam em construir escolas. Agora temos de correr atrás de soluções emergenciais”, explica a nova prefeita, a petista Professora Lucimar. A solução de urgência, no caso, será alugar entre oito e 12 anexos para poder receber os alunos. “Depois, buscaremos a construção de novas unidades, mas isso demanda tempo”, diz.

De olho

O Ministério Público de Goiás, que moveu ações civis públicas no ano passado, em Novo Gama, em Valparaíso e em Águas Lindas, garante que não vai aceitar a descontinuidade dos serviços públicos na região do Entorno. “A administração mudou, mas a população não tem nada a ver com isso. O novo prefeito assumiu todas as responsabilidades e precisa prestar o serviço. Estaremos atentos”, avisa Rodrigo Bolleli Faria, promotor de Justiça e coordenador do Centro de Apoio Operacional do Patrimônio Público do MP-GO.

O Correio tentou contato telefônico com todos os ex-prefeitos dos municípios visitados durante a última semana, para que eles dessem a sua versão a respeito dos fatos. Nenhum deles foi contatado, nem seus antigos assessores. Em alguns casos, como o de Célio da Silveira, de Luziânia, e João Pacífico, do Novo Gama, aliados explicaram que eles não estavam nas cidades por estarem viajando.

O presidente da Companhia de Planejamento do DF (Codeplan), Júlio Miragaya, diz que a desigualdade e a pobreza nos municípios do Entorno impactam não só nos serviços públicos da capital, como também em outros índices, como o da violência. “Algumas pessoas não se conformam com a siuação de lá e vêm cometer crimes no DF”, destaca. Para ele, a solução para o caos nos municípios vizinhos passa pela criação de acordos entre a União e as unidades da Federação envolvidas diretamente com a problemática do Entorno.

 

 

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