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ENSINO FUNDAMENTAL

A maioria dos alunos que concluem o 3º ano não sabe ler nem fazer conta

Na escrita, quase 70% dos estudantes não dominam competências básicas

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postado em 25/06/2013 18:00 / atualizado em 25/06/2013 20:45

Mariana Niederauer , Gustavo Aguiar

Ed Alves/Esp. CB/D.A Press - 22/11/2011
O movimento Todos pela Educação divulgou, nesta quarta-feira (26/6), os resultados da Prova ABC — Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização. Os dados mostram que apenas 44,5% dos alunos do 3º ano do ensino fundamental apresentaram a proficiência adequada em leitura. Em escrita, o percentual foi ainda menor, 30,1%, e em matemática, 33,3%.

"Ainda estamos muito aquém do ideal. Se metade das crianças não está atingindo os índices necessários, algo está errado", avalia Priscila Cruz, diretora-executiva do Todos pela Educação. Na opinião dela, o baixo resultado na alfabetização reflete em deficiências de ensino que se reproduzem ao longo de toda a vida escolar do estudante. "Quem ainda não sabe ler nem fazer contas aos 8 anos tende a sofrer com mais dificuldades de aprendizado até o fim dos estudos", explica.

A edição deste ano da prova foi aplicada no fim de 2012, entre 54 mil alunos de 1.185 escolas públicas e privadas distribuídas em 600 municípios brasileiros. Metade dos alunos avaliados são do 2º ano e a outra metade do 3º ano. "Temos agora parâmetros para exigir políticas públicas específicas e traçar um plano de metas para a alfabetização na idade certa até 2022. Há um pacto do governo federal com os estados e municípios para que isso ocorra, mas é preciso que ele traga resultados concretos."

Diferenças regionais
O Distrito Federal está entre as três unidades federativas que apresentaram o maior número de alunos com proficiência adequada em leitura. Na capital,  55% dos estudantes alcançaram o nível ideal, abaixo apenas de São Paulo (60%) e Minas Gerais (59%). Os menores percentuais foram registrados em Alagoas (21,7%), Pará (22,2%) e Amapá (22,8%).

"Os melhores índices podem ser explicados, em parte, pelos altos investimentos que essas unidades fazem no setor. Mas não significa que não há o que melhorar. Pelo volume de investimentos no DF, esperava-se um resultado melhor", critica Priscila. Para ela, o que falta é aprimorar a gestão dos recursos e aplicá-los com estratégia. "Não adianta aumentar os recursos se eles não forem bem gastos."

Em matemática, Amazonas e Maranhão tiveram os percentuais mais baixos, com cerca de 10% cada um. Minas Gerais e São Paulo estão mais uma vez na relação dos estados que apresentam o maior número de alunos com o nível ideal de domínio. Eles registraram cerca de 49% de alunos com nível de aprendizado ideal, ao lado de Santa Catarina, que atingiu o mesmo percentual.

A correção das redações da prova levaram em consideração três competências: adequação ao tema e ao gênero; coesão e coerência; e registro (grafia das palavras, adequação às normas gramaticais, segmentação de palavras e pontuação). Os estados que mais apresentaram alunos com aprendizado acima ideal foram Goiás (42%), Minas Gerais (41,6%) e São Paulo (39,3%). Aqueles que tiveram menor percentual foram Pará (11,6%), Maranhão (13%) e Piauí (16%).

De acordo com Priscila, as dificuldades são maiores em estados mais pobres. "É preciso que as políticas públicas atendam cada região de acordo com sua peculiaridade e seu perfil. Os recursos maiores devem ser destinados a quem precisa mais", aponta.

A professora do Instituto de Educação da Universidade de Brasília, Stella Maris Bortoni, considera que os dados refletem na perpetuação da pobreza e da falta de acesso no país. "As regiões mais pobres permancem  pobres porque não conseguem elevar seus índices educacionais. As dificuldades apresentadas nessa etapa geram uma estatística preocupante de alfabetos funcionais no Brasil", argumenta.

A professora do 1º ano da Escola Classe 6 do Cruzeiro Silvia Cearence acredita que o baixo desempenho tem forte ligação com a ausência familiar, além de outros fatores. "A participação da família é muito importante no processo de alfabetização, muitas vezes a responsabilidade da educação é toda transferida para nós [professores], o que é bastante errado. Percebi que os alunos com pais presentes têm um desempenho melhor", diz.

Pontuação
A avaliação usa como referência as escalas do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). O nível de proficiência considerado adequado para o 3º ano é o de 175 pontos, tanto na escala de leitura quanto na de matemática.

Isso significa que os estudantes conseguem identificar temas de uma narrativa, localizar informações explícitas e perceber relações de causa e efeito contidas nelas. Além disso, têm domínio da adição e da subtração e conseguem resolver problemas envolvendo notas e moedas, por exemplo. Para a avaliação da escrita, foi usada uma escala própria, que varia de 0 a 100, em que o resultado desejável é de 75 pontos ou mais.

O Distrito Federal alcançou os níveis ideais na avaliação de leitura. Na média, os alunos do 3º ano do ensino fundamental de escolas públicas tiveram 175,4 pontos e a pontuação total — incluindo estudantes de escolas públicas e particulares — foi de 183,4. (Veja a tabela)

Nos demais pontos de avaliação, o DF ainda precisa avançar. Os alunos de escolas públicas tiveram 154,4 pontos em matemática e 50,9 pontos em escrita.

Idade Certa
No ano passado, o governo lançou o Pacto pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), que define o 3º ano do ensino fundamental, ou os 8 de idade, como limite para a alfabetização das crianças no país. Esse objetivo converge com a meta 2 do Todos pela Educação, que estabelece que toda criança deve ser plenamente alfabetizada até os 8 anos de idade até 2022.

Essa será a última edição da Prova ABC, pois o Ministério da Educação já anunciou um instrumento próprio de avaliação do desempenho dos alunos, a Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA), que será aplicada ainda este ano pelo Inep, conforme prevê o Pnaic.

A Prova ABC é uma parceria do movimento Todos Pela Educação, da Fundação Cesgranrio, do Instituto Paulo Montenegro/Ibope, e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Os resultados dessa edição da Prova ABC não são comparáveis com os da anterior, pois as duas edições da prova foram promovidas em momentos diferentes da trajetória dos alunos. A Prova ABC de 2011 foi aplicada para alunos que tinham concluído com êxito o 3º ano do ensino fundamental, enquanto a edição de 2012 foi aplicada a alunos do 2º e 3º anos, ao final do ano letivo.

Para Stella Maris, a saída para elevar os dados sobre alfabetização no Brasil está em melhorar a formação de professores, valorizar a categoria e garantir estrutura física adequada nas escolas. "Se não tivermos um compromisso do governo e da sociedade para alfabetizar as pessoas no tempo correto, dificilmente vamos conseguir chegar a um patamar superior como nação." 

Fonte: Prova ABC 2012 - Elaboração: Todos pela Educação

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