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A capital na sala de aula

História de Brasília é contada aos estudantes a partir do 4º ano. Além dos livros, os ensinamentos incluem visitas a museus e outros monumentos, que ajudam a entender como surgiu a cidade criada por JK

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postado em 11/08/2013 12:41 / atualizado em 11/08/2013 12:42

Thaís Cieglinski

Ronaldo de OLiveira
Entre contas de matemática e análises sintáticas, por volta dos 9 anos, os estudantes do Distrito Federal se deparam com a Missão Cruls, a construção de Brasília, a arquitetura de Oscar Niemeyer. De acordo com a previsão curricular, as aulas de história do 4º ano do ensino fundamental devem ganhar contornos regionais e aproximam as crianças da realidade social, política e cultural em que estão inseridas. “A ideia é resgatar a origem da comunidade, partindo da região administrativa para o resto do DF, a fim de que eles (os alunos) possam reconhecer a importância da nossa história”, explica Sandra Zita Tiné, subsecretária de Educação Básica da Secretaria de Educação do Distrito Federal.

Apesar de haver um livro didático para nortear o trabalho, é nas ruas da capital que a maioria dos professores ensina a garotada. Raquel Valadares Borges, 9 anos, aluna da Escola Classe (EC) 18 de Taguatinga, lembra, com brilho nos olhos, da visita que ela e os colegas fizeram à Catedral de Brasília. “Gostei muito de entrar lá, só conhecia a parte de fora do prédio. Os vidros são lindos e os anjos, também”, observa. A turma da menina está produzindo um livro de poesias sobre a cidade, em que destacam, entre outras coisas, as belezas do cerrado e dos palácios.

Raquel está encantada com o que vem aprendendo nas aulas dadas pela professora Maria Maura de Souza. Com 24 anos de carreira, a docente destaca a riqueza que o tema oferece. “Eles têm muita curiosidade e, antes de entramos no conteúdo teórico, mergulhamos na prática. Os passeios pela cidade vão muito além dos aspectos turísticos. Congresso Nacional, Memorial JK, Museu Vivo da Memória Candanga e Catetinho são alguns dos roteiros obrigatórios. Para a maioria dos alunos, as visitas são novidade. “Eles nasceram aqui, mas, com os pais, só vão ao shopping”, comenta a professora. Ela diz que é comum os estudantes anotarem o endereço de cada atração com a intenção de voltar ao locais acompanhados da família.

Entre os espaços que mais chamam a atenção de meninos e meninas está o Museu Vivo da Memória Candanga, às margens da Estrada Parque Indústria e Abastecimento (Epia). O espaço que originalmente abrigou o Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira conta com acervo de peças, objetos e fotos da época da construção da capital. O material faz parte da exposição permanente “Poeira, lona e concreto”, que narra a história de Brasília desde o início até a inauguração, em 1960. Quando visitou o local, Cauã Gomes Pedrosa, 9 anos, fez uma viagem no tempo. “A gente aprendeu por que JK decidiu fazer a cidade aqui. Vimos as coisas daquela época, como uma cadeira de barbeiro, um fogão à lenha e até carros antigos”, enumera o garoto, aluno da escola de Taguatinga.

Mas não são apenas monumentos e museus que encantam os pequenos. Em um passeio ao Pontão do Lago Sul, quase a totalidade das crianças era estreante. “Eles nunca tinham visto o Paranoá, as pontes. Tudo era novidade”, conta Cláudia Aparecida Andrade de Ulhôa, professora do EC 18 de Taguatinga. Em um trabalho sobre a riqueza da flora do cerrado, ela explica que as crianças puderam provar vários frutos da região, como pequi, araticum e mangaba, e até receitas foram produzidas.


Visão crítica
Além de apresentar detalhes históricos do DF, as aulas despertam a visão crítica dos alunos. Noções sobre a função dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário são repassadas e ajudam a aproximá-los da realidade que a cidade vive hoje.

Nas escolas particulares, é também no 4º ano que os estudantes começam a aprofundar os conhecimentos sobre a capital. Em um tradicional colégio da Asa Sul, as crianças também refletem sobre a realidade política de Brasília. Entre as diversas tarefas que elaboram ao longo do ano, uma inclui pesquisar quem são os distritais eleitos pelos pais, buscar as propostas feitas por eles na campanha e conferir o que foi cumprido. “Depois de fazerem esse levantamento, pedimos que formulem propostas para os problemas que a cidade enfrenta”, explica a professora Lilia Maria Borges da Costa.

Na opinião da educadora, despertar o sentimento de pertencimento, de amor pela terra, é essencial para que aflorar a cidadania nos pequenos brasilienses. As gêmeas Georgia e Rafaela Ramos, 9 anos, têm na ponta da língua as lições que vêm recebendo na sala de aula e nos passeios externos promovidos pela escola. “É importante aprender a história de onde a gente vive, sobre o cerrado e a diversidade dos animais e das plantas daqui”, enumera Georgia. A irmã é mais crítica e avalia a situação do transporte público do DF. “O trânsito é muito ruim, têm muitos carros nas ruas e poucos ônibus”, observa.

Contexto

De acordo com a Secretaria de Educação do DF, o trabalho desenvolvido nas escolas públicas prevê o estudo da comunidade em que os alunos estão inseridos. Detalhes da formação das cidades, origem das populações e aspectos culturais específicos são apresentados às crianças como forma de inseri-las no contexto da escola, da região administrativa e, em seguida, do Distrito Federal.


Leitura garantida

Dados divulgados pelo GDF mostram que 3% dos brasilienses — o equivalente a 60 mil pessoas — não sabem ler nem escrever. A meta é chegar a 1%, quando o DF será considerado território livre do analfabetismo, segundo o que preconiza a Organização das Nações Unidas. Pelo programa DF Alfabetizado, cerca de 6 mil pessoas aprenderam a ler e a escrever nos últimos 12 meses. Três mil deles concluem o curso este mês. O governador Agnelo Queiroz entregou certificados a um número simbólico de estudantes, pontem, no Museu Nacional da República. “Me sinto maravilhada, vejo um futuro”, comemorou Maria Erlete dos Santos, 59 anos, uma das beneficiadas. O programa atende jovens com mais de 15 anos, adultos e idosos, que não conseguiram estudar. As inscrições são feitas periodicamente nas coordenações regionais de ensino. Cada edição dura seis meses.

Palavra de especialista

Síntese do Brasil

“É a partir da experiência e da vivência local que a criança começa a incorporar os processos de identidade. Em Brasília, isso é ainda mais importante, já que a cidade é fruto de uma mistura muito rica, formada por pessoas de vários locais do Brasil e do mundo. Ainda é muito difícil na fala de meninas e meninos ouvir a definição do que é o Distrito Federal. Quem é brasiliense? Apenas os que vivem no Plano Piloto? Para mim, Brasília é todo o DF, pois o brasiliense é a síntese de todo o brasileiro e isso é bom, porque incentiva o respeito ao que é diferente. Eles precisam pensar o DF não como um lugar de passagem, uma terra de ninguém, mas de todo mundo. É por volta dos 9 anos, que eles começam a construir os vínculos com o local em que vivem, daí a importância de reforçar esses laços.”

Cristiano Arrais, professor de teoria e metodologia da história da Universidade Federal de Goiás e um dos autores do livro História do Distrito Federal, adotado pela rede pública e por algumas escolas particulares do DF
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