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Correio Braziliense

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A emoção de inventar

Uma cadeira de rodas impulsionada por movimentos do rosto, pensamento e baterias foi desenvolvida por alunos do quinto ano B da Escola Classe 25 em Ceilândia. O tema da inclusão serviu de motivo para a criação do protótipo

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postado em 26/09/2013 13:30 / atualizado em 26/09/2013 11:18

Maryna Lacerda

Carlos Vieira

O desenvolvimento de tecnologia não precisa ficar restrito aos centros especializados, e os alunos do 5º ano B, da Escola Classe 25, em Ceilândia, são a prova disso. Com poucos recursos, eles criaram uma cadeira de rodas movida por meio de estímulos cerebrais e movimentos do rosto. A lição mais importante, no entanto, foi a quebra do paradigma de que os conteúdos ministrados são difíceis demais para crianças na faixa de 10 anos. O resultado foi o aumento de autoestima dos alunos, o que foi revertido em melhores notas e mais participação em aula.

O projeto começou com a preparação: três meses de aulas com noções de robótica, linguagem de programação, eletrônica e inglês técnico. A segunda etapa foi a construção do protótipo, processo que demorou cerca de dois meses. O responsável é o professor de atividades Marcelo Almeida, 39 anos, que nutre uma paixão pela área tecnológica. Além da formação em pedagogia, ele é especialista em eletrotécnica. “Eu acabei trazendo um pouco desse meu conhecimento para a escola. Apresentei o conteúdo teórico, e eles adoraram”, resumiu.

O interesse foi tamanho que os garotos pediram para colocar em prática o que tinham aprendido e, dos 23 integrantes da turma, sete se engajaram com mais paixão no projeto. “O critério de escolha para desenvolver a cadeira foram os alunos com melhor rendimento e também os que tinham alguma dificuldade, como forma de incentivo. Acredito que tenha dado certo, porque vi que aqueles com maior facilidade ajudavam os demais. Foi uma troca de experiências muito positiva”, avaliou Marcelo.

A escolha de cadeira de rodas não foi por acaso. O projeto segue uma preocupação da escola com a integração de portadores de necessidades especiais no ambiente estudantil. Cerca de 15% dos estudantes da EC 25 têm algum tipo de deficiência, de acordo com a diretora Deibia Sousa. “A inclusão é uma realidade da nossa escola. Nós nos preocupamos desde as primeiras séries em apresentar o assunto e incentivar o convívio entre os alunos”, explicou.

 

Software
A cadeira funciona com uma placa, chamada arduíno, que comanda os movimentos das rodas e três softwares. Um dos programas lê o movimento da face do operador, outro traduz os estímulos cerebrais, e o terceiro repassa os comandos à cadeira. Assim, com o levantar das sobrancelhas, ela se move para frente. Com o esgar da bochecha para a direita ou para a esquerda, as rodas vão para um lado ou outro. É possível andar de costas, mas esse recurso foi dispensado por questão de segurança: “Preferi não colocar a ré para evitar que eles se machuquem”, justifica Marcelo.

Tudo isso só é possível com o aparelho acoplado à cabeça do usuário — uma espécie de capacete com 18 eletrodos que leem os impulsos elétricos produzidos em diferentes áreas do cérebro, como os lóbulos central, temporal e parietais. O recurso é semelhante ao encefalograma (exame que registra graficamente as correntes elétricas produzidas no encéfalo por meio de eletrodos colocados no couro cabeludo), mas foi adaptado para jogos de computador e readaptado à cadeira. A placa arduíno capta esses estímulos e determina a direção que as rodas devem seguir. Para operá-la é necessário treinamento e um pouco de sorte, já que a sensibilidade dos eletrodos varia conforme a pessoa.

 

O desafio de encontrar a calibragem certa para cadeira e capacete animou Gabriel Augusto Rodrigues Teixeira, 10 anos. O garoto, que já desmontava o computador de casa por brincadeira, agora pensa em seguir carreira na área. “Pretendo cursar engenharia mecatrônica e inventar mais coisas”, entusiasmou-se. É ele quem dirige a cadeira e, para isso, precisou de duas semanas de treino e algumas trombadas em armários e paredes. “Até encontrarmos o jeito adequado de funcionamento, bati um pouco nas coisas, mas valeu muito a pena”, garantiu. A relevância do protótipo foi reconhecida por quem realmente precisa. “Tenho dois amigos que usam cadeira de rodas, e eles adoraram a ideia quando contei”, alegrou-se.

Envolvimento
A descoberta do universo computacional transformou-se em conquista para Radira Alves dos Santos, 10 anos. “Eu não conhecia muito o assunto e adorei entender o funcionamento dos softwares e o nome deles”, explicou a menina. Para quem antes via o tema como mistério, hoje a aluna conta com desenvoltura as características dos recursos. “É um programa open source, ou seja, código aberto. Isso significa que qualquer pessoa pode ter acesso ao código-fonte e, assim, ajudar a corrigir erros. É bom para todos”, definiu.

 

O ganho de aprendizado foi significativo, segundo Hellen Antunes Fernandes, 10 anos. “Eu melhorei o raciocínio lógico, e o pensamento ficou mais rápido”, descreveu. Ela sentiu mais interesse em participar das aulas e em fazer os deveres. “Eu gosto mais de vir para a escola, as aulas ficaram bem mais divertidas”, avaliou.

A motivação é percebida também pela direção da EC 25, tanto em termos de convivência quanto em assiduidade. “O envolvimento entre mestre e alunos é fundamental nesse processo. Quando o professor tem que tirar um atestado, por exemplo, os meninos ligam para a secretaria querendo saber como o Marcelo está e se terão aula no dia seguinte. Além disso, é uma turma que não tem alto índice de faltosos. Eles gostam de vir para cá”, concluiu a diretora Deibia Sousa.

Criada na Itália

É um software usado em projetos eletroeletrônicos de baixo custo e acessíveis a amadores. Foi criada em 2005, em Ivrea, na Itália, para ser usada em projetos escolares.


Características técnicas

Peso suportado

até 100kg

Custo

R$ 200
(equipamentos)

Velocidade máxima

7km/h

Uso

adulto e infantil

Autonomia das baterias da cadeira:

30 horas

Autonomia das baterias da placa:

2 horas

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