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A música não os toca

Estudo espanhol identifica pessoas incapazes de sentir prazer com melodias e canções, apesar de terem satisfação com outros estímulos. A causa do fenômeno ainda é desconhecida

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postado em 07/03/2014 12:06 / atualizado em 07/03/2014 12:12

Flávia Franco

Há milhares de anos, a música é uma grande fonte de prazer para o ser humano. Antigos povos tinham o hábito de se reunir para escutar melodias, como se faz até hoje, época em que concertos atraem multidões prontas para cantar em uníssono com os ídolos. No entanto, de acordo com uma pesquisa espanhola publicada esta semana na revista Current Biology, existem pessoas insensíveis ao poder dessa arte. Para elas, os sons musicais não geram nenhum tipo de satisfação.

O estudo, realizado pela Universidade de Barcelona, constatou que esses indivíduos são perfeitamente capazes de ter experiências prazerosas de outras formas. O diferencial deles está mesmo na música, que não é compreendida da mesma forma como faz o restante das pessoas. Por isso, a condição recebeu o nome de anedonia musical. “A possibilidade de identificar essas pessoas abre portas para compreender melhor de que forma a música é traduzida em emoções”, explica Josep Marco-Pallarés, líder da pesquisa. Além disso, o fenômeno sugere que há diferentes caminhos para a ativação do centro de prazer do cérebro, uma constatação que pode ajudar, por exemplo, em estudos sobre o vício.

Para chegar à conclusão de que a ausência de prazer com a música existe, os pesquisadores partiram de uma investigação na internet. Eles disponibilizaram um questionário on-line que avaliava a relação das pessoas com as melodias. Dos 1,5 mil indivíduos que responderam o instrumento de pesquisa, 5,5% se mostraram muito pouco sensíveis às canções. “A proposta inicial era descrever os principais aspectos que diferenciam a gratificação de experiências musicais entre as pessoas. Com as respostas obtidas, observamos que alguns participantes relataram sentir pouca ou nenhuma sensibilidade relacionada à música”, conta Marco-Pallarés.

Esse dado, no entanto, ainda era só um indicativo que precisava ser mais bem avaliado. “Não estávamos convencidos. Pensei que alguns voluntários tinham respondido sem cuidado, outros poderiam ter amusia (deficit específico para percepção musical, que afeta cerca de 3% da população)”, conta o pesquisador. Foi então que se decidiu fazer testes de laboratório.

Recompensa
A partir do questionário, os cientistas chegaram a 30 pessoas que podiam ser divididas em três grupos: com baixa, média e alta sensibilidade para música. Elas realizaram, então, duas tarefas. Na primeira, ouviam trechos de canções consideradas agradáveis (algumas selecionadas por elas mesmas, outras por outros indivíduos) e avaliavam o grau de prazer que sentiam durante a atividade.

Na segunda, os voluntários participavam de um jogo que podiam ganhar ou não dinheiro, uma tarefa que tinha a função de verificar se os insensíveis à musica conseguiam experimentar satisfação com outras atividades. “Recompensa monetária também é capaz de gerar sensações de prazer nas pessoas”, justifica o pesquisador espanhol. Em todos os momentos, os voluntários tinham sinais físicos, como o batimento cardíaco e a mudança de temperatura na pele, monitorados.

Os resultados mostraram que as duas experiências apresentaram envolvimento entre os circuitos neurais responsáveis pelo sistema de recompensas, que libera dopamina. No entanto, para o grupo insensível à música, as respostas gratificantes só apareceram no segundo exercício.

A descoberta pode levar a uma nova compreensão sobre o sistema de recompensa do cérebro, relacionado à sensação agradável experimentada nas mais diversas atividades, como fazer sexo e provar um pedaço de bolo de chocolate. “A possibilidade de as pessoas serem insensíveis a um tipo de estímulo, mas não a outros, sugere que podem existir diferentes maneiras de acessar o sistema e que, para cada pessoa, algumas formas podem ser mais eficazes do que outras”, afirma Marco-Pallarés. “Estamos falando de tipos de estímulos gratificantes muito gerais. Claro que existem pessoas que gostam de ópera e outras que odeiam, mas gostam de rock. O ponto importante no estudo é que um domínio inteiro, a música como um todo, pode afetar diferentemente a rede de recompensas”, completa.

Origem
O psiquiatra Thiago Blanco, que não participou da pesquisa, concorda com o cientista espanhol e ressalta que o fato de a reação do sistema de recompensas do cérebro variar de acordo com cada incentivo indica a possibilidade de a anedonia específica musical ter uma causa física. “O prazer está diretamente associado à capacidade de o sistema ser ativado e liberar uma maior quantidade de dopamina, responsável pela gratificação. Mas essa reação é diferente para cada tipo de incentivo”, reforça.

Neurologista e professor da Universidade Católica de Brasília, Carlos Bernardo Tauil explica que todo esse processo está relacionado às conexões cerebrais. Para ele, uma falha nesse sistema pode explicar a falta de prazer específica. No entanto, a confirmação dessa condição pode ser complicada. “São detalhes que não vão aparecer em exames convencionais, como a ressonância magnética. Pode ocorrer um problema na transmissão de informações entre os neurônios ou nas sinapses, área destinada à comunicação entre as células nervosas”, explica.

Tauil conta que existem trabalhos que propõem uma recuperação da capacidade de sentir prazer relacionada a estímulos diversos. “Causas mais graves, como acidentes e traumatismos cranianos, podem causar essas incapacidades específicas também. Em busca de amenizar os efeitos desses traumas, pesquisadores americanos estão tentando readaptar o sistema de recompensa para que as pessoas voltem a sentir prazer”, conta.

Marco-Pallarés adianta que ele e sua equipe vão se dedicar à busca das causas da anedonia musical, investigando, inclusive, a possibilidade de o fenômeno ter origem física. “Ainda não sabemos se essa condição está relacionada a alguma formação do cérebro. Na verdade, pouco sabemos sobre as bases cerebrais que podem explicar a anedonia específica para a música, mas estamos trabalhando nisso”, garante.


Específico
Anedonia é a perda da capacidade de sentir prazer. É um sintoma típico da depressão, também encontrado em alguns tipos de esquizofrenias e no transtorno de personalidade. Está associado a baixos níveis de neurotransmissores como serotonina, dopamina, adrenalina e noradrenalina no sistema nervoso. No estudo, os pesquisadores encontraram um tipo específico de ausência de prazer, relacionado apenas à música, daí a expressão anedonia musical.

Dois tipos
A amusia é considerada uma desordem musical que aparece principalmente como um defeito de processamento de campo. Engloba memória musical e reconhecimento. Existem dois tipo: amusia adquirida, resultado de lesão cerebral, e amusia congênita, causada por uma anomalia que a pessoa possui desde o nascimento e que impede o processamento da música pelo cérebro.

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