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Escolas preocupadas com a geração digital

A dispersão provocada pelo uso de celulares e de tablets nas salas de aula alerta os educadores da rede pública e da particular. Alguns colégios iniciaram campanha para disciplinar o manuseio da tecnologia durante o horário de estudos

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postado em 30/07/2013 18:00 / atualizado em 30/07/2013 11:24

Manoela Alcântara

Ronaldo de Oliveira
Os celulares e os tablets chegaram definitivamente às salas de aula. Com acesso à internet, os aparelhos eletrônicos se tornam aliados importantes na hora do ensino, mas também inimigos do aprendizado caso sejam utilizados de forma errada. A infinita possibilidade de aplicativos, o acesso a jogos, as redes sociais e os chats gratuitos podem provocar dispersão no horário dos estudos. O emprego das tecnologias não escolhe idade. Tanto no ensino fundamental quanto no médio das escolas públicas e particulares o desafio é disciplinar o emprego dos equipamentos.

No Colégio Marista da 609 Sul, 98% dos estudantes do 6º ao 9º ano têm celular. Embora manusear o telefone seja proibido por lei distrital (leia O que diz a lei), alguns o mantêm sempre ao alcance. Pesquisa realizada pela instituição de ensino mostrou que 50% das suspensões da insituição ocorrem por causa do uso indevido do aparelho. Na semana passada, a direção lançou uma campanha, não a fim de coibir, como prega a legislação, mas disciplinar a prática em proveito da comunidade escolar. “A ideia não é radicalizar, mas, sim, mostrar que, de forma orientada, o celular pode trazer benefícios”, ressaltou o assistente psicopedagógico da escola, Ricardo Timm.

Entre as estratégias aparecem informativos, cartazes, banners, vídeos e e-mails para as famílias. Afinal, os pais e outros parentes são os responsáveis pela maioria das interrupções em sala de aula. Muitos optam por ligar no celular, na hora da aula. “É preciso desenvolver a consciência coletiva, a consciência cidadã. São 40 alunos por turma, imagina todos falando ao telefone?”, questionou Timm, ao lembrar que, nas salas de cinema, as campanhas funcionaram bem.

Os alunos do 9º ano Daniel Ramos e Thaise Mello, ambos de 14 anos, levam o telefone para a escola, mas não o utilizam em sala. “Provoca muita dispersão, principalmente quando alguém se esquece de colocar no silencioso. Quando o professor expulsa alguém, todos perdem a atenção e fica difícil voltar a focar na matéria”, reclamou Thaise. Daniel, no entanto, às vezes, usa os chats em benefício dos estudos. “Existem os prós e os contras. Sou um pouco lento para copiar a matéria. Às vezes, os amigos tiram foto do conteúdo no celular e encaminham no grupo montado por nós. Isso facilita na hora de estudar”, contou.

Segundo professores, nem todos têm a mesma consciência de Daniel. “Eles não prestam atenção, porque sabem que terão o recurso da foto depois. Se combinado com o docente para uma tabela ou dever de casa, é outra coisa. Além disso, copiar a matéria do quadro é um recurso de aprendizagem”, atestou o assistente psicopedagógico do Maristinha.

Na rede pública, o problema se repete. A coordenadora do ensino fundamental da Secretaria de Educação, Kátia Franca, ressalta que não há como a escola ficar de fora do contexto das tecnologias. “Todo começo de semestre, os professores firmam um contrato didático com os alunos. Eles delimitam o que é permitido. Não vamos abolir o telefone, mas o que não pode é enviar mensagem, bater papo.” Ontem, no retorno às aulas, as especificações foram reafirmadas entre mestres e aprendizes.
Tablets

Nas instituições privadas, algumas de ensino médio começaram a explorar os tablets no ano passado. O Sigma trocou o material em papel pelo digital e mudou toda a metodologia. Um ano e meio depois, pôde ser realizada uma avaliação prévia. “Os primeiros dados que temos são muito positivos. Houve melhora no desempenho. Os alunos estão mais participativos e empenhados na resolução de exercícios”, analisou o coordenador de Redação do colégio, Eli Guimarães.

Com a aluna do 2º ano do ensino médio do Centro de Ensino Candanguinho Laísa Condê, 16 anos, no entanto, a metodologia não deu certo. “Ficava muito dispersa. O meu desempenho caiu. Estava em uma escola que usava os tablets e resolvi sair. Conversei com a minha família e optamos por voltar ao método tradicional”, explicou. A estudante admite ter se sentindo muito livre para navegar nas redes sociais e disputar jogos virtuais. “Tenho amigos que conseguem, mas, para mim, não foi o ideal”, reconhece.

 

Falhas comuns

» Acessar redes sociais no horário da aula
» Tirar fotos para postar em aplicativos específicos
» Tirar foto da matéria escrita no quadro pelo professor em vez de copiar no caderno
» Manter diálogos em bate-papos
» Acessar jogos
» Atender ligações durante a aula

Palavra de especialista

Formas de abordagem

“A introdução das novas tecnologias na sala de aula é inevitável, pois elas fazem parte do dia a dia da maioria da população. O desafio da escola é saber como proceder. As novas tecnologias demandam novas pedagogias. Isso significa formas diferentes de abordar o conteúdo e de avaliar e de interagir com os alunos. A maior parte das instituições que trabalham com tablets têm transformado livros em PDF, uma utilização limitada da tecnologia, que permite muito mais do que isso. Pode-se trabalhar com a interatividade e na construção coletiva do conhecimento. A dispersão existe, porque professores e alunos estão à deriva, não sabem como utilizar as ferramentas do modo correto. Se os estudantes levam o celular para a sala de aula somente para conversar, estão no lugar errado. Mas se o aparelho serve para interagir e atrair ainda mais a atenção do aluno, pode funcionar bem. Tudo vai depender da capacitação dos professores. É preciso que toda a cadeia de formação seja reinventada, desde a universidade. Acredito que ainda demandará algum tempo para que essa integração ocorra de forma minimamente satisfatória.”

Gilberto Lacerda é professor da Faculdade de Educação da UnB, especialista em tecnologias da educação

O que diz a lei

A Lei Distrital nº 4.131, de 2008, proíbe o uso de celulares e de aparelhos eletrônicos capazes de armazenar e reproduzir arquivos de áudio do tipo MP3, CDs e jogos, pelos alunos de escolas públicas e privadas do DF. Permite o uso desses aparelhos somente nos intervalos e fora da sala de aula. Segundo norma, cabe ao professor encaminhar à direção quem descumprir o exigido.

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