Educar para não (ter de) punir

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postado em 10/03/2014 10:19

ALDO PAVIANI
Professor emérito da Universidade de Brasília e geógrafo da Codeplan

CILENE RODRIGUES
Linguista, Professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

ISAAC ROITMAN
Biólogo, professor emérito da Universidade de Brasília e coordenador do n-Futuros

Publicação: 10/03/2014 04:00


 


Desde o começo de 2014, a mídia deu destaque ao escalonamento da violência no Distrito Federal. Para espanto de todos, perdem-se mais vidas no DF do que em uma metrópole como São Paulo. Em resposta, nosso governador prometeu punir “qualquer atitude que coloque em risco a população”. Mas como evitar comportamentos delituosos, sobretudo de jovens adolescentes? Como evitar que uma criança se torne um bandido, um assassino?

Essa é talvez a pergunta que requer a resposta mais elaborada e o trabalho mais árduo de uma sociedade e de seus governantes. Estando vivo, um pensador como Darcy Ribeiro logo nos diria que é preciso, acima de tudo, atenuar a distância entre as classes sociais. Distância que só aumenta no decorrer dos anos. Mas como fazer isso? Um olhar mais amplo nos evidencia que a democratização da educação é uma das chaves para um futuro mais pacífico e virtuoso.

Países como a Finlândia, com investimento maciço no sistema educacional, registram baixíssimos índices de violência. Portanto, temos de investir incansavelmente na educação formal e informal das nossas crianças para que, daqui a 20 anos, tenhamos uma sociedade sem violência. Isto é, para que a maioria das crianças chegue à idade adulta podendo contribuir para a felicidade das famílias e o crescimento equitativo e saudável do nosso país.

 Se fosse um de nós, o governador do DF, teria, em sua fala na televisão, dado ênfase aos projetos educacionais do GDF. Bom exemplo seria a notícia da publicação, no Diário da Oficial do Distrito Federal, de decreto assinado pelo próprio governador, criando, no âmbito da Secretaria de Cultura, o Espaço Cultural Palavida.

O projeto do museu, idealizado por um conjunto de pensadores da Universidade de Brasília, teve o apoio do ex-reitor José Geraldo de Souza Junior e do atual reitor, Ivan Camargo. Isso nos releva que é possível a continuidade de projetos nas mudanças de gestores. Ainda em estágio embrionário, o projeto foi ancorado no Núcleo de Estudos do Futuro da UnB (n-Futuros/CEAM) e, como exemplo de boa parceria, foram constituídos dois grupos de trabalho, um da UnB e outro com representantes de várias secretarias do governo do Distrito Federal. Os dois grupos, em comunhão de ideias, propuseram a construção de um espaço multicultural voltado para a aprendizagem sobre os povos que habitam a terra: saberes, estórias e histórias, arte, religião, língua, culinária.

Na concepção original, o espaço volta-se para a construção do saber em família. Acreditando que brincando também se aprende e se educa, os pensadores do museu propõem que, além de atividades e de conteúdos voltados para jovens e adultos, o Palavida contenha espaço para as crianças, para que elas possam conhecer aspectos da infância em diversas culturas.

A ideia é criar, dentro do museu, lugar dedicado ao imaginário infantil, em que nossas crianças possam descobrir, brincando, a totalidade do globo terrestre, entendendo que nós, seres humanos, embora às vezes tão díspares no contexto econômico, na cultura e nas atitudes, carregamos dentro de nós valores universais ligados à preservação da vida. A criança que for hoje sensibilizada para esses valores jamais se tornará delinquente ou assassina no futuro.

O Palavida deverá contar com a parceria das embaixadas sediadas em Brasília na escolha e no fornecimento dos conteúdos e do material que possam mostrar a riqueza cultural de cada país. Esperamos que, ao estabelecermos o primeiro módulo, a visitação seja facultada a crianças, jovens e adultos do DF e de outras cidades, sendo previsível que atraia turistas de outras regiões e mesmo do exterior, em razão de ser instituição sem similar no continente.

Enfim, é projeto que contempla toda a comunidade local e não local, para que cada indivíduo, da periferia ou não, encontre seu lugar no futuro, respeitando e valorizando o lugar do outro. Esse espaço cravado no cerrado será o lugar de onde nós nos plasmaremos no outro. Ao observarmos o outro, descobriremos nós mesmos e entenderemos qual o nosso papel na história da civilização. Qual o caminho para a solidificação da paz, a valorização da vida e da natureza. É projeto para a educação informal de crianças, jovens e adultos. É isso! A institucionalização do Espaço Cultural Palavida vai na direção certa: educar agora para não (ter de) punir no futuro.
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