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Metade das particulares fracassa no Enem

Estudo feito pela USP mostra que 52% das escolas privadas têm desempenho igual às públicas no exame federal

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postado em 24/02/2014 10:06 / atualizado em 24/02/2014 10:11

Janine Moraes
Embora propagandas de escolas particulares prometam sucesso absoluto no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), cerca de metade dos alunos da rede privada tiveram um desempenho igual ou abaixo da média na prova em 2013, aponta levantamento da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Utilizando os dados mais recentes do Ministério da Educação (MEC), o estudo mostra que, de cada 10 alunos das escolas privadas que fizeram a prova, cinco deles atingiram até 560 pontos do exame, que pode valer até 1.000 pontos. A análise ainda revela que 52% dos estudantes do ensino privado têm resultado equivalente àqueles que vêm de escolas estaduais.

Autor do estudo da USP, Ocimar Alavarse explica que os cálculos foram feitos com os dados da distribuição de notas de alunos, tanto da rede pública quanto da privada, em vez de utilizar as médias já divulgadas pelo MEC. Segundo o levantamento, 98% dos alunos das redes estaduais de todo o Brasil alcançaram até 560 pontos no Enem, sendo que a média foi de 479,4 pontos. Já entre as escolas particulares, 52% dos estudantes atingiram até 560 pontos e a média foi um pouco maior: 558,1 pontos. “A média sempre oculta uma variabilidade dos resultados. Com esses dados, podemos ver que, na verdade, aproximadamente metade das escolas privadas atingiram a pontuação que a maioria das escolas públicas consegue”, argumenta.

Alavarse avalia que as escolas privadas também estão falhando na preparação dos alunos para o Enem. Segundo ele, a média de 560 pontos é muito baixa para alcançar as notas de corte do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) nos cursos mais concorridos das universidades. Na Universidade de Brasília (UnB), por exemplo, o estudante teve que fazer, no mínimo, 745,66 pontos no Enem, para tentar uma vaga em direito pelo Sisu neste ano.

O professor diz também que é ilusão acreditar que a maioria das escolas particulares se sai melhor no Enem do que as instituições estaduais. Morador da Asa Sul, o estatístico Marcus Mattos Riether, 50 anos, conta que ficou “incomodado” ao descobrir que o filho não havia aprendido todo o conteúdo exigido pelo Enem, ao concluir o 3º ano do ensino médio em uma escola particular da região. “Como o Bruno não passou de primeira na Universidade de Brasília (UnB), ele foi para um cursinho. Lá, ele percebeu que não tinha conhecimento de algumas matérias de matemática e física”, lembra. Depois de fazer um semestre no pré-vestibular, Bruno ingressou no curso de engenharia mecatrônica na UnB.

Aprendizagem
Dois anos depois de mudar os filhos da escola privada para pública por motivos financeiros, o corretor de imóveis Clayton Pereira, 46 anos, avalia que os jovens têm recebido o mesmo nível de aprendizagem. A mulher dele, a técnico judiciária Maria Rejane Braz Faustino, 45 anos, faz uma ponderação. “Na escola particular, houve uma desatenção muito grande por parte da escola com o português. Os meus filhos tiveram zero de gramática”. Para Clayton, tanto a escola pública quanto a particular estão pecando bastante. “A vantagem da privada é que professor não falta, não tem greve, o que é um prejuízo a mais para o aluno da escola pública”, opina.

A baixa média dos alunos do ensino privado no Enem aponta a necessidade de as escolas estabelecerem um foco de aprendizagem com vistas à prova, disse Alavarse. Ele afirma também que as instituições devem investir mais em instrumentos para avaliar se o aluno está de fato aprendendo. A presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), Amábile Pacios, diz não reconhecer a legitimidade do levantamento da USP, ao mostrar que 52% dos alunos de escolas privadas têm desempenho equivalente ao dos que estudaram na rede estadual. “Esse número não diz nada. Comparar é um ato antieducacional”, alega.

A rejeição em relação ao estudo se dá, principalmente, pelas críticas da professora contra o próprio Enem. “Escola boa é aquela que responde à prova do jeito que o ministro quer ou a escola boa é aquela que pega um menino em dificuldade e o ajuda a evoluir no aprendizado?”, provoca. Para ela, a prova deveria ser regional. “Uma prova única não dá conta de fazer tudo isso. O Enem tinha que ser apenas para selecionar alunos para o ensino superior”, defende.

Má qualidade generalizada Especialistas em educação afirmam que a baixa qualidade da rede de ensino pública acaba se refletindo no sistema privado. “É um processo de retroalimentação”, explica a professora de pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP) Maria Cecília Cortez. “É um ciclo que começa com a má formação dos professores, que em sua maioria vêm das escolas públicas. Sem condição de passar em universidades renomadas, eles acabam estudando em faculdades privadas”, argumenta. Para o professor da Faculdade de Educação da USP, a qualidade dos mestres é um fator fundamental para a aprendizagem. “Os alunos refletem os professores”, opina.

Maria Cecília afirma também que dificuldades estruturais da rede pública, como a ausência recorrente de professores na sala de aula, faz com que se estabeleça um baixo nível de concorrência frente às escolas particulares. “Elas não pressionam as privadas a serem melhores. Basta a elas serem um pouquinho melhores”, pontua. Segundo a professora, há unidades de ensino privadas que se promovem com uso de tecnologia para atrair os pais, mas que esses artifícios não garantem um aprendizado de qualidade se não forem acompanhados de bons educadores. “Na rede privada, os professores não faltam, não fazem greve. Mas isso não quer dizer que eles sejam estáveis. Muitos deles são contratados ao longo do ano. Nem sempre há um comprometimento em se trabalhar de forma conjunta no ensino médio,” prosseguiu Maria Cecília.

Com exceção das escolas de elite, que contam com rigorosos processos de seleção, as escolas particulares também sofrem com a pressão de “agradar à clientela”, afirma a professora da USP. “Existem sim unidades de ensino que trabalham com nível abaixo do que é exigido pelo Enem (Exame Nacional de Ensino Médio) porque não querem perder mercado.” A especialista avalia que os pais nem sempre procuram as escolas com o objetivo exclusivo que os filhos tenham sucesso em provas de seleção, como o Enem. Com isso, as escolas particulares, por vezes, abrem mão de conteúdo para investir em atividades de socialização, como festas da família ou feiras de ciência. (DG)

 

 

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